

‘Eminência parda’ do Governo Trump, o bilionário Elon Musk, que ocupa o cargo de líder do Departamento de Eficiência Governamental (Doge), anunciou hoje que vai se afastar de suas atividades oficiais para focar mais nos negócios da Tesla, fábrica de carros elétricos americana, de sua propriedade. O departamento não é propriamente um órgão oficial; foi criado para reduzir custos públicos e eliminar regulamentações consideradas desnecessárias. Mas sua dedicação demasiada ao governo vem resultando em imensos prejuízos.
O CEO da Tesla anunciou que vai reduzir sua participação no governo Donald Trump, depois que os resultados financeiros da empresa, divulgados na terça-feira (22), revelaram uma queda acentuada no lucro e na receita nos primeiros meses de 2025. As vendas despencaram e a marca vem sofrendo consequências, em todo o mundo, com múltiplas críticas pelo envolvimento político de Musk na nova gestão norte-americana.
Os resultados recém-divulgados apontam que o lucro da Tesla despencou 71% no primeiro trimestre deste ano, em comparação com o mesmo período de 2024. A empresa americana de veículos elétricos registrou US$ 409 milhões de lucro entre janeiro e março, praticamente um terço de US$ 1,4 bilhão, registrado no mesmo período do ano passado. Pesquisas revelam que o motivo dessa decadência é atribuído, entre outros fatores, às atividades políticas do mega-empresário.
Os resultados negativos são associados à sua participação no governo Trump e ao apoio a políticos de extrema-direita na Europa, fatores que geraram danos à imagem da marca após protestos e boicotes generalizados. A própria empresa admitiu essa correlação e citou a “mudança no sentimento político e a incerteza nos mercados automotivo e de energia” como uma das razões para a queda no lucro.
Vendas desabam em todo o mundo
A receita das vendas da Tesla também registrou uma queda de 9% em comparação com o mesmo período do ano anterior, entre janeiro e março. Enquanto Wall Street previa US$ 21,1 bilhões, na real totalizou US$ 19,3 bilhões, portanto, abaixo das expectativas. No pior trimestre de vendas desde 2022, as entregas de veículos caíram 13%, para 336.681 unidades.
Na apresentação dos resultados, a empresa argumentou que o motivo dessas quedas é a “incerteza nos mercados automotivo e de energia e a rápida evolução das políticas comerciais”. Segundo a Tesla – que não associa diretamente os problemas à política tarifária de Trump -, esses fatores econômicos afetam negativamente a cadeia de suprimentos global e a estrutura de custos da Tesla.
Cuidadosamente, a empresa revela que “essa dinâmica, junto à mudança no sentimento político, pode ter um impacto significativo na demanda por nossos produtos no curto prazo”, acrescentou.

Tesla Divulgação
Empresa perde valor a cada dia
As ações da Tesla sofreram uma queda mais acentuada do que a de outras empresas abaladas pelos primeiros efeitos da guerra tarifária de Trump. Caíram 40% do valor no acumulado do ano. Ainda que as ações da companhia tenham subido na Bolsa de Valores de Nova Iorque após a divulgação desses resultados, o consenso entre os analistas é de que a reputação da empresa foi abalada.
A figura cada vez mais controversa de Elon Musk foi um dos motivos apontados por analistas para a queda nos lucros da Tesla. As outras causas relatadas foram fatores comerciais e logísticos. Claro que se referiam à guerra tarifária.
A atuação de Musk como assessor de Trump no Doge – órgão federal que cortou milhares de empregos e orçamentos públicos – gerou críticas em determinados setores influentes nos EUA e movimentou multidões nas ruas das grandes cidades americanas.
No âmbito dos seus negócios pessoais, a Tesla viu suas vendas caírem drasticamente em seu principal mercado doméstico, a Califórnia, um estado reconhecidamente progressista, onde Trump perdeu na votação para Kamala Harris, na eleição passada. Nesse contexto adverso, clientes habituais decidiram abandonar a marca e, nos protestos, houve atos de vandalismo em lojas revendedoras.
Outro fator apontado pelos analistas para o enfraquecimento da Tesla é a imagem negativa do governo Trump na Europa e em outros mercados, o que pode ter levado muitos clientes potenciais a decidirem por abandonar a marca.
O empresário avalia deixar o governo Trump
Na América do Norte, cada vez mais analistas sugerem que Musk deveria renunciar ao cargo político para se concentrar mais na gestão da empresa, o que parece estar prestes a acontecer.
Após a divulgação dos resultados financeiros da Tesla ontem, Musk anunciou em teleconferência com analistas de Wall Street que, a partir de maio, vai reduzir “significativamente” sua dedicação ao Doge.
Detalhou o plano, afirmando que, provavelmente, vai continuar a dedicar um ou dois dias por semana para trabalhar em questões governamentais, “enquanto o presidente quiser que eu faça isso, e enquanto for útil”. Aproveitou para acusar que as “reações negativas” vêm de pessoas que “tentam atacar a mim e à equipe do Doge”.
Descreveu como “crucial” seu trabalho à frente do departamento e declarou que “colocar ordem na sede do governo é algo que está praticamente concluído”.

Carro elétrico chinês BYD. Foto: Divulgação
Fatores externos também influem no declínio
Enquanto o aspecto político-ideológico atinge profundamente a montadora de Musk, especialistas apontam como principal fator externo para a queda dos lucros da Tesla, o enfraquecimento da demanda a nível mundial e a concorrência acirrada de outras empresas de veículos elétricos, especialmente da China. O destaque vai para a gigante BYD que cresceu rapidamente, produzindo carros elétricos com boa qualidade, a preços competitivos, além de outras mais caras como Xpeng e Nio, que estão voltadas ao mercado de luxo e tecnologia avançada.
Avanços tecnológicos, também da BYD, trouxeram ao mercado um sistema inovador de carregamento ultrarrápido, enquanto outras marcas lançaram modelos elétricos com tecnologia avançada, como Volkswagen e Hyundai.
Veículos autônomos e econômicos fazem parte da aposta
Como Elon Musk está podendo constatar, não é um bom negócio misturar negócios com política e diplomacia. A tensão gerada com as super-tarifas entre os EUA e a China agravaram mais ainda a situação. Foi um puxa-estica, um vai-e-vem dos negócios.
Depois que as tarifas dos EUA subiram para 145%, a Tesla teve que suspender as importações de certos componentes fabricados na China. Como retaliação, Pequim impôs suas próprias tarifas, forçando a Tesla a suspender temporariamente os pedidos de peças para os modelos S e X.
Embora a maior parte dos veículos da americana seja produzida em fábricas na Califórnia e no Texas — o que a livra parcialmente das tarifas —, a Tesla ainda depende de peças importadas, agora bem mais caras. De acordo com os especialistas, essa situação poderá forçar a montadora a aumentar os preços ou a aceitar margens de lucro menores.
A indústria de Elon Musk admitiu, ainda, outra dificuldade: sua divisão de energia, que produz baterias e sistemas de armazenamento, com esse novo cenário comercial, vai ser ainda mais afetada. Mas revelou como pretende contra-atacar na disputa pelo mercado.
No balanço financeiro de ontem, reafirmou seu compromisso com a tecnologia de direção autônoma, como uma importante fonte de receita futura. O SEO da Tesla prometeu lançar um serviço de táxis-robôs em Austin, no Texas, em junho, e, até o final do ano, na Califórnia.
Também anunciou que vai produzir, este ano, um novo modelo, mais barato, mas manteve detalhes em segredo.
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