BRÍGIDO IBAÑEZ


Brígido Ibañes Foto: Rosana P Santos -Wikimedia.
Nascido no Paraguai, foi registrado em Bela Vista, Mato Grosso do Sul, em 8 de outubro de 1947. É um escritor Brasileiro, cuja vertente literária transita na fronteira entre dois países: Brasil e Paraguai. Por meio das letras é o porta-voz de contos, lendas, culturas e memórias fronteiriças de sua infância, ora no Paraguai, ora no Brasil. Na pátria adotiva, ficou mais tempo em Patrocínio (MG). Está classificado como Literatura sul-mato-grossense de preservação do meio ambiente, dos direitos humanos e da conscientização política.
Em sua longa e bem-sucedida trajetória, enfrentou glórias e ameaças. Por revelações no seu livro mais vendido, Silvino Jaques, em entrevista a Thales Schmidt, do “Jornal Sputnik News”, o escritor relatou que, na noite de 14 de maio de 2006, sofreu um ataque a bomba incendiária que destruiu parte da sua residência, causando ferimentos nele e na sua esposa. Naquele Dia das Mães, como articulista, publicou em jornal local uma matéria em que se manifestava sobre a sua experiência como fiscal rural do Banco do Brasil, fazendo grave denúncia de esquema de corrupção, o que lhe valeu, segundo ele, perseguições e sanções dentro da instituição financeira, sendo transferido para o Nordeste.
De retorno ao Mato Grosso do Sul, foi eleito delegado sindical e, por suas prerrogativas, se opôs à realização de horas extras não remuneradas, o que, ao final, lhe valeu a demissão. O inquérito policial do atentado foi arquivado e todas essas questões foram relatadas à Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA, de quem passou a receber proteção. Tendo a liberdade de expressão como bandeira de luta, bem como a busca pelos direitos humanos em prol das minorias e, levando em conta esse atentado sofrido em 2006, o escritor foi indicado, por ofício, em janeiro de 2007, pela Federação das Academias de Letras e Artes do Mato Grosso do Sul (FALA), para o Prêmio Nobel de Literatura.
ENDEREÇO DO BLOG DE BRÍGIDO IBAÑES
https://brigidoibanhes.blogspot.com/2015/09/atlasdas-representacoes-literarias-de.html?m=1
ÍNDIO É COISA DE BRANCO
O meu grito de guerra
é o esturro da onça pintada
que o predador abateu;
é o eco distante da guerra
na mata que teve fim
em troncos carbonizados,
galhos secos retorcidos
sobre o cadáver da terra,
coberto de capim.
Meu grito sai das águas
do rio que avermelhou:
sangue no leito de morte
da natureza que se acabou;
cemitério de peixes,
que corre desorientado,
que se joga envergonhado
no oceano sem fim.
Meu grito vem da taba,
onde as rezas e as danças,
sob a coroa das estrelas,
nos uniam ao firmamento.
Ontem, bebia-se o cauim
e praticavam-se as pajelanças;
hoje, pelas frestas das tramelas
Tupã espia o desalento
e o suicídio do curumim.
De agonia, o grito rouco
da garganta guarani saiu.
Por cinco séculos esse louco
nas trincheiras resistiu,
nos campos de extermínio,
as ‘reservas’ da nação.
Até que todos morreram
sufocados pela cachaça,
tuberculose e discriminação.
Que grito é esse que ninguém ouve?
Ele voa pelos morros e pelos campos
pela cidade grande e pelo mar.
O grito ecoa pelo mundo inteiro:
‘índio’ é coisa de branco!
‘índio’ é prisão, cativeiro
‘índio’ é reserva, dominação.
Sou guarani, kaiová,
ofaié, kadiweu, camba,
terena, kinikinau, guaicuru,
guató, laiana, aticum.
Meu país tem pau brasil
Em cuja sombra descansei,
Em cujo chão já fui rei.
Não sou índio,
nem indigno,
nem indigitado,
nem indisciplinado,
muito menos indigente.
sou brasileiro nativo,
Sou gente.
– – –
RESPINGO
A chuva respinga
na calçada fria
Distante a imagem
Na manhã da vida
Do pingo na poça
Da verde grama
São caravelas
No mar revolto
Cercado por matas
De pontas de capim
Meu olhar infantil
Está distante
Desta água ácida
Que corrói o cimento
E que deprime a alma
Resta esperança?
A chuva respinga
Na vereda do futuro
E as imagens difusas
Algumas tristonhas
Enchem de lágrimas
Que respingam
Aos meus pés.
—

Deixe uma resposta para CLEBER BENEVOLOCancelar resposta