Poesia Dominical

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Hoje, destacando Drummond e Ferreira Gullar

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)

Considerado o maior poeta brasileiro do século XX, escreveu poemas sobre os mais diversos temas: o amor, a solidão e a guerra, o seu tempo histórico.

Os ombros suportam o mundo, publicado em 1940, foi escrito na década de 30 e permanece atemporal. O poema fala sobre um estado de cansaço, sobre uma vida vazia: sem amigos, sem amores, sem fé.

Os versos nos lembram os aspectos tristes do mundo – a guerra, a injustiça social, a fome. O sujeito retratado no poema, no entanto, resiste, apesar de tudo.

Os ombros suportam o mundo

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.

Tempo de absoluta depuração.

Tempo em que não se diz mais: meu amor.

Porque o amor resultou inútil.

E os olhos não choram.

E as mãos tecem apenas o rude trabalho.

E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.

Ficaste sozinho, a luz apagou-se,

mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.

És todo certeza, já não sabes sofrer.

E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?

Teus ombros suportam o mundo

e ele não pesa mais que a mão de uma criança.

As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios

provam apenas que a vida prossegue

e nem todos se libertaram ainda.

Alguns, achando bárbaro o espetáculo

prefeririam (os delicados) morrer.

Chegou um tempo em que não adianta morrer.

Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.

A vida apenas, sem mistificação.

Ferreira Gullar (1930 – 2016)

José Ribamar Ferreira, mais conhecido pelo pseudônimo literário Ferreira Gullar, foi um autor, crítico e tradutor brasileiro de relevo, nascido em São Luís, Maranhão. O poeta foi um dos nomes pioneiros do neoconcretismo, um movimento carioca que combatia uma certa atitude positivista perante a criação artística. Foi um escritor engajado, que chegou a ser militante do Partido Comunista. Gullar foi preso e esteve exilado durante a ditadura. Sua poesia social reflete esse percurso, traçando um retrato político e histórico do Brasil na época em que o autor vivia.

Meu povo, meu poema

Meu povo e meu poema crescem juntos

como cresce no fruto

a árvore nova

No povo meu poema vai nascendo

como no canavial

nasce verde o açúcar

No povo meu poema está maduro

como o sol

na garganta do futuro

Meu povo em meu poema

se reflete

como a espiga se funde em terra fértil

Ao povo seu poema aqui devolvo

menos como quem canta

do que planta

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5 responses to “Poesia Dominical”

  1. Avatar de
    Anônimo

    Maravilhosos!🤗🤗🤗

  2. Avatar de
    Anônimo

    É VIVA A POESIA. LUZ! SEMPRE! PARA ILUMINAR TANTOS.

  3. Avatar de heroic0573c510b4
    heroic0573c510b4

    Sempre bons poemas!

  4. Avatar de Marina Romana
    Marina Romana

    ótimas poesia

  5. Avatar de José Alfredo Urquiza Chaves
    José Alfredo Urquiza Chaves

    Boa, Cunhado ! Estamos na torcida .

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