Ciência & Vida – Físicos transformam chumbo em ouro, o sonho dos Alquimistas.

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O Grande Colisor de Hádrons (LHC) é o maior e mais poderoso acelerador de partículas do mundo. Consiste em um anel de 27 quilômetros de ímãs supercondutores com várias estruturas de aceleração para aumentar a energia das partículas ao longo do caminho. Foto: LHC

Ainda que a imagem de “transformar chumbo em ouro” tenha outro importante sentido para os Alquimistas, essa expressão despertou, ao longo da História, a ambição humana de “fabricar riquezas” dessa maneira exótica. As experiências do Grande Colisor de Hádrons (LHC) não criam grandes pepitas de ouro, mas algumas partículas dentro de um feixe de íons de chumbo podem se transformar em ouro, durante cerca de um microssegundo. Os Alquimistas – e os Capitalistas – queriam mais.

Vamos entender juntos a experiência no maior Colisor de Hádrons do mundo, que fica na Suíça: Feixes de chumbo em colisão originam íons de ouro de movimento rápido e curta duração. Mais adiante, vamos compreender melhor esse processo, que poderá ajudar a refinar experiências com aceleradores de partículas.

Dizer que o sonho dos alquimistas do século XVII foi concretizado por físicos no Grande Colisor de Hádrons (LHC), que transformaram chumbo em ouro – ainda que apenas por uma fração de segundo e a um custo enorme – é uma força de expressão.

Como foi a experiência

A supostamente misteriosa transmutação aconteceu no CERN, o laboratório europeu de física de partículas, próximo de Genebra, na Suíça.

Antes dos detalhes, é bom sabermos as diferenças no número de prótons entre os elementos (82 para o chumbo e 79 para o ouro) tornavam isso impossível por meios químicos.

Num estudo publicado este mês, uma equipe de investigadores da experiência ALICE do CERN conseguiu a proeza, direcionando feixes de chumbo uns contra os outros, viajando em sentidos opostos, a uma velocidade próxima à da luz. Nestas condições, os íons passam ocasionalmente de raspão uns pelos outros, em vez de colidirem frontalmente.

Quando o raspão casual acontece, o intenso campo eletromagnético em redor de um íon pode criar um pulso de energia que desencadeia a ejeção de três prótons de um núcleo de chumbo que se aproxima, transformando-o em ouro.

Pesquisa alcançou avanços

Os cientistas correram para analisar o grande feito. Os resultados do estudo, apresentados num artigo publicado a 7 deste mês, na Physical Review Journals, a equipe calculou que, entre 2015 e 2018, as colisões no LHC criaram 86 bilhões de núcleos de ouro — mas, que pena, pesavam apenas 29 bilionésimos de grama.

O relatório segue, explicando que os átomos de ouro, instáveis e de movimento rápido, teriam durado cerca de 1 microssegundo, antes de colidirem com aparelhos da experiência, ou se fragmentaram em outras partículas.

A análise ALICE “é a primeira a detectar e analisar, sistematicamente, a confirmação da produção de ouro no LHC, experimentalmente”, afirma à Nature a física russa Uliana Dmitrieva, membro da equipe do ALICE.

“Entre 2002 e 2004, um outro acelerador do CERN, chamado SPS, observou a transformação de chumbo em ouro”, diz Jiangyong Jia, físico da Universidade de Stony Brook, em Nova Iorque.

Mas as experiências conduzidas no novo estudo são realizadas com energia mais elevada e, por isso, têm uma probabilidade muito maior de criar ouro e permitem observações muito mais claras, explica.

Os estudiosos do CERN não planejam propriamente dedicar-se à produção de ouro como atividade secundária – uma atividade que seria ruinosa -, mas afirmam que uma melhor compreensão de como os fótons podem alterar os núcleos ajudará a melhorar o desempenho do LHC. “Compreender tais processos é crucial para controlar a qualidade e estabilidade do feixe”, diz Jiangyong Jia.

Como pensam os Alquimistas

A transformação de chumbo em ouro é um dos grandes sonhos da Alquimia, uma prática antiga que combinava química, filosofia e misticismo. Embora os alquimistas medievais acreditassem ser possível converter metais básicos em ouro, através da Pedra Filosofal ou do Elixir da Vida, a ciência moderna explica que isso é extremamente difícil, mas não totalmente impossível.

Convido os queridos leitores a acompanhar a perspectiva histórica da Alquimia.

