Tarifaço: Brasil afinado com Rússia e China.

Written in

by

Sputnik. Foto: Eraldo Peres

A guerra comercial, declarada por Donald Trump contra o mundo, escalou, na semana que finda, com a queda de braço entre Estados Unidos e China, as duas maiores economias do planeta. A imposição de tarifas mútuas, desencadeada por iniciativa do presidente norte-americano, vem causando sucessivas turbulências nos mercados e alimenta o temor de uma recessão global. Os EUA estão poupando a Rússia e o Brasil, que vai pagar e cobrar módicos 10% dos norte-americanos. Nesse contexto agitado e cheio de interrogações da geopolítica recente, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, atual presidente do BRICS+, agenda encontros com Vladimir Putin e Xi Jinping. Talvez definam posições conjuntas, ou apenas tenhamos mais clareza das respostas nos próximos 90 dias, quando Trump promete voltar ao tema.

Na Rússia, Lula participará das celebrações dos 80 anos da vitória da União Soviética sobre a Alemanha nazista, na segunda guerra mundial. É o feriado mais importante da Rússia, que ocorre no dia 9 de maio, com um grandioso desfile cívico-militar em Moscou. Aproveita para conversar com Putin sobre os BRICS+ e o mundo.

Em seguida, embarca para a segunda visita oficial à China, em maio, quando terá um novo encontro com o presidente Xi Jinping. Uma ótima oportunidade para os dois líderes conversarem sobre o futuro do planeta. A visita ocorrerá no contexto da Cúpula entre China e países da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac). A data da viagem – entre 12 e 13 de maio – foi acertada esta semana, durante a 9ª Cúpula da Celac, realizada em Honduras, que contou com a presença de Lula. A visita anterior ocorreu em abril de 2023, que foi retribuída por Xi Jinping em visita de Estado em novembro do ano passado, após a Cúpula do G20, sediada pelo Brasil. Além disso, eles haviam se encontrado outra vez em 2023, na Cúpula dos BRICS, na África do Sul.

​Atualmente, as relações comerciais entre os Estados Unidos e a China estão marcadas por tarifas de importação estratosfericamente elevadas, gerando tensões comerciais entre as duas nações.​ Acompanhe como foi essa escalada.

Tarifas dos Estados Unidos sobre produtos chineses:

2 de abril de 2025: O presidente Donald Trump anunciou uma tarifa adicional de 34% sobre as importações chinesas, além das tarifas pré-existentes de 20%, resultando em uma taxa efetiva mínima de 54% sobre os produtos chineses. ​

9 de abril de 2025: O governo dos EUA aumentou as tarifas sobre as importações chinesas para 145%. ​

Tarifas da China sobre produtos dos Estados Unidos:

10 de abril de 2025: A China impôs uma tarifa de 84% sobre produtos importados dos EUA em resposta às medidas tarifárias americanas. ​

11 de abril de 2025: A China anunciou um aumento das tarifas sobre produtos dos EUA para 125%, a partir de 12 de abril de 2025. ​

Essas medidas refletem uma intensificação da guerra comercial entre os dois países, com implicações significativas para o comércio global e as economias de ambas as nações.

Enquanto nossos olhares se voltam para a Ásia, outros movimentos ocorrem no comércio internacional. A partir de hoje, entram em vigor também a tarifa de 20% de importação de produtos da União Europeia e os 25% que o Canadá impôs aos automóveis comprados dos EUA.

Xi Jinping. Foto: Divulgação

China se posiciona com firmeza

O presidente da China, Xi Jinping, afirmou ontem (11) que “não há vencedor numa guerra de tarifas” e alertou que “ir contra o mundo levará ao isolamento”, dando um recado claro aos Estados Unidos, em meio à crescente tensão comercial entre as duas potências. As declarações foram feitas durante encontro com o primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez, na Casa de Hóspedes Diaoyutai, em Pequim.

A fala de Xi ocorre no mesmo dia em que o Ministério das Finanças da China anunciou um aumento significativo nas tarifas sobre produtos americanos, que passarão de 84% para 125% a partir deste sábado (12). A medida é uma resposta à mais recente escalada tarifária imposta por Washington. Em paralelo, o Ministério do Comércio da China entrou com um processo contra os Estados Unidos na Organização Mundial do Comércio (OMC), acusando Washington de adotar “práticas unilaterais de coerção e bullying” que violariam as regras internacionais do comércio.

