Mistérios do clima: desertos ficam verdes e lagos secam.

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Shahriar Amin Fahim247 / Wikipedia

Num período da história humana em que as mudanças climáticas ameaçam a sobrevivência da espécie e a seca vem tornando grandes extensões de terra em desertos, o enorme Deserto de Thar, na Índia, está ficando verde. Isso pode causar espanto, curiosidade e até afastar a preocupação com os efeitos das mudanças climáticas. Mas, será essa uma tendência que vai se alastrar, em grandes prados verdejantes?

Parece que não, porque, do outro lado do mundo, ao contrário, o Grande Lago Salgado – que dá nome à cidade de Salt Lake City, no estado de Utah, nos Estados Unidos – está secando, o que comprova que nosso planeta está apenas se modificando, como sempre ocorreu, ao longo dos milênios.

Cientistas descobriram por quê essas mudanças ocorrem e apresentaram, recentemente, um novo estudo. Enquanto muitos desertos enfrentam secas cada vez mais graves, o deserto de Thar tornou-se 38% mais verde, nos últimos 20 anos, devido ao aumento das chuvas e à expansão da agricultura na região.

Também chamado de Grande Deserto Indiano, o deserto de Thar estende-se por 200.000 quilômetros quadrados, do noroeste da Índia ao sudeste do Paquistão.

Pode parecer um paradoxo, mas a verdade é que uma situação oposta acontece na América do Norte. O Grande Lago Salgado, localizado em Utah, nos Estados Unidos, está enfrentando uma crise alarmante. Cientistas alertam que ele pode desaparecer completamente nos próximos cinco anos, devido à exploração excessiva de água e às mudanças climáticas.

Não consigo controlar um sorriso meio triste e o pensamento: Como será o novo nome da cidade ao lado, no futuro, se hoje se chama Salt Lake City (Cidade do Lago Salgado)?

Desde 1850, o lago perdeu cerca de 73% de sua água e 60% de sua superfície. Essa situação não só ameaça o ecossistema local, mas também expõe milhões de pessoas a poeiras tóxicas presentes no leito do lago.

Grande Lago Salgado

O avanço da desertificação

Como todos sabemos, áreas verdes estão se tornando desertos em várias partes do mundo, num processo conhecido como desertificação. No Brasil, por exemplo, regiões como Gilbués, no Piauí, enfrentam desertificação devido à degradação do solo. No mundo todo, cerca de 40% das terras já estão degradadas e fatores como mudanças climáticas, desmatamento, garimpos ilegais, práticas agrícolas insustentáveis e uso excessivo de pastagens contribuem para esse fenômeno.

Os cientistas têm se esforçado para explicar por que isso acontece. Atribuem a desertificação a três fatores: O primeiro deles é a mudança climática, quando a seca extrema e o aumento das temperaturas aceleram a perda de vegetação e a degradação do solo; outro fator determinante da desertificação é a atividade humana com o desmatamento e práticas agrícolas inadequadas que removem a cobertura vegetal protetora do solo; e o terceiro fator é a expansão urbana, pois a urbanização pode levar à perda de terras férteis.

Como já se vê em muitas partes do planeta, a desertificação tem impactos graves, como insegurança alimentar, pobreza e deslocamento populacional. É um problema que exige atenção urgente para restaurar terras degradadas e implementar práticas sustentáveis.

Problema é mundial

Muitos lagos ao redor do mundo estão enfrentando uma redução significativa em seus níveis de água. Estudos recentes revelaram que mais da metade dos maiores lagos e reservatórios do planeta estão secando, devido a fatores como mudanças climáticas e consumo humano insustentável. Isso tem implicações graves para a segurança hídrica global, afetando cerca de 2 bilhões de pessoas que vivem em áreas próximas a esses lagos.

Além disso, os lagos estão perdendo aproximadamente 22 gigatoneladas de água por ano, o que equivale a 17 vezes o volume do Lago Mead, o maior reservatório dos Estados Unidos. Essa situação destaca a necessidade urgente de monitoramento e conservação desses corpos d’água.

