Domingo com rabiscos literários

As estupefacientes festas eternas dos lordes – e os ignóbeis olhares que sempre dirigiam a seus servos – procrastinavam cada vez mais a conclusão do portento dos deuses. Ficava sempre postergada a materialização de tantos sonhos do sumo sacerdote, substituídos pelo desejo sempre presente de quem continuava a exercer sua ação dominante das mentes dos trabalhadores braçais.
O vinho era o sinônimo da alegria e do desleixo; a orgia dilacerava planos e o tempo corroía as pedras que, dezenas de anos expostas ao calor, o frio e às tempestades do deserto, mudavam aos poucos de forma, perdendo as dimensões ideais para a montagem final da imensa figura geométrica, o oráculo dos deuses, a felicidade da nação.
Danação.
Seria aquilo subversão?
Ou apenas frívola irresponsabilidade?
Seria apenas bondade, ou perdição?
Seria o fim dos desejos, dos mitos dos medos?
Seria apenas mais um rito, segredo?
Para quando seria a construção?
ou seu fim era fadado à desilusão?
Doce intenção de seguir, do zeloso guardião
daquela semente de olmo que insistia em brotar no sertão.
Mas o vigilante, sereno, não mente,
apenas sente que o destino é a conclusão.
Marcha firme e em desatino, briga, ralha, grita,
conclama e brande as mãos,
no sentido de evitar mais uma frustração.
Eis, porém, que seu brado desperta, lá no fundo, o outro guardião,
Um tanto imundo da poeira subida do chão,
Mas potente como seu irmão, líder recente da legião.
Deu-se, então, a união, o despertar das mentes e do coração
e, das palavras, partiram para a ação,
erguendo blocos em profusão, ao som dos violinos da canção,
dando-se, por fim, ao arrepio do vilão, mais uma seresta ao violão.
30.09.80

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