
Xi Jinping está tranquilo.
A queda-de-braço entre o americano Donald Trump e o chinês Xi Jinping mostra seus efeitos a cada dia que passa. Tudo indica que o comércio mundial está mudando radicalmente e que os Estados Unidos serão os maiores prejudicados, ainda que seu líder pareça não entender muito bem. Neste post, vamos avaliar esse jogo, entre as duas maiores potências econômicas do mundo. Com o passar do tempo, vai ficando claro que “o rei está em xeque”.
Há algumas semanas, parecia que Washington iria continuar a punir a falta de vontade da China em negociar. No comício em que ‘comemorou’ os seus 100 dias no cargo, o presidente dos EUA insinuou que a China recuaria e “engoliria as tarifas”, o que parece cada vez mais difícil de acontecer.
Mas agora já ficou claro que Trump está disposto a fazer um acordo, tentando trazer a China de volta à mesa de negociações, oferecendo a possibilidade de que as tarifas americanas poderiam diminuir substancialmente. Primeiro, o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, classificou a guerra comercial como “insustentável“, logo depois, o próprio Trump usou essa expressão, e com razão: a China está respondendo em vários flancos.
Já ficou claro que Xi Jinping não tem medo de perder o mercado americano e está disposto a ir à luta, avalia Stephen McDonell, corresponde da BBC na China. O líder da potência oriental já vem dando demonstrações de sua forma de jogar. Embora as tarifas pareçam ser a arma principal de retaliação na guerra comercial, a China já demonstra ter mais estratégias para responder a Trump e atacar a economia dos EUA.
Os flancos da agricultura e da energia
Desde que a guerra comercial começou, na primeira presidência de Trump, a China reduziu a sua dependência das importações agrícolas dos EUA. Isso já foi uma má notícia para Washington, porque a agricultura era um dos poucos setores nos EUA que tinham um grande superávit comercial com a China. As tarifas retaliatórias atuais vão prejudicar ainda mais a rentabilidade do setor. Mas esse não é o único problema a ser enfrentado pelos agricultores americanos.
Com o recrudescimento da guerra comercial, a China vem usando, como uma potencial ferramenta de negociação, obstáculos burocráticos para restringir a entrada de produtos agrícolas dos EUA no país. Por exemplo, a China atrasou as renovações de licenças de exportação de criadores de suínos dos EUA e recusou-se a renovar licenças de criadores de aves por razões de “saúde e segurança”. Essas ações de Pequim têm endereço certo: atingir a economia nos estados que particularmente apoiaram Trump.
Nebraska, Iowa e Kansas têm comunidades agrícolas significativas, por isso, direcionar as baterias para as questões agrícolas é uma tática que Pequim está usando para atingir, diretamente, os eleitores de Trump. Dos 444 condados considerados como dependentes da agricultura, 77,7% votaram em Trump, nas eleições presidenciais do ano passado.
Então, qualquer dificuldade enfrentada pelo setor agrícola por causa das medidas de Trump, provavelmente, levará a uma perda de apoio dessa importante base política, já nas eleições de 2026.
Outro setor que apoiou o americano na recente eleição é o envolvido no setor de combustíveis fósseis, exatamente no segmento que, no passado, levou os EUA a ser um dos principais fornecedores de gás natural para a China. Hoje, o quadro é diferente: a China não importa gás natural americano, desde o início de fevereiro de 2025, passando a adquirir seu gás natural na Austrália, Indonésia e no Brunei.
Então, à medida que a guerra comercial continua, é improvável que os EUA consigam arranjar outro comprador para o seu gás natural e, em breve, esse fato terá um impacto na indústria energética – outra das principais bases de apoio político de Trump.
Restrição no fornecimento de minerais
Um dos grandes problemas que os EUA enfrentam é a restrição da China à exportação de minerais estratégicos. São sete terras raras – samário, gadolínio, térbio, disprósio, lutécio, escândio e ítrio. Além de serem básicos para os setores de energia limpa e produção de veículos, podem causar carências ao setor de defesa norte-americano.
Estes minerais raros são empregados na fabricação de caças, submarinos, mísseis e sistemas de radar. Enquanto os EUA necessitam muito dessa matéria-prima, a China detém quase um monopólio sobre a extração e processamento dessas terras raras. Parece certo que as restrições à exportação da China afetarão a indústria de guerra americana, enquanto Pequim poderá ampliar rapidamente o estoque de munição e tecnologia militar.
Esse corte nos minerais estratégicos era previsível para a América, tendo em conta que Pequim já tinha proibido a exportação de minerais críticos para o Japão, em 2010, numa disputa comercial de pescados. Pequim parou de exportar metais de “dupla utilização” – como gálio, germânio e tungsténio – que podem ser empregados na produção de tecnologia civil e militar.
Quais os próximos movimentos nessa ‘guerra’?
