POESIA DOMINICAL: A militância da centenária Mãe Stella de Oxóssi

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Dez anos atrás, comemorando 90 anos.

Querid@s leitor@s, um abraço forte para vocês, neste domingo, dia em que costumo trazer sempre um pouco de poesia. Esta soa como um manifesto, um hino rebelde, não é uma poesia comum; é como um raio laser. A yalorixá Mãe Stella de Oxóssi tem conteúdo que é pura energia vital, alimentado por uma mente enriquecida pelos eflúvios do coração e do corpo humano. A Fé que representa, como líder espiritual, cultiva a divindade até nas plantas, minerais e animais. A mulher, ‘santificada’ por fazer tanto bem com o domínio do saber ancestral, nesse texto, quase cospe as palavras alicerçadas no Bem.

Sintam as palavras proféticas da yalorixá que, dois dias atrás, completaria 100 anos. No final, colocarei um resumo biográfico da autora. Aqui no começo, minha louvação pessoal, a quem não cedeu à pressão da maldade, quase implantada, de um político que envergonha todas as ‘nações’ que convivem, respeitosamente, no nosso País. Um protesto de pura poesia da resistência.

Pèrègún não me perca

(Texto e desabafo de Stela Guedes Caputo, em 15/10/2018)

Se o candidato da violência ganhar,

para mim, nenhum xirê será mais o mesmo.

Não vai ser possível olhar meu irmão na roda e reconhecer nele, aquele que ajudou a eleger um racista.

Para mim, nenhum ritual será mais o mesmo.

Nem as águas de Oxalá, quando a casa fica em silêncio, os passos quietos, Oxalá no poço, torturado.

Não será possível, sob o alá de um sofredor, olhar minha irmã no rosto e reconhecer nela aquela que ajudou um torturador a chegar ao poder.

Nenhuma fogueira de Xangô queimará do mesmo modo.

Nas chamas do orixá justiceiro, será difícil abraçar qualquer irmão que tenha ajudado a injustiça a se espalhar por nosso país.

Nenhum Olubajé será mais o mesmo.

Quando o banquete for distribuído na folha de mamona, como recebê-lo de quem ajudou a eleger um homem que ampliará a fome de comida e significados?

Nenhuma celebração das yabás será mais a mesma.

Na comemoração das mulheres ancestrais negras, como ver a casa cheia de mulheres, onde muitas ajudaram a eleger um misógino?

Nenhuma festa de erê será a mesma nos terreiros. Como festejar a infância se ali, arrumando as jujubas e os suspiros, verei também os que ajudaram a eleger um homem que faz a mão de uma criança virar arma?

Nenhuma função de caboclos será a mesma nos terreiros, para mim.

Como cantar os pontos mais lindos para Jurema, Tupinambá, Sete Flechas, Pena Verde, Cobra Coral, junto com irmãos e irmãs que ajudaram a eleger um homem que acabará com o pouco que resta das terras indígenas?

Como deitar na esteira ao lado do meu irmão negro que, votando contra si mesmo, ajudou a acabar com a política de cotas sociais no país?

Justo ali, em nossa casa, onde muitas famílias negras se alegravam, dia desses, por terem conseguido que uma filha fosse a primeira da família a concluir o ensino superior, graças às cotas?

Como lavar os pratos de meus irmãos e irmãs, pensando que ali comeu alguém que, mesmo preocupado com seu filho negro voltando para casa, ajudou a eleger um homem que prometeu armar uma sociedade, onde as principais vítimas são os jovens negros?

Como arrumar o acaçá em paz, sabendo que a paz que já nos faz tanta falta desaparecerá para nós?

Como trocar bençãos com meu irmão ou irmã gay e não me atordoar com seu voto em um homofóbico declarado?

Ou não me atordoar com aqueles que deviam proteger seu irmão do crime de ódio, mas também votaram no homofóbico?

Como dançar, em torno de atabaques que trazem o choro dos ancestrais negros e negras? Mas trazem também sua coragem para enfrentar os senhores brancos e seus chicotes?

