

O que significa a frase “A voz do povo é a voz de Deus”, tão repetida por nós, brasileiros, hoje? Não está na Bíblia, mas Deus é muito anterior à bíblia, seja ela católica, protestante ou até mesmo o Torá hebraico. Até o célebre ‘cientista político’ Nicolau Machiavelli, do século 15, faz uma interpretação anti-povo, como veremos adiante. Mas, levando em conta o amor e a dedicação de Jesus Cristo aos pobres, nós, brasileiros, queremos continuar a seguir os exemplos desse Mestre. Somente quem é frio e insensível não enxerga e nem tenta aliviar o sofrimento de quem é ‘apenas’ pobre, entre eles, seu funcionário e familiares. Nisso, acho que todos iremos concordar.
Costumamos interpretar o significado do provérbio “A voz do povo é a voz de Deus” como uma expressão que usamos para nos referirmos à importância da opinião popular, assim como a possibilidade de ela ser uma verdade ou não.
Isto é, sempre que utilizamos este provérbio, determinamos que alguma opinião sobre algum tema ou pessoa é real, baseada na maioria e isso seria o que a divindade de Deus acharia também.
A sabedoria de todas as coisas remetemos à figura de Deus, geralmente, porque, para a religião, Ele possui uma sabedoria especial. Portanto, se a voz do povo é a voz de Deus, logo, o povo está certo.
A voz do povo é a voz de Deus?
A cronologia dessas palavras dá uma boa reflexão sobre esse tema, ao lembrar que a expressão se originou antes de Cristo, do latim ‘vox populi, vox dei’. Essa expressão, segundo ela, já era conhecida entre os antigos gregos e romanos, sendo citada por Tito Lívio (59 AC-17 DC), em sua obra Ab Urb Condita Libri (Livros Desde a Fundação da Cidade de Roma), famosa narrativa nacionalista da história de Roma.
Outro registro antigo da expressão ‘vox populi, vox dei’ – deturpado pelo puxa-saquismo ao rei – aparece numa carta do abade, estudioso e educador inglês, Alcuíno de York (730-804), seguidor do venerável Bede (673-735), endereçada ao rei Carlos Magno, de quem era conselheiro. Nela, Alcuíno sugere a Carlos Magno não dar ouvidos aos que afirmam vox populi, vox dei, já que a voz da turba era mais parecida com a voz da loucura do que com a sabedoria divina.
Carlos Magno, também conhecido como Carlos I ou Charlemagne, foi Rei dos Francos e primeiro Imperador do Sacro Império Romano-Germânico. Ele foi coroado Imperador do Sacro Império Romano Germânico em 800 pelo Papa Leão III. Carlos Magno dominou a maior parte da Europa central e é amplamente reconhecido como uma das figuras mais influentes da história europeia.
Mas, hoje, aqueles que não ouvem a voz do povo, parecem estar praticando, freneticamente, a teoria de Nicolau Machiavelli (1469-1527), um burocrata e diplomata, a serviço da corte de Florença. Ele explorou melhor do que nenhum outro a ideia contida na expressão ‘a voz do povo é a voz de Deus’, em seu livro O Príncipe, publicado postumamente em 1532, contendo conselhos sobre como ganhar e preservar o poder.
Nele, Machiavelli sublinha a importância da relação entre opinião pública e poder, e de manter a aparência de virtuosidade perante o público ignorante. Um dos conselhos de Machiavelli aos que desejam segurar o poder é dar poder ao povo, cuja voz seria mais constante e mais sábia do que a voz dos príncipes. Aí, os milionários e bilionários fogem até do espírito maquiavélico, pois não admitem ‘dar poder ao povo’.