Deserto de Thar. Foto: Sushmita Alasubramani / Wikipedia

A planície de Thar

Contudo, queridos leitores, parece que a Natureza trata de ir reequilibrando as coisas – o que era deserto, fica verde; o que era verde vira deserto. E, também, onde havia um enorme lago, haverá um deserto; e um terreno desértico pode ser inundado para sempre, tais os efeitos das mudanças climáticas. Veja como ocorreu no deserto de Thar.

Nos últimos 20 anos, mais pessoas passaram a viver nesse deserto e a alterar a paisagem, tornando-a mais agrícola e urbana, o que é parte da razão pela qual o deserto se tornou mais verde. A revista Cell Reports Sustainability publicou, no início do mês, umestudo sobre Thar, segundo o qual “a outra peça do puzzle são as alterações climáticas”, que provocaram o aumento das chuvas das monções, comuns na região.

Ainda que muitos desertos em todo o mundo estejam a enfrentar o agravamento das secas, o deserto de Thar tornou-se um centro de crescimento urbano e agrícola, o deserto mais povoado do mundo, com mais de 16 milhões de habitantes.

“O aumento da disponibilidade de água e energia levou a um aumento considerável das colheitas na região”, disse à Live Science o pesquisador Vimal Mishra, do Instituto Indiano de Tecnologia de Gandhinagar e coautor do estudo. Segundo ele, “não há nenhum outro deserto no mundo que tenha registrado aumentos na urbanização, na agricultura e na precipitação durante o período recente”.

O deserto de Thar tornou-se 38% mais verde

O estudo analisou dados de satélite de 2001 a 2023. Mishra e sua equipe descobriram que o deserto se tornou, em média, 38% mais verde durante este período, com mais vegetação visível nas imagens de satélite.

As conclusões mostram que o esverdeamento do deserto de Thar foi impulsionado principalmente por mais chuva durante as monções de verão, de junho a setembro — um aumento de 64% na precipitação global — e, em segundo lugar, por infraestruturas de irrigação que trazem as águas subterrâneas para a superfície, fora da estação das monções.

Os autores sugerem que a gestão sustentável dos recursos hídricos no deserto de Thar pode ajudar esta zona a adaptar-se e a continuar a sustentar a sua população crescente. Todavia, as temperaturas mais elevadas podem ameaçar os 16 milhões de habitantes que vivem na área, e a utilização excessiva das águas subterrâneas para irrigação pode esgotar os recursos, observaram os investigadores.

As práticas de gestão sustentável da água, as culturas resistentes à seca, as adaptações ao aumento do calor e as energias renováveis devem fazer parte do desenvolvimento futuro do deserto de Thar, afirmaram os investigadores.

Risco de inundações

O aumento das chuvas das monções pode também significar mais inundações, hipótese que os modelos climáticos projetam que ocorrerá em rajadas de situações meteorológicas extremas, o que pode causar danos às construções no deserto.

Porém, se for feita uma gestão ambiental e das edificações, o aumento da precipitação poderá também permitir o desenvolvimento da sociedade e da agricultura na região. Investigadores que realizaram um estudo separado projetaram que uma parte ainda maior da paisagem se tornará verde até ao final do século XXI.

Esta mudança aumentaria a segurança alimentar na região, mas poderia ameaçar a biodiversidade nativa de espécies especialmente adaptadas ao deserto e os métodos tradicionais de agricultura nômade.

Os cientistas concluem que é fundamental serem mantidos alguns aspectos do ambiente do deserto, à medida que o assentamento humano progride.

E vamos continuar observando.

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3 respostas a “Mistérios do clima: desertos ficam verdes e lagos secam.”

  1. Avatar de heroic0573c510b4
    heroic0573c510b4

    Vamos continuar observando.

  2. Avatar de
    Anônimo

    Muito triste que isso esteja acontecendo.

    1. Avatar de Marina Romana
      Marina Romana

      triste demais

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