Como então dançar junto a quem ajudou a eleger aquele que disse que os negros hoje não servem nem para procriar?

As palavras foram espatifadas em cacos finos de vidro. Elas cortam tanto a língua de quem fala como o inatingível ouvido do outro, da outra.

O sentido de tudo está ferido e sangrando.

Ao menos dentro de mim, mesmo que o nosso candidato ganhe.

Uma vez, meu Pai de Santo, Daniel de Yemanjá, perguntou: “Vc sabe porque um iaô carrega a folha do Pèrègún na saída de sua iniciação? Vc sabe porque na maioria das casas de santo tem um Pèrègún na porta?” Eu respondi que não e ele me disse: “o Pèrègún é o alicerce, a coluna de todo o iniciado. Ela está também nas casas de santo para mostrar o caminho toda vez que você se perder. Não se perca do Pèrègún e não deixe que ele te perca.”

Que nunca nos falte então as folhas do Pèrègún e que, ainda que nos percamos, ele sempre nos traga de volta o sentido.

Exu Onan também nos abrace, erga e seja caminho todos os dias, porque amanhã: resistiremos!

Pèrègún vermelho


DADOS BIOGRÁFICOS – Stela Guedes Caputo

Mãe Stella de Oxóssi foi uma das maiores yalorixás do Brasil. Ela nasceu em Salvador em 2 de maio de 1925. Foi iniciada no candomblé aos 14 anos de idade para Oxóssi e viveu 80 anos dentro do Candomblé, sempre no terreiro Ilê Axé Opô Afonjá, a  casa que chegou a liderar por mais de quatro décadas.

Mãe Stella era enfermeira de formação, escritora e tornou-se membro da Academia de Letras da Bahia, em 2013. Por sua produção literária e seriedade, tornou-se uma referência nas lutas contra o racismo e a intolerância religiosa.

Estreou na literatura em 1988 e publicou nove obras, entre elas “Meu tempo é agora” e “Òsósì – O Caçador de Alegrias”.

Sabia que existem pessoas que não querem a ascensão das outras, que as querem subalternas. E tinha certeza de que a educação é essencial para se conhecer a própria história e saber de onde se vem. Só assim, cada descendente de escravizado fica sabendo se é descendente de reis e rainhas, de pessoas nobres, reforçando sua auto-estima.

Merecidas honras e memória viva

Mãe Stella recebeu muitas homenagens em vida. Em 2001, ganhou o Prêmio Estadão, por sua atuação cultural. Em 2005, foi indicada ao Nobel da Paz. Em 2009, recebeu o título de Doutora Honoris Causa pela Universidade do Estado da Bahia. Foi reconhecida, também, com a comenda Maria Quitéria e a Ordem do Cavaleiro do Governo da Bahia, além de uma medalha do Ministério da Cultura.

Em 2010, ganhou, na Câmara de Salvador, uma placa em homenagem ao centenário do terreiro Ilê Axé Opô Afonjá. Antes de morrer, era reconhecida como uma grande intelectual, que sempre mereceu o respeito de academias e instituições.

Uma História de Raízes

Em breve, neste ano do centenário, um novo livro sobre Mãe Stella será lançado em maio. A obra é o resultado de 12 anos de pesquisa do historiador e parente da yalorixá, Diego Copque.

Sem querer dar spoiler, o livro reconstrói a origem ancestral de Mãe Stella, desde seus tataravós, bisavós e avós. A publicação ajudará as novas gerações a entenderem suas origens.

Um ser com a Mãe Stella serve de exemplo e mostra que a juventude preta também pode alcançar o topo da pirâmide.

Comemorar este centenário faz parte da nossa obrigação de mantê-la imortal. O místico povo baiano sabe que Mãe Stella está presente, viva na sua essência, como um ser de luz. Tem Oxóssi ao lado dela e está nos protegendo.

Pèrègún duas cores.

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One response to “POESIA DOMINICAL: A militância da centenária Mãe Stella de Oxóssi”

  1. Avatar de heroic0573c510b4
    heroic0573c510b4

    Emocionante recuperar essa memória no centenário dela!

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