Uma rara dificuldade, enfrentada pela China, nos últimos anos, era alimentada por uma crise imobiliária, principalmente. Trump, na sua estratégia, esperava que a China fraquejasse sob pressão e, na mesa de negociações, cedesse sem dificuldade, supondo que o Partido Comunista Chinês iria precisar recuperar sua economia urgentemente e que o sistema buscaria assegurar a prosperidade econômica do país, a fim de legitimar o seu governo.
O resultado, porém, para contrariar Trump, foi piorar a batalha de retaliações. Em 11 de abril, as tarifas dos EUA sobre a China atingiram o pico de 145%, enquanto as tarifas chinesas sobre os produtos dos EUA atingiram um nível sem precedentes de 125%.
Analistas internacionais calculam que a China pode ir ainda mais longe, passando a vender títulos do Tesouro dos EUA, o que aumentaria as taxas de juros e o custo dos empréstimos na América. Porém, ao contrário de Trump, Xi Jinping conduziu seu jogo para o longo prazo, sabendo que ele próprio não tem limites de mandato, enquanto o período de Trump como presidente é de apenas quatro anos.
É esperar e observar para onde a correnteza conduz essa disputa mal-planejada e conduzida aos trambolhões.
Trump dá sinais de que vai recuar
Mais recentemente, o presidente Donald Trump, assim como o secretário do Tesouro, reconheceu que as tarifas de 145% sobre a China são altas, mas ainda acredita que diminuirão substancialmente. As palavras do líder alaranjado:
“É verdade, 145% é muito alto. E não será tão alto. Chegou a esse ponto. Estávamos falando sobre o fentanil, em que vários elementos elevaram a 145. Não, não chegará nem perto disso”, disse ele a repórteres, na última semana de abril. “Cairá substancialmente, mas não será zero”, arrematou.
Trump lembrou que as tarifas costumavam ser zero, “mas, por causa disso, os Estados Unidos foram “simplesmente destruídos”, arrematou, numa crítica muda a seu antecessor, Joe Biden.
“A China estava nos enganando e simplesmente não vai aceitar, isso não vai acontecer”, disse ele. “Vamos ser muito bons para a China. Teremos um ótimo relacionamento com o presidente Xi… Eles vão se sair muito bem e acho que ficarão felizes. Acho que vamos viver juntos muito felizes e, idealmente, trabalhar juntos. Então acho que vai dar muito certo” – previu, otimista.
Insistindo na argumentação, Trump reverteu sua decisão, anunciando uma pausa de 90 dias na implementação das taxas diferenciadas. Modificou as tarifas, estabelecendo que todos os países terão uma tarifa-padrão de importação de 10%, menos a China.
Enquanto isso, empresas petroquímicas da Europa estão transferindo seus investimentos para fora da União Europeia (UE). A BASF, por exemplo, está desenvolvendo uma planta de amônia na costa do Golfo do México, segundo a Sputnik Brasil.
Disputa gera interesse internacional
Os analistas de diversas partes do mundo entendem que a política tarifária de Trump vai fracassar se não tiver uma estratégia que inclua política industrial.
Em entrevista à revista Time, publicada em 25 de abril, aquela em que o governante americano afirmou: “Nosso país é agora insustentável”, Trump explicou sua frase: “Estamos sendo despedaçados por todo mundo, outros países, outras pessoas, outros exércitos estão nos despedaçando. Nós protegemos países gratuitamente, ou quase gratuitamente, e não é assim que deve ser”.
Ele explicou o raciocínio, dizendo que os EUA “sofrem perdas de centenas de bilhões de dólares, devido ao comércio com a China e a Europa”. Disse entender que, “em alguns casos, países amigos se comportam pior do que inimigos”.
“E quando o país chegar ao limite, você vai ver algo como este mundo nunca viu antes. Vamos tornar nosso país forte, poderoso e muito rico novamente”, prometeu Trump.
De seu lado, a China descobriu como lutar contra as tarifas e demonstra não ter interesse nenhum em recuar.
Nessa fase de trégua, os portos dos EUA estão começando a ver um declínio nas remessas programadas da China. O porto de Los Angeles, o maior portão de entrada de mercadorias chinesas nos EUA, por exemplo, prevê que as remessas programadas para o início de maio sejam cerca de 1/3 inferiores às do mesmo período de 2024. Agora, é dado como certo que o número decrescente de navios que chegam, trazendo importações chinesas, afetará as prateleiras dos supermercados americanos, em breve.
Apesar do otimismo de Trump, o presidente Xi Jinping negou, de imediato, que estivessem acontecendo negociações, sugerindo que não tem intenção de recuar, no confronto com os EUA.
Um dos líderes mais poderosos na história da República Popular da China, Xi criou uma imagem de ícone nacionalista. Então, se a China entender que as tarifas impostas por Donald Trump são uma tentativa de intimidação, na tentativa de enfraquecê-la, um gesto seu de recuar perante os EUA prejudicaria seriamente a imagem de homem forte de Xi. E isso é algo que Trump provavelmente não levou em consideração, escreve Chee Meng Tan, professor de Economia da Universidade de Nottingham, num artigo no The Conversation.
O mundo inteiro está de olho!

Donald Trump tenta mostrar força.
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