Durante a reunião com Sánchez, Xi Jinping destacou que a China não teme “qualquer supressão irracional”, citou o histórico de desenvolvimento do país, baseado na “autossuficiência e trabalho árduo” e avaliou: “Não importa como o ambiente externo mude, a China fortalecerá sua confiança, manterá sua determinação e se concentrará em administrar bem seus próprios assuntos”.

Fez, ainda, um apelo à união global, defendendo que “somente por meio da solidariedade e cooperação de todos os países será possível manter a paz e a estabilidade mundiais”, em um cenário que descreveu como marcado por “múltiplos riscos e desafios sobrepostos”.

O líder espanhol, Pedro Sánchez, verbalizando o pensamento dominante na Europa, concordou que “não haverá vencedores em uma guerra comercial” e declarou apoiar o fortalecimento das relações entre a União Europeia e a China. Segundo ele, tanto a Espanha quanto o bloco europeu “estão prontos para fortalecer a cooperação com a China e salvaguardar a ordem comercial internacional”.

Este é o momento do sul global

O analista político e historiador, Miguel Stédile, vislumbra o futuro, afirmando que o tarifaço imposto pelo presidente Donald Trump aos parceiros comerciais dos Estados Unidos abre oportunidade para uma nova arquitetura financeira global liderada pelos países do BRICS.

“Agora, você tem uma situação catastrófica que exige respostas mais rápidas e que abre novos espaços. Fiquemos atentos à vantagem porque, nesse meio tempo, os russos foram criando sistemas, os chineses também, então a gente tem uma alternativa, não vai ser pego desprevenido. São alternativas que estão nascendo, ainda não estão consolidadas, mas, pelo menos, existe um plano B.”

A revista Sputnik analisa o quadro das relações diplomáticas e comerciais da Rússia com o Brasil, numa prévia do que poderá fazer parte das conversas Lula-Putin. Os números estão crescendo.

A Rússia aumentou as exportações de mercadorias para o Brasil em quase 20%, em março deste ano, enquanto o Brasil ampliou as vendas de café para a Rússia em quase seis vezes (500%), em relação ao ano anterior, segundo os dados da alfândega brasileira.

No início da primavera europeia, a Rússia forneceu ao Brasil produtos no valor de US$ 917,5 milhões (R$ 5,505 bilhões), em comparação com os US$ 779,4 milhões (R$ 4,7 bilhões) em março do ano passado. As exportações russas aumentaram principalmente devido aos fertilizantes.

O Brasil, por sua vez, vendeu café para a Rússia no valor de US$ 44,4 milhões (R$ 266,4 milhões), em comparação com US$ 7,5 milhões (R$ 45 milhões) em março do ano passado.

Assim, o volume de negócios entre a Rússia e o Brasil mais uma vez ultrapassou US$1 bilhão (R$ 6 bilhões) – pela primeira vez desde outubro de 2024. O comércio entre os dois países cresceu 25% nos últimos 12 meses e 50% no último mês.

O embaixador russo no Brasil, Alexey Labetsky, ao ratificar o convite a Lula, disse que, para o Brasil, é “importante agora reafirmar que o fascismo não passou no passado e não passará no futuro, e lembrar que o Brasil contribuiu para a vitória”, afirmou. O diplomata lembrou que “o Brasil foi o único país latino-americano que participou diretamente de operações militares”, durante a Segunda Guerra Mundial.

Trump quer criar uma divisão entre Rússia e China

A Casa Branca concebeu um plano audacioso: criar uma divisão entre Moscou e Pequim, escreve o Responsible Statecraft, revista online do Quincy Institute, que advoga uma diplomacia não-intervencionista para os Estados Unidos. Trump espera tornar o equilíbrio global de poder mais favorável à América com o plano “Nixon reverso”. A ideia é se aproximar da Rússia e, assim, enfraquecer a China.

O problema óbvio com o plano é que Pequim e Moscou compartilham mais do que apenas interesses econômicos e geopolíticos. Os dois estados demonstram solidariedade na vasta maioria das questões e pensamento estratégico comum. “Isso coloca em questão a viabilidade fundamental do “Nixon reverso”, afirma o artigo.

Posto esse quadro, acredito que a nós, simples cidadãos do mundo, só cabe esperar quais serão os próximos passos dos líderes e estrategistas daqui e d’além mar.

–   –   –

Uma resposta para “Tarifaço: Brasil afinado com Rússia e China.”

  1. Avatar de heroic0573c510b4
    heroic0573c510b4

    O Brasil tá bem acompanhado!!

Deixe uma resposta

Descubra mais sobre ÂNGULO E FOCO

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo