Surge uma fenda, mas deserto some.

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ÁFRICA SOB GRANDES MODIFICAÇÕES

Estou tratando desse tema como uma curiosidade científica, sem qualquer intenção alarmista. Mas acho interessante acompanharmos esse fenômeno. Até o final do século XX, ninguém podia ter imaginado que isso aconteceria – um continente inteiro se partir, de forma anormalmente rápida, dando origem a um novo oceano. O que parece enredo de um filme, hoje é realidade na África Oriental, onde forças geológicas estão redesenhando o mapa do planeta: uma gigantesca fenda, ao longo de mais de 6 mil quilômetros, corta países como Etiópia, Quênia e Moçambique, revelando esse estranho processo, que transformará completamente a região, nos próximos milhões de anos. Enquanto isso, o homem vence a luta contra o deserto.

Em 2005, um evento gigantesco chamou a atenção dos cientistas: uma rachadura de 60 km de comprimento e oito metros de largura se abriu, de forma repentina, no oeste da Etiópia, em apenas dez dias. Claro que isso acendeu um sinal de alerta, entre os cientistas, e acelerou os estudos sobre o fenômeno.

Os geólogos, porém, já sabiam que o Sistema do Vale do Rift Africano é uma das áreas mais ativas do mundo. No sistema, três placas tectônicas — a Africana, a Somali e a Arábica — estão se afastando, desde que os dinossauros dominavam a Terra, há cerca de 25 milhões de anos. Inclusive, é preciso entender que o continente como um todo nunca deixou de se mover. Esse é um processo em andamento há mais de 180 milhões de anos. 

Quase imperceptível a olho nu, o movimento já criou vales profundos, lagos extensos e até cadeias de montanhas vulcânicas. O Monte Kilimanjaro, o mais alto da África, é um exemplo dessas formações espetaculares.

Mas hoje, os pesquisadores já são unânimes em considerar muito especialmente esse fenômeno tectônico.

Um evento geológico surpreendente

O chamado Chifre da África, a Nordeste, é a região mais crítica dessa divisão, que inclui também as vizinhas Somália e Etiópia. Nessa região, o continente está se afastando a uma velocidade de 2 a 5 centímetros por ano. Para efeito de comparação, esse movimento é mais rápido do que o crescimento das unhas humanas.

Já foi possível para os cientistas afirmarem que, longo prazo, esse pedaço de terra – o Chifre da África – se tornará uma imensa ilha, separada do resto do continente por um braço de mar. Estima-se que, com o tempo, esse mar pode se expandir e se conectar a outras massas de água, formando um oceano totalmente novo.

Com o tremor de terra na região de Afar, na Etiópia, há 20 anos, o processo se acelerou de forma dramática. Em alguns pontos, o terreno cedeu dois metros de uma só vez. A rachadura mais visível hoje, vai da região de Afar, no norte da Etiópia, até o sul do Quênia.

Segundo os estudiosos, esse foi um deslocamento que, normalmente, levaria séculos para acontecer. Ficou, então, demonstrado que a separação do continente pode ocorrer em saltos repentinos, e não apenas de forma lenta e constante.

Contudo, a região do Rift Africano não é importante apenas para cientistas, mas para a economia e a ecologia mundiais. Isso porque a região está próxima ao Canal de Suez, uma rota fundamental para o comércio marítimo, mas, também, abriga ecossistemas únicos, como o lago Vitória e o deserto de Danakil. Se a divisão continuar, certamente será necessário alterar rotas marítimas e procurar meios de esse fato não afetar a biodiversidade local e até alterar o clima da região.

Enquanto isso não ocorre, o Vale do Rift segue funcionando como um laboratório natural para estudar o planeta. Vulcões em atividade, fontes termais e lagos salgados revelam diversas formas como a Terra se transforma, sob nossos pés. Os moradores da região já consideram as mudanças como parte do dia-a-dia, pois estradas precisam, constantemente, ser reconstruídas, poços secam e novas fontes de água surgem inesperadamente.

Para nós, a divisão da África deve funcionar como um lembrete de que a Terra está sempre se acomodando e se recriando. Embora o novo oceano só venha a estar completo daqui a 5 a 10 milhões de anos, cada rachadura no solo, cada tremor, mostra uma parte dessa longa história geológica.

Grande Muralha Verde da África causará efeitos no clima

Com as informações que trago hoje, poderemos deduzir que, com suas grandes dimensões e diversidade, a África mantém consigo outros grandes problemas a resolver; por exemplo, a fome, a falta d’água e a desertificação. Enquanto geólogos do mundo todo se debruçam sobre o problema da Rachadura da África, cientistas de diversas outras áreas somam esforços para conter o avanço do enorme deserto do Norte.

