Homenagens e conversas de alto nível


Vários acordos e compromissos estão sendo assinados.
O presidente Lula chegou a Paris ontem (4) para uma visita de Estado do Brasil à França. Esta é a primeira visita de um chefe de Estado brasileiro à França desde 2012. Na visita, Lula receberá homenagens e terá diálogos com o presidente francês Emmanuel Macron, com assuntos em pauta como a guerra entre Rússia e Ucrânia, o massacre em Gaza e o acordo União Europeia-Mercosul. Muitos negócios podem ser concretizados. Lula ainda vai ser condecorado com honras, ao receber o título de Doutor Honoris Causa da Universidade de Paris.
O presidente Lula falou à imprensa hoje (5), em Paris, após se reunir com o presidente da França, Emmanuel Macron. Ao abrir o discurso, Lula afirmou que Macron o recebeu “com a hospitalidade que somente um grande amigo pode oferecer”.
O presidente brasileiro cobrou publicamente o apoio da França ao acordo comercial entre Mercosul e União Europeia. Os franceses vêm adotando uma postura protecionista para resguardar seus produtores rurais, o que tem atrasado a implementação do acordo.
“Eu assumirei a presidência do Mercosul no próximo dia 6. Eu quero lhe comunicar que não deixaria a presidência do Mercosul sem concluir o acordo com a União Europeia. Portanto, meu caro, abra o seu coração para a possibilidade de fazer esse acordo com o nosso querido Mercosul”, disse, acrescentando que “esta é a melhor resposta que nossas regiões podem dar, diante do cenário de incertezas criado pelo retorno do unilateralismo e protecionismo tarifário”, adicionou.
A certa altura, Lula disse: ‘A França deveria ter orgulho de dizer que a maior fronteira dela é no território amazônico’”. E afirmou: “os dados da balança comercial atual mostram que Brasil e França regrediram, em relação ao patamar de trocas registrado em 2012 – data da última visita de um presidente brasileiro (Dilma Rousseff, à época) à França.
“Não é possível que os valores registrados em 2024, de 9 bilhões de dólares, sejam inferiores aos registrados em 2012. Significa que, no comércio, demos um passo atrás e é preciso agora dar dois passos à frente, como se estivesse dançando um bom bolero latino-americano”, disse.

Primeira entrevista de Lula e Macron nessa viagem. Foto:PR
Troca de gentilezas
Questionados sobre o impasse no acordo, Lula e Macron adotaram um tom cordial nas respostas – mas incluíram provocações e convites para rediscutir termos que ainda dividem os dois países em relação ao tema.
Sobre o acordo com o Mercosul, Macron respondeu que “este acordo, neste momento estratégico, é bom para muitos setores, mas comporta um risco para os agricultores europeus.”
“Porque a Europa, por princípios que o presidente Lula e seu governo compartilham – priorizam a ecologia, reduzir a emissão de CO2, proteger a biodiversidade. Por essas razões, proibimos os nossos agricultores de utilizar esses agrotóxicos, por exemplo. Os países no Mercosul não estão no mesmo nível de regulamentação. Não é uma discrepância de qualidade, mas de regulamentação”, afirmou Macron.
“Como eu vou explicar aos agricultores que, no momento em que exijo que respeitem as normas, eu abro o mercado para produtos que não respeitem as normas? Isso é injusto, e não é a visão do presidente Lula. Temos que melhorar, aprimorar o acordo, trabalhar para ter cláusulas salvaguardas e espelho”, completou.
Lula está otimista
Ao responder à mesma pergunta de um jornalista francês, Lula disse que “não está difícil fazer o acordo” e que “o Brasil quer continuar a importar vinhos e queijos franceses, por exemplo”:
“Pode ter no mundo alguém preocupado com o meio ambiente igual ao meu governo, mas não tem ninguém mais preocupado. Pode ter alguém, como nossa ministra do Meio Ambiente, que apanha todo dia da imprensa por tentar cuidar do nosso país, mas não tem ninguém melhor que a nossa Marina. O que não pode é um bloqueio. Vamos colocar as nossas cooperativas para conversar com as cooperativas francesas.”
“Não queremos voltar ao protecionismo. Nos anos 1980, me convenceram que era preciso ter livre comércio e globalização, eu era contra. Aí, depois que o Brasil entra, os que propuseram não querem mais? Por que nós ficamos competitivos? Isso não vale”, disse Lula.
“Eu deixarei a presidência do Mercosul com o acordo União Europeia-Mercosul firmado, com o companheiro Macron participando da assinatura para que seja uma boa fotografia”, afirmou.
“Se precisar, eu venho conversar com os agricultores franceses para mostrar que eles vão ganhar com o acordo. […] É preciso saber quem é que não quer o acordo”, completou o presidente.
