É constante e ameaçador o processo de aquecimento global, que todos nós sentimos, testemunhando antes desconhecidos altos-e-baixos das temperaturas, que causam chuva em excesso, ressacas fora do comum e eventos naturais mais graves ainda. Diversas iniciativas para promover a energia limpa, tanto no Brasil quanto no cenário internacional, vêm sendo adotadas pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Destaque para o fato de Lula ser o atual presidente do BRICS+, determinado a estabelecer um programa mundial de Transição Energética.


Documento recente, publicado pela revista Nature – Terra e Meio Ambiente, diz que os estudiosos classificam a situação do clima mundial como alarmante. O Observatório do Clima do Brasil publicou um resumo desse estudo, no mês passado, sob o título: “Aquecimento de 2ºC vai triplicar área incompatível com vida humana no planeta, diz estudo”. A matéria é de autoria da jornalista Leila Salim.
“Combinação de calor extremo e umidade é ameaça mesmo a adultos jovens e saudáveis”, destaca. Segundo ela, o aquecimento global, caso atinja os 2ºC acima dos níveis pré-industriais, tornará, no planeta, uma área maior que o Brasil insegura para a vida humana, com eventos de calor extremo ameaçando até mesmo a saúde de adultos jovens. A pesquisa foi liderada por cientistas do King’s College London e teve a participação de pesquisadores das universidades da Califórnia, Stanford, Columbia, Boston e do Instituto Goddard de Estudos Espaciais da Nasa.
Diz o estudo que um aquecimento de 2ºC acima das temperaturas pré-industriais (1850-1900) colocará 6,7% da área continental do planeta (cerca de 10 milhões de km2) em condições insalubres para o corpo de jovens adultos. Para efeito de comparação, a área do Brasil é de 8,51 milhões de km2. A área projetada – que atinge principalmente o norte da África, o sul asiático e o Oriente Médio – é o triplo do percentual observado nos últimos 30 anos (de cerca de 2,2% da área terrestre nas mesmas condições, entre 1994 e 2023). Para os idosos, mais suscetíveis ao calor, 35% da área continental pode se tornar insalubre com o mesmo aquecimento de 2ºC (contra uma área de 20% identificada entre 1994 e 2023).
Segundo o IPCC, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU, o limite dos 2ºC de aquecimento deve ser ultrapassado em algum momento entre o meio e o final deste século, caso as emissões de gases de efeito estufa não sejam drasticamente reduzidas. O objetivo do Acordo de Paris é justamente controlar o aumento da temperatura e mantê-lo “bem abaixo” dos 2ºC, preferencialmente em 1,5ºC. Há cientistas, no entanto, apontando que o aquecimento da Terra está acelerado e que os 2ºC podem ser atingidos já nas próximas duas décadas, até 2045.
Detalhes da pesquisa
A pesquisa combinou ciência climática e indicadores de mortalidade por calor extremo, fazendo um cruzamento de dados sobre os chamados limiares incompensáveis (em tradução livre da expressão uncompensable thresholds) e insuportáveis, ou letais (do original unsurvivable thresholds), de temperatura. Esses indicadores levam em conta a combinação entre altas temperaturas e elevada umidade, que impede o corpo humano de dissipar o excesso de calor através da transpiração. Quando o corpo não consegue mais se resfriar, ocorre o chamado “estresse térmico”, que pode ser fatal.
A fim de determinar riscos à saúde, os cientistas analisam a chamada temperatura de bulbo úmido (WBGT), cálculo que combina a temperatura da superfície do ar, a umidade e a velocidade do vento. Os limiares incompensáveis são aqueles além dos quais a temperatura do corpo humano aumenta descontroladamente, sem que o organismo consiga amenizá-la pelo seus próprios mecanismos de resfriamento. O cruzamento dos limiares letais/insuportáveis é aplicado quando a temperatura central do corpo humano atinge os 42ºC em até seis horas de exposição a altas temperaturas de bulbo úmido (em geral, acima de 34ºC).
O estudo mostrou que a intensificação do aquecimento global leva a um aumento na frequência e intensidade de ultrapassagem desses limiares, agravando a mortalidade por calor, mesmo entre indivíduos jovens, saudáveis, hidratados e não expostos diretamente ao sol.