Novos estudos, com avaliações dos ciclos climáticos desde a pré-história até o futuro da região, sugerem que a construção de uma Grande Muralha Verde pode trazer grandes mudanças no clima, desde a faixa norte da África até os países mediterrâneos da Europa.

A chamada Grande Muralha Verde é um projeto extremamente ambicioso, proposto em 2007, que consiste, basicamente, em plantar uma quantidade enorme de árvores, ao longo de uma linha de até 8 mil quilômetros de extensão com 15 quilômetros de largura. Ao todo, será uma área plantada de 100 milhões de hectares na região do Sahel, entre a savana do Sudão  e o deserto do Saara.

Esse esforço colossal será extremamente necessário, constataram: A grande muralha verde é, basicamente, a única coisa que pode impedir a expansão do deserto do Saara para o Sul. Os países empreendedores observaram que, em apenas 15 anos, as mudanças climáticas causaram uma série de eventos extremos de chuva, deslizamentos, estiagem e incêndios que devastaram e desertificaram regiões, antes ricas em fauna e flora. E puderam prever que a expansão do deserto para além dessas regiões poderia arruinar a economia e a vida, em diversas nações africanas.

Quem vai pagar pela salvação do planeta?

No Sahel, 80% da população é carente e ainda depende da agricultura para sobreviver, mas 65% do território já está completamente degradado. A muralha verde será capaz de restaurar terras degradadas, ajudar os habitantes a produzir alimentos novamente, gerar empregos, impedir emigrações e até promover a paz entre os povos da região.

Mas, além disso, ainda há outras previsões menos positivas, os efeitos climáticos severos que a Grande Muralha Verde causará. De acordo com simulações recentes, o projeto pode alterar fortemente o clima em toda a região, para o bem e para o mal:

A precipitação, dentro do Sahel, vai dobrar em volume e as temperaturas médias no verão vão diminuir em 1,5°C. Esses efeitos positivos se estenderão, também, até o Mediterrâneo. No entanto, com essa barreira, as temperaturas vão subir, nas partes mais quentes do deserto. A ambiciosa iniciativa causará mudanças na intensidade e na localização das monções (chuva e vento) da África Ocidental. A vegetação que ressurge no local ajudará a criar um imenso reservatório de umidade, capaz de aumentar as chuvas da monção.

Os ventos, também, irão aumentar porque as novas plantas criam uma superfície de terra mais escura, capaz de mudar completamente a dinâmica de absorção e reflexão de radiação solar em todo Sahel. Em termos técnicos, o resultado é uma diferença maior de pressão atmosférica e, consequentemente, uma intensificação dos ventos de monção.

A ministra do Meio Ambiente da Nigéria, Sharon Ikeazor, afirmou, recentemente, que, nos próximos dois anos, a Nigéria trabalhará intensamente para enfrentar as questões de degradação da terra, segurança alimentar, desertificação, mudança climática, esgotamento dos ecossistemas florestais e biodiversidade na África.

Mas, sem dramas. É evidente que os impactos climáticos da Grande Muralha Verde ainda precisam de estudos mais aprofundados, levando em conta sua escala colossal. Porém, até o momento, tudo indica que as mudanças serão altamente benéficas para os povos do Norte africano e até mesmo da Europa mediterrânea.

No momento, apenas 15% da meta atual foi alcançada, especialmente por conta da falta de fundos e de financiamento. Ainda assim, governos africanos estão comprometidos em tentar restaurar os 100 milhões de hectares de terra até o ano de 2030.

Individualmente, é possível ajudar a iniciativa, através da Internet, mas será necessário, também, cobrar iniciativas governamentais e empresariais que ajudem a financiar o projeto.

Os primeiros resultados da Grande Muralha Verde.

2 responses to “Surge uma fenda, mas deserto some.”

  1. Avatar de
    Anônimo

    A RESISTÊNCIA HUMANA DE QUEM TEM CONSCIÊNCIA. QUANDO RESOLVE PROBLEMAS DE FORMA INTELIGENTE E BONDOSA,FAVORECE AO PLANETA, AOS BIOMAS, À NATUREZA, AO BEM COMUM DO PLANETA. QUE BOM! AINDA EXISTE MUITA LUZ, DIANTE DA SOMBRA DA GANÂNCIA DE POUCOS, INÚTEIS, QUE LUCRAM TANTO. QUE BOM QUE EXISTE PROVIDÊNCIA DIVINA E INFINITA, NA LUZ DO CRIADOR. SALVAR O PLANETA. SEMPRE.

  2. Avatar de heroic0573c510b4
    heroic0573c510b4

    Iniciativa colossal!!

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