Outros temas em destaque
Ao longo do discurso, Lula exaltou as parcerias de Brasil e França em temas como a proteção ambiental e a produção de aeronaves e submarinos.
“Como vizinhos que compartilham extensa fronteira amazônica, apostamos nos benefícios da integração. É importante, presidente Macron, que o povo francês saiba que a maior fronteira da França com qualquer outro país não se dá na Europa, se dá com a América do Sul e com o Brasil. A França deveria ter orgulho de dizer que a maior fronteira dela é no território amazônico”, disse Lula.
O brasileiro também citou os esforços conjuntos Brasil-França na produção de helicópteros – que, segundo Lula, podem reforçar a atuação das polícias, no combate ao crime organizado: “Estamos discutindo uma nova encomenda de aeronaves, porque o governo brasileiro precisa combater de forma muito eficaz o narcotráfico. Precisa combater com mais eficácia o garimpo ilegal, os madeireiros ilegais e tudo que for ilícito no nosso país”, afirmou.
“Um território como o Brasil, que tem as florestas que nós temos, não pode se dar ao luxo de não ter os helicópteros necessários para que a gente faça o nosso trabalho bem feito”, resumiu.
Em sua fala, Lula também retomou temas que vêm marcando sua participação em fóruns multilaterais e em visitas oficiais de Estado – como o pedido de maiores aportes dos países ricos para financiar ações contra as mudanças climáticas, a crítica às guerras em Gaza e na Ucrânia e a defesa de uma reforma da Organização das Nações Unidas (ONU):
“Não é possível destruir coisas que foram construídas com muita força, depois da Segunda Guerra Mundial, e tentar voltar ao protecionismo, ao unilateralismo e à fraqueza da democracia que estamos vivendo hoje no mundo. É impressionante o crescimento do negacionismo e do radicalismo de extrema direita”, disse.
A agenda de Lula na França também inclui uma reunião com a prefeita de Paris, Anne Hidalgo, uma visita à Interpol e um encontro com a comunidade brasileira. “Essa organização é chave nos esforços multilaterais para o enfrentamento a ilícitos transnacionais, em especial o narcotráfico e a exploração de crianças e adolescentes”, disse Lula.

Macron cita Amazônia, guerras e Haiti
O presidente Macron destacou que a crise climática preocupa – e reafirmou que estará em Belém para a COP 30. Segundo o presidente francês, antes da conferência, é possível reunir líderes africanos para tentar alinhar as posições que serão apresentadas na COP. Ele lembrou que a França também tem território coberto pela Floresta Amazônica (Guiana Francesa) e falou sobre a importância de preservar esse ecossistema.
Emmanuel Macron ainda citou que discutiu com Lula as crises espalhadas pelo mundo, como a guerra na Ucrânia, no Oriente Médio e a situação do Haiti. E também defendeu intensificar a relação comercial entre Brasil e França: “Temos uma relação que queremos intensificar mais ainda”, disse.
O que está por trás da visita de Lula
Contudo, existem análises de especialistas sobre o que está por trás dos interesses de Macron em Lula e no Brasil. Segundo entendimento da BBC News Brasil, a expectativa é que o clima de amizade entre Lula e Macron seja mais uma vez explorado, durante visita do brasileiro a Paris.
A viagem acontece após a passagem do chefe de Estado da França pelo Brasil, em março do ano passado, quando os dois presidentes visitaram juntos a Amazônia, participaram de eventos oficiais em Brasília e assinaram acordos bilaterais nas áreas de meio ambiente, educação e transição energética.
Ao longo da visita, as imagens dos dois líderes sorrindo, caminhando de mãos dadas e trocando gestos de afeto reforçaram a narrativa de uma parceria diplomática, amplamente repercutida na imprensa internacional. Para especialistas em política externa dos dois países, a relação entre Macron e Lula é, ao mesmo tempo, uma aposta na projeção internacional e uma estratégia pragmática de enfrentamento de crises internas, por parte de ambos.
Se, por um lado, o Brasil busca o apoio francês para aprovar o acordo União Europeia-Mercosul e fortalecer sua campanha por reforma no Conselho de Segurança da ONU, Paris também tem suas próprias agendas.
Kevin Parthenay, professor de Ciência Política da Universidade de Tours e copresidente do Observatório para a América Latina e o Caribe da SciencesPo, afirma que “um precisa do outro. Macron e Lula compartilham muitas perspectivas comuns e também vivem realidades, de certa forma, semelhantes na política interna e internacional” – analisa.
Desempenho político em tempos de crise
Carolina Pavese, doutora em Relações Internacionais pela London School of Economics (LSE) e especialista em Europa, avalia que, “entre os desafios partilhados pelos dois líderes está o enfrentamento de crises e oposição crescente no cenário doméstico”: -Os dois estão em uma situação frágil e encontram muita resistência por parte da oposição para poder avançar com a sua agenda de política doméstica”, avalia a professora do Instituto Mauá de Tecnologia (IMT).
