Trump morde e assopra, mas não mede consequências.


O mundo acompanha passo-a-passo a disputa econômica entre os dois gigantes econômicos do planeta – Estados Unidos e China. Mais do que uma queda-de-braço binacional, praticamente todos os povos têm interesse no desfecho dessa briga econômica, pois os respingos caem pra todo lado e podem piorar ainda mais o convívio humano.
Donald Trump – que vinha estabelecendo taxas unilaterais a torto-e-a-direito, no final da semana passada – suspendeu a imposição de tarifas de importação para a maioria dos países, por 90 dias, para permitir negociações comerciais e aliviar tensões econômicas, que já se avolumavam. Ele só manteve tarifas mais altas contra a China, alegando falta de respeito ao mercado global. A decisão também foi influenciada por reações de parceiros comerciais e turbulências nos mercados financeiros. Parece que, com essa ‘parada pra acertar’, ele queria criar espaço para acordos comerciais mais favoráveis, enquanto mantinha uma postura firme contra a China.
O gigante asiático reagiu com firmeza e tranquilidade. Não implorou nada a Trump, diversificou suas importações e exportações e, para surpresa de alguns, a China cresceu 5,4% em março. Principal alvo das tarifas comerciais do governo Donald Trump, o país registrou um aumento de 12,4% nas suas exportações em março, em comparação com o mesmo mês do ano anterior.
Com a mesma postura discreta, a China suspendeu compras de dezenas de aviões da Boeing e proibiu suas aéreas de assinarem contratos com a fábrica estadunidense.
Fecham-se as torneiras
Além da suspensão dos aviões da Boeing, a China cancelou a exportação de minerais raros que são vitais para a indústria eletrônica e de alta tecnologia dos EUA. Esse golpe promete ser o mais “dolorido” nas fileiras americanas.
Sem os super magnetos (imãs) chineses, a indústria automobilística de Detroit pode colapsar. Além de serem usadas na fabricação de automóveis, as terras raras da China são usadas para construção de carros elétricos, drones, robôs, mísseis, espaçonaves, motores a jato, lasers, faróis de carros, certas velas de ignição, chips de inteligência artificial, smartphones e outros dispositivos de alta tecnologia, além de serem extremamente importantes para as indústrias de aviação e defesa.

