
Prezad@s Amig@s leitores, mais um domingo, mais poesia. Os dois poemas que estou trazendo hoje seguem a cronologia, a partir da minha chegada a Luanda, em 2005. Percebam que uma descrição minha, seja da paisagem natural, seja da cidade, está emoldurando os sentimentos de quem chega, se engajando no Projeto de Reconstrução Nacional, depois das décadas de guerra. Primeiro, contra os portugueses colonizadores e, logo após a expulsão dos “tugas”, outra guerra, entre facções de militares, na disputa pelo poder.
Quando chegamos, os socialistas já estavam governando e, com apoio da China, já reconstruíam a infraestrutura do País devastado. Cabia, a nós, repassar conhecimentos de técnicas modernas de Comunicação Social para os quadros do governo, profissionais de imprensa e estudantes da área. Um detalhe: Diria que esta ainda era uma fase de adaptação ao novo lar temporário. Veja, abaixo, o contexto histórico em que o Grupo Aldeia – do qual fiz parte da Direção – se inseriu no trabalho de reconstrução do país.
Como estava Angola quando chegamos
Considerei ser importante para melhor ‘decifrar’ os poemas, acrescentar os dados abaixo, que comprovam: Angola ficou 40 anos sem escolas funcionando, de todos os níveis, desde a alfabetização até o ensino superior. Nossa missão era, o mais rapidamente possível, resgatar esse tempo perdido, especificamente na área de Comunicação Social e Alfabetização.
A guerra anticolonial em Angola, também conhecida como Guerra de Independência, durou 13 anos, de 4 de fevereiro de 1961 até 25 de abril de 1974. Esse conflito foi parte das lutas pela independência das colônias portuguesas na África e culminou na assinatura do Acordo do Alvor, que estabeleceu a independência de Angola em 11 de novembro de 1975.
Após a independência, Angola mergulhou em uma guerra civil que durou 27 anos, até 2002. Essa guerra foi marcada por disputas entre os principais movimentos políticos: o MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola), a UNITA (União Nacional para a Independência Total de Angola) e a FNLA (Frente Nacional de Libertação de Angola). O conflito foi agravado por interesses internacionais, durante a Guerra Fria: a luta pelo controle dos recursos naturais, como petróleo e diamantes.
A guerra civil deixou um legado de destruição e desafios para a reconstrução do país, mas Angola tem trabalhado para superar esse passado e construir um futuro mais estável. O petróleo em abundância continua sendo o sustentáculo de sua economia.
Nos poemas abaixo vão aparecer termos nos idiomas ancestrais de Angola. Por exemplo: kamba = amigo; Kianda é a divindade que protege a cidade de Luanda.
Missão da missão
L’amour, glamour, mon amour
No tique-taque do efêmero
o vislumbre do deslumbre
que de belo nos sucumbe
no lilás do entardecer.
O glamour da natureza,
nota musical que embriaga de tanta beleza
invoca e provoca no seio o silêncio de ser.
E você defenestra o mal mas ‘desconsegue’ viver?
ora, “meu kamba”! ora, em sentido enternecer
e os portais que se abrem no céu vão se oferecer.
Oh, mon amour, inquietude existencial
vem quieta, amorosa, animal, natural,
a despertar e consolidar sonhos
em nuvens evanescentes de pedra pome.
Que protejam e guiem o irmão
na rota, no trilho, na trilha
desta estrada de luz,
não de pedra-sabão.
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A nova Marginal de Luanda, Avenida 4 de Fevereiro e a Baía de Luanda ao cair da noite. Vista da Faculdade de Ciências da Universidade Agostinho Neto. Cidade de Luanda, capital de Angola. Foto: Angola Image Bank.
Pelas ruas de Luanda
Lava, esfrega, enxágua, desinfeta, enxuga
a sola do meu sapato
e não é tempo perdido no ato
pois que a lama, o pó, águas-dejetos
pavimentam e moldam nossas trilhas.
Milhas e milhas pisadas
em ruas esburacadas
daquele que anda que anda
na cidade da Kianda.
E a tênue nuvem de poeira,
que teima em avermelhar o anoitecer,
pousa suavemente nas pedras do meu pisar.
E cola, se aloja, nas ranhuras emborrachadas
do caminho do meu lar.
(Luanda 2006)
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