Os alquimistas buscavam transmutar chumbo (um metal pesado e comum) em ouro, usando, pelo menos, dois métodos: a Pedra Filosofal – Uma substância lendária que supostamente realizava a transmutação; e Magnum Opus – Um processo alquímico, dividido em etapas (nigredo, albedo, citrinitas e rubedo). Veja detalhes abaixo.

Eles não conheciam a estrutura atômica, mas acreditavam em princípios como a purificação da matéria e da alma humana.

A sua perspectiva científica vislumbrava a Física Nuclear. Hoje, sabemos que a transmutação de elementos é possível, mas requer alterações do núcleo atômico. O Chumbo (Pb) tem número atômico 82, enquanto o Ouro (Au) tem número atômico 79. Para transformar chumbo em ouro, seria necessário remover 3 prótons do núcleo, o que exige: reações nucleares (como bombardeamento com partículas, em aceleradores de partículas) e processos de fissão/fusão nuclear que consomem energia em quantidades impraticáveis.

Essa percepção fez os cientistas concluírem – por enquanto – que o processo não é viável economicamente, devido ao custo energético, que é altíssimo. Ou seja, a energia necessária supera, em muito, o valor do ouro produzido, entre outros fatores.

Outro aspecto que inviabiliza a transformação de chumbo em ouro é a dificuldade técnica da pesquisa, que exige equipamentos como ciclotrons ou reatores nucleares, que são caríssimos. E, por fim, o rendimento é ínfimo e a quantidade obtida é mínima e instável, por se tratar de isótopos radioativos.

Porém, se a transmutação de chumbo em ouro é teoricamente possível, mas economicamente inviável, a Alquimia falhou em seu objetivo prático, mas contribuiu para o desenvolvimento da Química e da Física Nuclear.

Alquimia viu um processo da evolução humana

A Alquimia, especialmente em sua tradição esotérica e espiritual, via a transformação do chumbo em ouro não apenas como um processo físico, mas principalmente como uma metáfora da evolução humana. Segundo os alquimistas, o “chumbo” representava a condição bruta e impura do ser humano, enquanto o “ouro” simbolizava a perfeição espiritual, a iluminação ou a realização do verdadeiro eu.

É muito interessante a visão esotérica da Alquimia, sobre a vida humana.

Os alquimistas acreditavam que, assim como os metais grosseiros podiam ser refinados, o ser humano também passava por um processo de Purificação da Alma (Opus Alquímico). Isso envolvia a superação das paixões inferiores (ganância, orgulho e ignorância) e o cultivo de virtudes (sabedoria, amor e humildade).

Para se atingir a auto-purificação, o processo alquímico exige a Grande Obra (Magnum Opus), que é um processo, dividido em etapas que simbolizavam: Nigredo (Escuridão): a morte do ego, o reconhecimento das próprias sombras; Albedo (Brancura): A purificação, o despertar da consciência; Citrinitas (Amarelamento): A iluminação interior, o início da sabedoria; e Rubedo (Vermelhidão): A unificação dos opostos, a realização espiritual completa.

Sobre a tão conhecida Pedra Filosofal, podemos dizer que ela representava o estado de perfeição alcançado pelo adepto, capaz de transmutar a “matéria bruta” (a natureza inferior do homem) em “ouro espiritual” (a essência divina). 

Essa grande mudança, na vida de um alquimista, tem aplicação na vida humana. Proporciona autoconhecimento, pois o verdadeiro alquimista buscava conhecer a si mesmo, dissolvendo suas ilusões.  Traz uma transformação interior, porque a “transmutação” não era apenas de metais, mas da consciência, levando à libertação da ignorância. E, também, é muita eficaz na chamada união com o Divino, considerando que o ouro alquímico simbolizava a conexão com o sagrado e a realização da alma imortal. 

Em resumo, a alquimia esotérica via a transformação do chumbo em ouro como um símbolo da jornada humana em direção à perfeição espiritual, onde o verdadeiro “ouro” era a iluminação e a união com o princípio divino.

Na minha humilde opinião, bastava que começássemos, enquanto raça humana, a cultivar as virtudes: sabedoria, amor e humildade.

2 responses to “Ciência & Vida – Físicos transformam chumbo em ouro, o sonho dos Alquimistas.”

  1. Avatar de genuinebd134a63aa
    genuinebd134a63aa

    Fantástico!

  2. Avatar de heroic0573c510b4
    heroic0573c510b4

    Bastavam as virtudes!

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