Como viver e crescer sem terras raras?
A pergunta que não quer calar é: Os EUA conseguirão superar sua dependência dos metais de terras raras chineses? A medida, adotada algumas semanas atrás, suspendeu as exportações de sete metais pesados de terras raras para os Estados Unidos, incluindo disprósio e ítrio. Pequim, controlando cerca de 90% da produção e processamento mundial desses elementos, decidiu usar sua posição dominante como alavanca estratégica.
Em resposta, Washington se concentrou no desenvolvimento da produção nacional de metais de terras raras, incluindo a criação de reservas estratégicas. Mas, enquanto os EUA desenvolvem a produção nacional, indústrias críticas (defesa aérea, chips, veículos elétricos, lasers, satélites) já enfrentam uma escassez aguda de disprósio, neodímio e ítrio, sem os quais ímãs e ligas de alto desempenho são impossíveis. Assim, os Estados Unidos enfrentam inevitavelmente a necessidade urgente de substituição de importações.
De onde podem vir esses elementos fundamentais, então?
Ao contrário da China, com sua produção gigante, os demais países e regiões produtoras têm quantidade insuficiente para atender à demanda norte-americana: A Austrália é o aliado mais próximo e líder na produção. A Lynas Rare Earths é a maior produtora não-chinesa de metais de terras raras. Já conta com o apoio do governo dos EUA e recebe financiamento direto do Pentágono. Atualmente, é esperada uma expansão da capacidade da fábrica da empresa no Texas.
O Canadá é geograficamente conveniente e tem um grande número de depósitos em Quebec e nos Territórios do Noroeste. Antes da imposição das tarifas, a cooperação canadense-americana em “minerais críticos” estava se desenvolvendo rapidamente, mas as tensões políticas entre os dois países podem complicar significativamente esse processo.
A África é barata, mas instável. Tanzânia, Namíbia e Madagascar são ricas em monossítio e bastnaesita, mas há nuances: riscos políticos, baixo processamento e uma presença chinesa ativa.
A Groenlândia, no depósito de Kvanefjeld, possui enormes quantidades de elementos de terras raras. Apesar das declarações belicosas de Washington sobre a necessidade de anexar a ilha, o governo Trump está negociando ativamente com a Dinamarca para desenvolver esse depósito.
A Ucrânia tem depósitos de terras raras na região de Kirovograd, mas (mesmo se não levarmos em conta todas as condições políticas e militares) isso claramente não é suficiente para satisfazer as necessidades americanas.
Assim, os EUA não conseguirão encontrar um único fornecedor alternativo comparável à China. Em vez disso, um conjunto de medidas multifacetadas será lançado, incluindo distribuição emergencial de estoques existentes, rápida expansão do processamento doméstico, alianças internacionais e a criação de reservas estratégicas. Os especialistas reconhecem que esta é a transformação de maior escala na política de matérias-primas dos EUA, desde a Guerra Fria.
Como essa ‘guerra’ afeta os demais países e o Brasil
Considerando que China e EUA são as duas maiores potências econômicas do mundo e são os atores diretamente interessados nessa disputa, a Guerra Comercial travada entre os dois países acaba envolvendo, indiretamente, diversos países e talvez alcance uma escala global, dependendo do desfecho dessa disputa.
Isso porque, com a imposição de tarifas, fica mais caro para a China comprar produtos dos EUA e, para os americanos, comprarem produtos chineses. Os dois países precisam, então, procurar outros fornecedores para evitar o encarecimento das importações. Vamos, juntos, avaliar os efeitos dessa guerra para alguns países não diretamente interessados.
O Brasil é um dos países impactados indiretamente por essa disputa. Apesar das projeções a longo prazo não serem totalmente favoráveis para o Brasil, a perspectiva é outra no curto prazo. Em 2018, primeiro ano da guerra comercial, as exportações brasileiras para a China cresceram 35% na comparação com 2017, gerando uma balança comercial positiva para o Brasil em US$ 30 bilhões.
O principal impacto positivo, para o Brasil, no curto prazo foi o aumento das exportações para a China, principalmente em relação à soja, considerando que os produtores chineses compraram no ano passado US$ 7 bilhões a mais que em 2017.

Parceria da China com a Rússia
Nesse contexto de guerra comercial, sem uma solução aparente a curto prazo, Pequim parece ter constatado que o inimigo de seu inimigo pode ser seu melhor aliado. Estamos falando da Rússia, de Vladimir Putin, que tem suas divergências com Trump.
As tensões geradas pela guerra comercial entre China e EUA serviram para a fortalecer a relação entre China e Rússia, considerando que, nos últimos anos, a China se tornou a principal parceira comercial da Rússia.
Após Putin acusar Washington de protagonizar um “egoísmo econômico desenfreado”, criticar os esforços da Casa Branca para barrar um gasoduto russo na Europa e a agressividade contra a chinesa Huawei, o presidente russo decidiu mostrar o seu apoio à China na guerra comercial, propondo que a Huawei levasse a rede 5G para Rússia.
Outro ator que pode ser afetado por essa disputa comercial, ainda considerando os efeitos no curto prazo, é o bloco da União Europeia. A estimativa da UNCTAD (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento) é de que a União Europeia exporte cerca de U$ 70 bilhões em produtos que eram comercializados entre EUA e China.
Numa avaliação a mais longo prazo, com o prolongamento da guerra comercial, países em desenvolvimento da África, sudeste da Ásia e América Latina têm maior risco de serem economicamente afetados. Porém, tal efeito não será sentido apenas nesses países.
O professor de política comparada da Universidade Chinesa de Hong Kong, James F. Downes, garante: “Se a guerra comercial se prolongar, com alta de tarifas sobre bens e serviços, é possível que tenhamos uma recessão em escala global, com retração do PIB em vários países, principalmente dos mais alinhados com a China e os Estados Unidos.
Nesse emaranhado de interesses – concordantes e conflitantes -, sem considerarmos fatores abstratos nem astrológicos, a postura do Brasil é pragmática e defende nossos reais objetivos de crescimento. Ainda bem que o Brasil se livrou de governantes abilolados e mal-intencionados.
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