
Protesto na Argentina desafia o governo.
O presidente argentino, Javier Milei – que enfrenta gigantescas manifestações contra suas medidas econômicas e de restrições a direitos sociais -, tenta melhorar sua imagem pública, fazendo movimentos geopolíticos no estilo ele mesmo: Buscando evidenciar sua identificação com a hegemonia norte-americana e de afinação com os ditames da ultra-direita internacional. Sem querer mencionar a palavra ‘ilusão’, isso tem nome: manobra diversionista, muito usada por políticos que precisam desviar a atenção da opinião pública dos problemas reais e dar-lhe outro tema para comentar. Pois bem, isso está acontecendo agora, na vizinha e sofrida Argentina, que não merecia um líder excêntrico como esse.
Não vi essa notícia na imprensa brasileira, mas foi fácil ficar sabendo lá fora que a Justiça da Argentina acabou de reviver um antigo processo contra o líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, acusado de participar do planejamento de um atentado terrorista no país, em 1994. Esse “gesto de justiça histórica” seria, na verdade, uma manobra para Milei se manter no poder, em meio às severas críticas internas. Houve quem lembrasse que a mesma Argentina, no passado, já apelou para outra manobra diversionista (e quase suicida), quando resolveu reivindicar à força o arquipélago das Malvinas, tendo que enfrentar o potencial bélico da Grã-Bretanha.
No início deste mês, o promotor argentino Sebastián Basso solicitou um “mandado de prisão internacional” contra o líder espiritual do Irã, Ali Khamenei, pelo planejamento e pela execução de um atentado contra a Associação Mutual Israelita Argentina (AMIA), em Buenos Aires, em 18 de julho de 1994.
Só para situar melhor o leitor, nesse ataque, terroristas explodiram uma bomba do lado de fora do prédio da associação hebraica, matando 85 pessoas e ferindo 300. O atentado terrorista, cuja culpa recaiu sobre o movimento libanês Hezbollah, é considerado o mais mortal dos ocorridos em toda a América do Sul.
Além de focar sua petição no aiatolá Khamenei, o promotor argentino pediu o julgamento de outros suspeitos iranianos e libaneses, dois deles já mortos: Akbar Hashemi Rafsanjani – ex-presidente do Irã e Imad Mughniyeh – chefe de operações do Hezbollah, ambos já falecidos, além de Ali Akbar Velayati e Ali Fallahian – ex-ministros das Relações Exteriores e da Inteligência, respectivamente.
Agora, o Governo Javier Milei acredita que pode se sentar, rezar e ficar esperando a grande repercussão dessa medida judicial, sendo cumprida por eficiência sua. Só que não.

O aiatolá Ali Khamenei, líder máximo do Irã, potência militar regional.
Panorama internacional é adverso
Em 2024, Milei já havia mencionado esse atentado, em discurso no Congresso Judaico Latino-Americano (CJL), quando criticou os governos e juízes do passado por não cuidarem das punições. Analistas internacionais enxergam essa ‘grande medida’ de Milei como um ‘tiro no pé’. As acusações, ao que se sabe, só foram possíveis graças a uma lei elaborada pelo próprio Javier Milei, que permite ao Judiciário julgar crimes graves sem a presença dos acusados.
A professora de história da Ásia da Universidade Federal de São Paulo, Samira Adel Osman, ouvida pela agência Sputnik, lembra que, embora o atentado não ocupe um espaço de destaque na memória do argentino, marcou profundamente a memória israelense e da parcela judaica da população.
A especialista analisa que o “surto de memória e reparação” ressurge no governo Milei como uma cortina de fumaça “para desviar as críticas à sua política doméstica”. E comparou o episódio atual como “uma Malvinas mais simplificada”.
Para ela, a tática tem o objetivo de angariar apoio da comunidade judaica do país, em meio à crise de popularidade e às greves gerais, agravadas pelo envolvimento do chefe de estado em um golpe financeiro com criptomoedas e pela tomada de novos empréstimos internacionais com o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional (FMI).

Foto oficial de Javier Milei, ao ser eleito.
Além disso, Milei quer demonstrar ao eixo Estados Unidos-Israel que “está aliado nas mesmas pautas ultraconservadoras”, se colocando ao lado do “inimigo em comum”: a Palestina, o Irã e o Hezbollah. E compara essa tentativa com a subserviência de El Salvador à Casa Branca, em sua ação antimigratória, dizendo que Milei também pretende “colher migalhas da relação” com Trump.
“O presidente da Argentina – disse ela – sabe que seu país está geograficamente longe e, por isso, distante da rota de migração clandestina para os EUA, mas insiste em criar um factoide para agradar aos EUA e o lobby sionista, procurando se beneficiar da ideia de que faz parte do ‘eixo do bem’ contra o ‘eixo do mal’.”
Situação política de Milei é grave
A popularidade do presidente Javier Milei, desde sua posse, apresenta sinais de desgaste, refletindo os impactos de suas políticas econômicas e controvérsias recentes.
Uma pesquisa do Instituto Atlas Intel, divulgada em março, indica que 47% dos argentinos aprovam a gestão de Milei, enquanto 48% a desaprovam, com 4% de indecisos. Outro levantamento revelou que 57,6% dos entrevistados não confiam no presidente, após o escândalo relacionado à criptomoeda Libra, que resultou num prejuízo de US$ 4,6 bilhões.
Desde o início de seu mandato, em dezembro de 2023, Milei implementou medidas econômicas drásticas, incluindo cortes de gastos públicos, desregulamentações e a eliminação do déficit fiscal. Essas ações resultaram na redução da inflação anual de 289% em abril de 2024 para 66,9% em fevereiro de 2025. No entanto, a liberalização do câmbio e o fim parcial do controle cambial geraram aumentos de preços nos supermercados e preocupações com a inflação futura.
A gestão de Milei também tem enfrentado resistência em setores culturais. Na abertura da 49ª Feira Internacional do Livro de Buenos Aires, representantes do governo foram vaiados, ao defenderem cortes no setor e ao agradecerem ao presidente e sua irmã Karina, evidenciando tensões entre o governo e a comunidade artística.
Com as eleições legislativas marcadas para outubro deste ano, Milei busca consolidar apoio para sua agenda de reformas. Embora sua base permaneça mobilizada, a falta de alianças com setores conservadores tradicionais pode limitar sua capacidade de avançar com mudanças estruturais.
Em resumo, a popularidade de Javier Milei mostra sinais de fragilidade, influenciada por desafios econômicos, controvérsias políticas e reações sociais adversas. Seu futuro político dependerá da capacidade de equilibrar reformas econômicas com a manutenção do apoio popular. Com certeza, tentar prender o líder máximo do Irã não vai ajudar em nada.

Milei, desde criança.
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