A preço de sucatas, dólares e pedras preciosas


O observador mais atento já deve ter percebido o ‘jogo duplo’ que o presidente norte-americano, Donald Trump, está fazendo com a Rússia e a Ucrânia. Dando uma pesquisada no noticiário recente e comentários sobre esse tema – nos jornais de Sputnik, ZAP, RFI, AFP e outros -, todos podemos constatar que, muito além de estar buscando a paz, entre os dois países, o presidente alaranjado está de olho em riquezas e bons negócios. Com a Ucrânia, vai levando o presidente Volodimyr Zelenskyy na conversa e já conseguiu explorar as valiosíssimas terras raras que estão no subsolo do país; em troca, deu aviões “invoáveis”. Com a Rússia, a troca de amabilidades envolve a ampliação vertiginosa dos negócios entre os dois países.
De um lado, Zelenskyy precisa da paz, mas se sente ameaçado de, sem uma guerra, perder o poder na Ucrânia. Ele vê na proposta de Trump uma saída honrosa. Já para Putin estar inclinado a selar a paz, ele leva em conta que a Rússia já cumpriu todos os objetivos principais na Ucrânia. Situação reforçada pelo fato de que a elite russa quer fim da guerra. É a “sopa no mel”, aproveitada por Trump, que está se preparando para sacramentar um Tratado de Paz, e ainda se sair de bonzinho.
Radwan Bouhidel, professor de ciência política e relações internacionais da Universidade de Alger 3, comenta o momento crucial para a construção da paz: “Trump, tal como Putin, está bem ciente de que esse conflito não terminará com soluções militares. O líder russo quer uma solução política, sentando-se à mesa de negociações, sem fazer grandes concessões”. Já Trump quer fazer grandes negócios, completo eu.
Putin e Trump têm conversa ‘franca’ e ‘excelente’
Os presidentes da Rússia, Vladimir Putin, e dos Estados Unidos, Donald Trump, conversaram por mais de duas horas por telefone, na última segunda-feira. Segundo ambos, a conversa foi bastante construtiva.
Após dialogar com o presidente norte-americano, Vladimir Putin falou à imprensa sobre a ligação entre os dois chefes de Estado. “Significativa, franca e muito útil”, descreveu o mandatário russo. Em sua fala a repórteres, Putin agradeceu a Donald Trump pela participação dos Estados Unidos na retomada das negociações diretas Rússia-Ucrânia e na elaboração de um possível acordo de paz.
“O presidente dos Estados Unidos – disse ele – expressou sua posição pela cessação das hostilidades e, por sua parte, reconheceu que a Rússia também é a favor de uma resolução pacífica para a crise ucraniana.” As conversas russo-ucranianas, lembrou Putin, foram encerradas unilateralmente pela Ucrânia em 2022.
“Estamos prontos para trabalhar em um memorando sobre um possível acordo de paz”, disse Putin, especificando que é preciso definir diretrizes, como os princípios do acordo e um cronograma para sua realização. “Incluindo um possível cessar-fogo por um período definido, caso haja um entendimento mútuo. A questão, claro, é que os lados russo e ucraniano demonstrem o máximo desejo pela paz e encontrem um meio-termo que agrade a todos”.
O presidente russo, entretanto, deixou clara a posição de Moscou de que é preciso eliminar as causas profundas que geraram o conflito ucraniano.
No geral, descreveu Putin, com a retomada das tratativas em Istambul, a busca por uma solução negociada volta a ganhar concretude. “E isso dá motivos para acreditar que estamos no caminho certo.”
Por sua vez, o porta-voz da presidência russa, Dmitry Peskov, comentou que o presidente dos Estados Unidos mantém uma posição neutra e está genuinamente empenhado em resolver o conflito. Dessa forma, a posição norte-americana contrasta com a dos líderes europeus que visam “enfraquecer a Rússia de todas as formas. Uma mediação verdadeira exige equidistância em relação aos dois lados do conflito.”
Trump: ‘Conversa foi excelente’
Ao comentar o telefonema, Trump confirmou, em suas redes sociais, que as negociações diretas entre Rússia e Ucrânia para um cessar-fogo começarão imediatamente. Segundo o líder da Casa Branca, o tom e o espírito da conversa foram “excelentes”.
“Acabei de completar minha ligação de duas horas com o presidente Vladimir Putin, da Rússia. Acredito que correu muito bem… O tom e o espírito da conversa foram excelentes. Se não fossem, eu diria agora, e não mais tarde.” Assim que acabar o conflito, escreveu Trump, o comércio tende a aumentar “em grande escala” e até mesmo a Ucrânia se beneficiará da retomada comercial.
“Há uma oportunidade enorme para a Rússia criar empregos e riqueza em larga escala – disse. Seu potencial é ilimitado. Da mesma forma, a Ucrânia pode ser uma grande beneficiária do comércio, no processo de reconstrução de seu país.”
Trump também comunicou ao ucraniano Volodimyr Zelenskyy e a líderes europeus o avanço das conversas e acrescentou que o Vaticano já se ofereceu para sediar as negociações.
Nenhum dos dois lados revelou o conteúdo da conversa.
Terras raras x aviões e perdão de dívidas
No início deste mês, finalmente aconteceu o que os EUA vinham buscando, desde que Trump foi reeleito presidente: Washington chegou a um acordo sobre o acesso e a exploração de minerais estratégicos e terras raras da Ucrânia. Com isso, os EUA obtêm direitos preferenciais e capacidade de investimento sobre os recursos naturais da nação (incluindo titânio, zircônio, grafite, gás, petróleo e manganês), num acordo que pretende impulsionar a reconstrução do país, devastado pela guerra, sem impor dívidas a Kiev. No acerto, os EUA reativaram a ajuda no conflito.
O principal instrumento está sendo denominado de Fundo de Investimentos para a Reconstrução Estados Unidos-Ucrânia, uma entidade binacional com representação igual de ambas as partes, que gerenciará novas licenças, sem afetar empresas preexistentes ou orçamentos já comprometidos. Para as autoridades ucranianas, o acordo representa uma aliança baseada em investimentos, tecnologia e autonomia compartilhada, não em subordinação econômica.
Um dos elementos mais chamativos do pacto é a eliminação de qualquer tipo de obrigação de dívida da Ucrânia para com os EUA. Esse gesto superaria as críticas recorrentes de Trump sobre a “falta de retribuição” pela assistência militar dos EUA, que o presidente havia calculado em 350 bilhões de dólares.
A ministra da Economia ucraniana, Yulia Svyrydenko, ressaltou que o acordo não altera o status legal das empresas públicas.
Trump conseguiu. A Ucrânia assinou o acordo.

O secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, e a vice-primeira-ministra ucraniana, Yulia Svyrydenko, assinam acordo para exploração de recursos naturais da Ucrânia. US Department of the Treasury/EPA
Os Estados Unidos e a Ucrânia assinaram, quarta-feira passada, em Washington, um acordo que estabelece um fundo de investimento para a reconstrução do país, devastado pela guerra, e concede à administração do presidente Donald Trump acesso aos recursos naturais ucranianos. Assim, osEUA se reconcilia com Ucrânia; como presente, enviaram aviões F-16 que estão parados e são incapazes de voar. Esses caças nunca voarão sozinhos, mas sua utilidade é outra: fornecer peças para os que estão ativos.

Os F-16 doados à Ucrânia como prova da “boa vontade” de Trump. Foto: Xataka
Após duras negociações, os dois países assinaram, finalmente, o sonhado acordo de Trump para que empresas americanas tenham acesso, principalmente, às terras raras do subsolo ucraniano. O acordo foi assinado pela vice-primeira-ministra ucraniana, Yulia Svyrydenko, e pelo secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent.
O Departamento do Tesouro afirmou, num comunicado à imprensa, que “este acordo sinaliza claramente à Rússia que a administração Trump está comprometida com um processo de paz, centrado numa Ucrânia livre, soberana e próspera a longo prazo”.
“O presidente Trump imaginou esta parceria entre o povo americano e o povo ucraniano para mostrar o compromisso de ambos os lados com a paz e a prosperidade duradouras na Ucrânia”, acrescenta a nota do Tesouro norte-americano.
Segundo o Business Insider, o acordo prevê o acesso dos EUA aos recursos naturais ucranianos de alumínio, grafite e petróleo, essenciais para as áreas das novas tecnologias e defesa, numa altura em que as restrições à exportação de elementos de terras raras da China aumentaram a importância estratégica destes elementos. A Ucrânia afirma ter garantido seus interesses, incluindo a plena soberania sobre suas próprias terras raras, em grande parte ainda não exploradas.
Trump tinha exigido os direitos sobre a riqueza mineral da Ucrânia como compensação pelos milhares de milhões de dólares em armas americanas, enviadas durante o mandato do ex-presidente democrata Joe Biden, após a invasão russa ocorrida há pouco mais de três anos.

Alguns elementos de terras raras, cobiçados pelos Estados Unidos.
Paralelamente a este acordo, estão em andamento múltiplas negociações diplomáticas, em busca de uma saída para o conflito bélico.
Ao anunciar a assinatura do acordo em Washington, Scott Bessent afirmou que os seus termos demonstram “o compromisso de ambas as partes com a paz e a prosperidade. “Este acordo transmite claramente à Rússia o compromisso da administração Trump com um processo de paz centrado em uma Ucrânia livre, soberana e próspera a longo prazo”, declarou Bessent.
“O acordo é bom, justo e benéfico”, declarou numa publicação no Telegram o primeiro-ministro ucraniano, Denis Shmigal, que acrescentou que ambos os países vão criar um Fundo de Investimento para a Reconstrução, no qual cada parte terá 50% do direito de voto. “A Ucrânia mantém o controle total sobre seu subsolo, infraestrutura e recursos naturais”, declarou.
“Não será exigido à Ucrânia o pagamento de nenhuma dívida pelos milhares de milhões de dólares em armas e outros apoios americanos”, fornecidos desde a invasão russa, em fevereiro de 2022, acrescentou o governante. “Os lucros do fundo serão reinvestidos exclusivamente na Ucrânia”, afirmou.
A Ucrânia tem cerca de 5% dos recursos minerais e terras raras do mundo, segundo diversas estimativas. Embora, em grande parte, ainda não tenham sido explorados, muitos dos depósitos ucranianos encontram-se atualmente em território sob controle das forças russas.

Enquanto isso, a guerra continua. Após a assinatura do acordo, ataques de drones russos durante a noite mataram pelo menos duas pessoas e deixaram 15 feridos em Odessa, no sul da Ucrânia, informaram os serviços de emergência ucranianos.
A Rússia controla cerca de 20% do território da Ucrânia após combates intensos que causaram a morte de dezenas de milhares de pessoas, incluindo civis.
Vamos ver no que vai dar tudo isso. Esperemos, ao menos, pela paz numa das regiões conflagradas do planeta. Já na Palestina, o projeto de Trump não visa o fim da guerra, e sim a expulsão ou morte de todos os moradores de Gaza, para que um grupo americano – provavelmente o dele próprio – construa um imenso resort para os milionários exóticos e insensíveis.
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