Esse cenário se agrava a partir dos 2ºC de aquecimento e piora exponencialmente a cada décimo de grau adicionado. Com níveis de aquecimento entre 4ºC e 5ºC, por exemplo, 60% da área continental da Terra serão insalubres para idosos. Em temperaturas como essas, jovens também estariam ameaçados – sobretudo no Saara e sul asiático – pelo cruzamento dos limiares letais.
ONU abre debate sobre política energética
A Comissão Econômica para a América Latina, da ONU (CEPAL), publicou um “Texto para Discussão sobre a Política Energética do BRICS: desafios da transição energética” que, em síntese, descreve o processo e convida ao debate internacional. O documento é de autoria de Luciano Losekann e Felipe Botelho Tavares:
“O processo de transição para uma matriz energética com menor conteúdo de carbono apresenta particularidades quanto ao ponto de partida, à relevância das emissões do setor energético, aos objetivos e aos instrumentos utilizados pelos países. Com exceção do caso brasileiro, os países do BRICS contam com elevada participação de fontes fósseis na matriz energética. Analisando as tendências dos vetores da transição, percebemos que esses países ainda estão atrasados na difusão de renováveis, em relação aos países líderes, mas os ganhos de eficiência associados à expansão de fontes modernas foram significativos.
“A China tem mostrado um forte compromisso para a redução de emissões, e a escala dos programas de ampliação de fontes renováveis é destacada. A elevada participação de fontes renováveis particulariza a transição brasileira, em que as novas fontes renováveis, eólica e solar, têm o papel de compensar a perda de participação da energia hidrelétrica. Índia e África do Sul combinam os objetivos de transição aos de inserção social por meio do acesso à eletricidade, e a abundância de recursos fósseis acarreta menor engajamento da Rússia com a transição. As complementariedades e as similaridades no processo de transição energética resultam em oportunidades de cooperação entre os países do BRICS, pois há muito espaço para uma estratégia conjunta de transição energética.”
Energia Limpa avança no Brasil
Uma rápida busca em variadas fontes e encontramos as mais importantes políticas do Governo brasileiro, em prol da luta contra o aquecimento global.
Em agosto de 2024, foi lançada a Política Nacional de Transição Energética (PNTE), aprovada pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE). Este plano visa a integrar políticas e ações governamentais para reduzir emissões de gases de efeito estufa e promover a sustentabilidade. O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, destacou o potencial de atrair cerca de R$ 2 trilhões em investimentos na economia verde nos próximos dez anos, com a possibilidade de gerar 3 milhões de empregos.
Novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC): O Novo PAC, anunciado em 2024, destinou R$ 417,5 bilhões para ações de transição energética, entre 2023 e 2026. Esses investimentos abrangem desde a expansão de fontes renováveis até o desenvolvimento de tecnologias de baixo carbono, reforçando o compromisso do governo com a sustentabilidade.
Programa de Aceleração da Transição Energética (PATEN): Sancionado em janeiro de 2025, o PATEN busca estimular a substituição de fontes energéticas poluentes por renováveis. O programa também visa a aproximar financiadores e investidores de projetos sustentáveis, fortalecendo a economia verde no país.
Energia Solar no Programa Minha Casa Minha Vida: Em julho de 2024, foi instituído um programa para a implantação de energia solar em unidades do Minha Casa Minha Vida. O objetivo é reduzir a conta de energia elétrica das famílias beneficiárias, especialmente as de baixa renda, promovendo a inclusão energética e a sustentabilidade.
Participação no Fórum Econômico Mundial em Davos: Em janeiro de 2025, o governo brasileiro apresentou, durante o Fórum Econômico Mundial em Davos, um ambiente favorável a investimentos em energia limpa.
Lei do Combustível do Futuro: Iniciativas como a Lei do Combustível do Futuro consolidam o Brasil como referência na transição energética, destacando o compromisso do país com a sustentabilidade global. Sancionada em 2024, essa lei estabelece iniciativas de fomento à descarbonização, mobilidade sustentável e transição energética no Brasil. Estão previstos investimentos de R$ 260 bilhões, até 2037 no setor, com a neutralização de 705 milhões de toneladas de CO₂ no mesmo período.