Ela prossegue, mostrando o lado brasileiro: Lula governa com um Congresso onde não tem maioria sólida, especialmente na Câmara dos Deputados. Boa parte da base parlamentar é formada por partidos de centro e centro-direita (o chamado “centrão”), que negociam apoio caso a caso, o que obriga o governo a fazer concessões constantes em nome da governabilidade. Além disso, a oposição, ligada ao ex-presidente Jair Bolsonaro, continua ativa.
Por seu lado, Macron trabalha com um Parlamento fragmentado e depende do apoio de outras forças políticas para aprovar novas leis e projetos.
Em 2024, o presidente francês dissolveu o Parlamento e convocou eleições antecipadas, após sofrer uma dura derrota na votação do Parlamento Europeu, que teve o partido de direita radical Rassemblement National (Reunião Nacional) como grande vencedor. Nas legislativas no país, a coligação de Macron acabou ficando em segundo lugar, atrás da união de partidos de esquerda.

Iluminação da Torre Eiffel é demonstração de prestígio.
A Agência Folha cita que, durante a visita de Lula, a Torre Eiffel deverá ser iluminada com as cores do Brasil, considerada uma demonstração de prestígio, quando se trata da primeira visita de Estado de um presidente brasileiro à França, em 12 anos.
O primeiro compromisso de Lula em Paris, ontem (4), foi a cerimônia oficial de recepção no Pátio de Honra da Esplanada dos Inválidos, local tradicional de eventos militares e desfiles na França. Em seguida, o presidente teve um encontro com Macron no Palácio do Eliseu, a sede do governo francês. A reunião contou com a participação das delegações dos dois países e foi seguida por uma cerimônia de assinatura de atos.
Ao todo, Lula e Macron devem assinar 20 atos bilaterais, incluindo acordos de cooperação nas áreas de vacinas, de segurança pública, de educação e de ciência e tecnologia, segundo a Agência Brasil.
A agenda inclui outros compromissos com simbolismo político e diplomático, como a visita à sede da Interpol, em Lyon, no dia 9. A organização internacional de polícia, atualmente, é comandada por um brasileiro, o delegado federal Valdecy Urquiza. Inicialmente estava prevista na agenda, no dia 7, a ida à base naval de Toulon, onde são fabricados submarinos nucleares, porém, a visita foi retirada da programação, ainda sem explicações por parte do Itamaraty e do Palácio do Eliseu.
Lula será homenageado em uma sessão especial da Academia Francesa, no dia 5. No dia seguinte, ele também visitará, no Grand Palais, tradicional pavilhão de exposições de Paris, uma mostra dedicada ao Ano do Brasil na França. Também deverá receber o título de doutor honoris causa da Universidade Paris 8, onde lecionaram intelectuais como o filósofo Michel Foucault e o psicanalista Jacques Lacan.
A agenda ambiental também está contemplada, com a inauguração de uma “floresta urbana” em frente à prefeitura de Paris, hoje (5), e a participação de Lula na Conferência das Nações Unidas sobre o oceano, que será realizada em Nice, no litoral mediterrâneo, no dia 9.
“Durante sua passagem pela França, Lula terá vários outros encontros com Macron. Ele discutirá o relacionamento bilateral e temas da agenda internacional, como a necessidade de reforma da governança global, a defesa do multilateralismo, o combate ao extremismo e a preparação para a COP30”, disse a jornalistas o embaixador Flávio Goldman, diretor do Departamento de Europa do Ministério das Relações Exteriores.
Lula revela compromissos oficiais
O presidente Lula começará a agenda de compromissos oficiais nesta sexta-feira (6). Entre os diversos assuntos a serem tratados, existe a expectativa de anúncio de uma nova declaração climática conjunta dos dois países, a cinco meses da COP30 – a Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas, que ocorre em novembro, em Belém do Pará.
Antes de embarcar, Lula conversou com jornalistas, no Palácio do Planalto, em Brasília:
“Vou ter reunião com o presidente Macron e discutir assuntos de interesses globais. Certamente, vamos discutir a guerra da Rússia e da Ucrânia, o massacre do exército de Israel à Faixa de Gaza, o acordo União Europeia-Mercosul e vamos discutir coisas na área da defesa. Eu vou ter uma reunião com empresários brasileiros e franceses porque nós queremos vender o bom momento do Brasil aos empresários franceses, para saber se é possível atraí-los a fazer mais investimentos ou parceria privada”.
No ano passado, o comércio entre Brasil e França passou dos US$ 9 bilhões. A França é o terceiro país que mais investe no nosso País.
Com informações da Agencia Brasil
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