Papa Francisco falou sobre isso e deu o exemplo.
Jesus sempre priorizou os pobres
Não podemos desconhecer o valor e a grandeza da cultura popular e que Deus dá sabedoria ao povo para caminhar, enfrentando as agruras da vida. O próprio Jesus louva ao Pai por ter escondido a sua sabedoria aos grandes e cultos e a revelado aos pequenos (Mt 11,25): Naquele tempo, Jesus disse: “Eu te louvo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondestes essas coisas aos sábios e inteligentes, e as revelastes aos pequeninos.”
Mesmo o povo sendo sábio, não podemos deixar de enxergar que, a exemplo de todos nós, este é manipulado e alienado pelos meios de comunicação social, redes sociais e pelos grandes da sociedade que, para terem domínio sobre a maioria, agem com muita esperteza e astúcia e, com isso, conseguem, em muitos casos, ter o povo em suas mãos, levando-os a conformarem-se com a sua situação e concordando com os dominadores. Não podemos nos esquecer que a grande maioria dos corruptos eleitos, foram ungidos pelo voto popular. Deus e a Polícia sabem lá como.
Jesus viveu uma trajetória de dedicação e cuidado com os mais pobres. Desde o seu nascimento, teve uma vida simples. Nasceu em um estábulo entre animais, cresceu em uma família humilde e foi apresentado no Templo com a oferta dos pobres. Com o passar dos anos, mostrou-se próximo daqueles que eram discriminados e desprezados da sociedade e fez dessa a sua missão de vida.
“O Espírito do Senhor está sobre mim, pois ele me ungiu para anunciar a Boa Nova aos pobres.” (Lucas 4,18).
Então, o que Jesus espera de nós? Jesus não apenas deixou o exemplo da solidariedade, como também nos indicou que esse é o caminho a ser trilhado para fazer a vontade de Deus e caminhar na santidade. Dessa forma, quando olhamos para a sua história, devemos nos inspirar no tamanho do seu amor pelos mais necessitados. O espaço que o pobre tem no coração de Cristo é o que também devemos manter em nossos corações.
“Jesus respondeu: ‘Se você quer ser perfeito, vá, venda tudo o que tem, dê o dinheiro aos pobres, e você terá um tesouro no céu. Depois venha e siga-me.” (Mateus 19, 21)
Cristo se identifica com o pobre, com o excluído e marginalizado. Portanto, ao manifestarmos nosso amor e cuidado com o próximo, estamos também nos aproximando de Jesus:
“Pois eu estava com fome e vocês me deram de comer; eu estava com sede e me deram de beber; eu era estrangeiro e me receberam em sua casa; eu estava sem roupa e me vestiram; eu estava doente e cuidaram de mim; eu estava na prisão e vocês foram me visitar”.
Então, os justos lhe perguntaram: “Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer, com sede e te demos de beber? Quando foi que te vimos como estrangeiro e te recebemos em casa, e sem roupa, e te vestimos? Quando foi que te vimos doente ou preso, e fomos te visitar? Então, o Cristo lhes respondeu: Eu garanto a vocês: todas as vezes que vocês fizeram isso a um dos menores de meus irmãos, foi a mim que o fizeram.” (Mateus, 25, 31-46)

Papa Francisco dá exemplo do que é Solidariedade. GettyImages
Francisco criou o Dia Mundial dos Pobres
O cuidado aos mais vulneráveis foi, também, uma das principais pautas defendidas pelo Papa Francisco e uma discussão recorrente na Igreja nos últimos anos.
Nesse sentido, Francisco instituiu, em 19 de novembro de 2017, o Dia Mundial dos Pobres. A data nos propõe refletir e atuar de forma concreta sobre o tema. Ele nos orientou:
“Assumamos, pois, o exemplo de São Francisco, testemunha da pobreza genuína. Ele, precisamente por ter os olhos fixos em Cristo, soube reconhecê-Lo e servi-Lo nos pobres.”
Vamos lembrar mais aspectos da história de São Francisco de Assis e seu exemplo de fraternidade. De que forma podemos estender as mãos para ajudar? O Papa Francisco respondia: “E muitas vezes nós entramos naquela lógica da indiferença. O pobre está ali e nós olhamos para o outro lado. Estenda sua mão ao pobre, é Cristo.”
O primeiro passo para caminharmos em direção a um mundo mais solidário, segundo o próprio Papa Francisco, é combater a indiferença. Ela se manifesta de várias formas: no olhar de lado, no sentimento de pena, na doação porque não serve mais, na falta de tempo ou nas ações vazias de amor.
Portanto, estamos falando aqui sobre o sentimento genuíno de se doar para o outro e compreender que somos todos iguais. Como Jesus nos ensinou, não importa a quantia, mas sim a intenção dela: “Erguendo os olhos, Jesus viu pessoas ricas que depositavam ofertas no Tesouro do Templo. Viu também uma viúva pobre que depositou duas pequenas moedas. Então disse: Eu garanto a vocês: essa viúva pobre depositou mais do que todos. Pois todos os outros depositaram do que estava sobrando para eles. Mas a viúva, na sua pobreza, depositou tudo o que possuía para viver.” (Lucas, 21, 1-4)
Então, quero convidar o leitor a meditar sobre essas reflexões e promover uma mudança de dentro para fora. Para contribuir com esse processo, tão atual, deixamos aqui uma breve descrição do saudoso Papa, sobre o verdadeiro significado da solidariedade:
“Solidariedade é muito mais do que alguns gestos de generosidade esporádicos. É pensar e agir em termos de comunidade, de darmos prioridade à vida de todos sobre a apropriação dos bens por parte de alguns. É também lutar contra as causas estruturais da pobreza, da desigualdade, da falta de trabalho, da terra e da casa, da negação dos direitos sociais e laborais”.
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