Autorização para Desenvolvimento de Energia Eólica Offshore: Em janeiro de 2025, o Presidente Lula sancionou uma lei que autoriza o desenvolvimento de parques eólicos offshore. Essa iniciativa visa a reforçar a segurança energética do país e atrair investimentos no setor de energias renováveis.
Essas ações refletem o compromisso do governo Lula em posicionar o Brasil como líder na promoção de energias limpas, contribuindo para a mitigação das mudanças climáticas e o desenvolvimento sustentável.
Já se vê resultados
Dias atrás, o Ministério de Portos e Aeroportos (MPor) firmou um Memorando de Entendimento para impulsionar o transporte marítimo sustentável com o governo da Noruega, representado pelo embaixador Odd Magne Ruud, do Ministério do Clima e Meio Ambiente norueguês. O acordo contribui para o cumprimento de metas climáticas globais. A iniciativa prevê a criação de um corredor marítimo entre os dois países, permitindo a circulação de navios movidos por combustíveis de baixo ou zero carbono, reduzindo significativamente as emissões de gases de efeito estufa.
“Esse é um projeto que vai trazer benefícios para todo o mundo, não apenas para os dois países. Junto com o governo norueguês, nós adotamos um compromisso capaz de tornar o modal marítimo ainda mais sustentável e ecologicamente desenvolvido. Estamos comprometidos em construir um setor que alie desenvolvimento econômico e responsabilidade ambiental, posicionando o Brasil como referência no cenário global”, afirmou o presidente do Brasil e do BRICS+.

Entusiasta do tema, Luiz Inácio Lula da Silva, em recente encontro com o presidente da Assembleia da China, Zhao Leji. Foto: GOV-PR
Além da troca de conhecimentos, o documento estabelece um conjunto de ações estratégicas para impulsionar a logística sustentável. Entre as principais medidas estão: a viabilização do corredor marítimo de baixo carbono, o fortalecimento da cooperação empresarial entre Brasil e Noruega para a sustentabilidade, o estímulo a cadeias produtivas sustentáveis e o alinhamento com compromissos internacionais, como a Agenda 2030 da ONU e o Acordo de Paris.
PROJETO — A parceria se insere nos esforços globais para enfrentar as mudanças climáticas e está conectada à “Declaração de Clydebank”, firmada na COP26, em 2021, que propõe o desenvolvimento de corredores marítimos verdes. O projeto-piloto contará com a participação de indústrias e institutos de pesquisa para definir rotas e portos estratégicos, além de viabilizar o uso de combustíveis limpos. O Brasil e a Noruega planejam apresentar os primeiros resultados desse trabalho na COP30, que será realizada em Belém, entre 10 e 21 de novembro deste ano.
O embaixador da Noruega, Odd Magne Ruud, ressaltou que os dois países possuem competência para alcançar a sustentabilidade marítima. “Ambos os países possuem o conhecimento e a tecnologia necessários para avançar rumo a um transporte marítimo mais sustentável. Com uma história marítima sólida, a Noruega reafirma seu compromisso com a transição energética e reconhece, nesse projeto inovador, uma oportunidade estratégica para demonstrar ao mundo o potencial de uma navegação mais sustentável”, afirmou.
COMPROMISSO — O Ministério de Portos e Aeroportos vem ampliando iniciativas voltadas à sustentabilidade nos diferentes modais de transporte. Recentemente, lançou a primeira Política de Sustentabilidade da logística nacional, um marco na gestão pública que busca incentivar práticas ambientais responsáveis no setor portuário, aquaviário e aeroportuário. A estratégia envolve a colaboração com associações do setor e demais órgãos para equilibrar desenvolvimento econômico, preservação ambiental e inclusão social. A implementação dessa política prevê ações tanto no setor público quanto no privado. No âmbito público, será elaborada uma Agenda Anual da Sustentabilidade, contemplando projetos, estudos e possíveis revisões regulatórias. Já para as empresas privadas, a adesão será estimulada por meio do Pacto pela Sustentabilidade, incentivando boas práticas ambientais, sociais e de governança.

O acordo entre Brasil e Noruega contribui para o cumprimento de metas climáticas globais.
Foto: Sérgio Francês/MPor
(Fontes: Gov.br, fpabramo.org.br, Agenciagov.br, diplomaciabusiness.com e AgênciaReuters.com.)
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