

Enquanto o presidente alaranjado dos Estado Unidos rosna e vocifera uma ameaça de 10% de aumento nas taxas de comércio internacional – visando as nações que estejam atuando contra seu país -, grande parte do mundo se reúne no Rio de Janeiro para discutir o futuro do mundo, sem guerras – nem tarifárias nem mortais. A Cúpula dos BRICS+, desde sexta-feira (4), discute o Fortalecimento do Multilateralismo, Assuntos Econômico-Financeiros e Inteligência Artificial. Em paralelo, houve o encontro anual do Banco dos BRICS+, comandado pela ex-presidenta do Brasil, Dilma Rousseff, que falou sobre as moedas do livre-comércio.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva sintetizou, em seu discurso na Sessão 3 do BRICS, os temas Meio Ambiente, COP-30 e Saúde Global, em evento realizado hoje (7). Leia na íntegra:
“Os regimes multilaterais de clima e de saúde foram palco de grandes esforços de mobilização do Sul Global.
As três convenções da ONU adotadas aqui no Rio de Janeiro, em 1992, colocaram o desenvolvimento sustentável no centro dos debates sobre o futuro do planeta. Consagramos o princípio das responsabilidades comuns, mas diferenciadas. Mesmo sem o passivo histórico dos países desenvolvidos, os membros do BRICS não deixaram de fazer a sua parte.
Na Organização Mundial da Saúde e na Organização Mundial do Comércio, lutamos juntos pelo acesso a medicamentos e vacinas essenciais para vencer a epidemia de HIV/Aids, a malária, a tuberculose e outras mazelas que afetam, principalmente, os países mais vulneráveis.
Nas Conferências de Cairo e Pequim, há três décadas, reafirmamos os direitos humanos de mulheres e meninas, inclusive à saúde sexual e reprodutiva. Hoje, o negacionismo e o unilateralismo estão corroendo avanços do passado e sabotando nosso futuro.
O aquecimento global ocorre em ritmo mais acelerado do que o previsto. As florestas tropicais estão sendo empurradas para seu ponto de não retorno. A Conferência de Nice, há poucas semanas, deixou claro que o oceano está febril.
Uma década após o Acordo de Paris, faltam recursos para a transição justa e planejada, essencial para a construção de um novo ciclo de prosperidade. Os países em desenvolvimento serão os mais impactados por perdas e danos. São também os que menos dispõem de meios para arcar com mitigação e adaptação.
Justiça climática é apostar em ações comprometidas com o combate à fome e às desigualdades socioambientais. Ao proteger, conservar, e restaurar nossos territórios, criamos também oportunidades para as comunidades locais e povos indígenas.
A geração de empregos decentes, a igualdade entre homens e mulheres e o fim do racismo em todas as suas esferas são imperativos. O Consenso dos Emirados Árabes Unidos, a partir do Balanço Global de avaliação de cumprimento do Acordo de Paris, deve ser a base de sustentação de nossas ações de implementação.
Nosso desafio é alinhar ações para evitar ultrapassar 1,5 graus de aumento da temperatura do planeta. Será preciso triplicar energias renováveis e duplicar a eficiência energética. É inadiável promover a transição justa e planejada para o fim do uso de combustíveis fósseis e para zerar o desmatamento. Faz parte desse desafio viabilizar os meios de implementação necessários, hoje estimados em 1.3 trilhão de dólares, partindo dos 300 bilhões já acordados na COP29, no Azerbaijão.
O Sul Global tem condições de liderar esse novo paradigma de desenvolvimento, sem repetir os erros do passado. Não seremos simples fornecedores de matérias-primas. Precisamos acessar e desenvolver tecnologias que permitam participar de todas as etapas das cadeias de valor.
80% das emissões de carbono são produzidas por menos de 60 empresas. A maioria atua nos setores de petróleo, gás e cimento. Os incentivos dados pelo mercado vão na contramão da sustentabilidade. Em 2024, os 65 maiores bancos do mundo se comprometeram a conceder 869 bilhões de dólares para o setor de combustíveis fósseis. Taxonomias sustentáveis e unidades de contagem de carbono justas e inclusivas podem atrair investimentos produtivos verdes e justos.
A Declaração-Quadro sobre Finanças Climáticas do BRICS, que adotamos hoje, apresenta fontes necessárias e modelos alternativos para o financiamento climático. O Fundo Florestas Tropicais para Sempre, que lançaremos na COP 30, irá remunerar os serviços ecossistêmicos prestados ao planeta.
Meus amigos e minhas amigas, apesar de ser um direito humano, bem público e motor de desenvolvimento, a saúde global também é profundamente afetada pela pobreza e pelo unilateralismo. Recuperar o protagonismo da Organização Mundial da Saúde como foro legítimo para o enfrentamento às pandemias e na defesa da saúde dos povos é urgente. A recente adoção do Acordo de Pandemias é um passo nessa direção. O BRICS está apostando na ciência e na transferência de tecnologias para colocar a vida em primeiro lugar.
No Brasil e no mundo, a renda, a escolaridade, o gênero, a raça e o local de nascimento determinam quem adoece e quem morre. Muitas das doenças que matam milhares em nossos países, como o mal de Chagas e a cólera, já teriam sido erradicadas se atingissem o Norte Global. Não há direito à saúde sem investimento em saneamento básico, alimentação adequada, educação de qualidade, moradia digna, trabalho e renda.
A Parceria pela Eliminação de Doenças Socialmente Determinadas, que lançaremos hoje, propõe superar essas desigualdades sistêmicas com ações voltadas para infraestrutura física e digital e para o fortalecimento de capacidades.
A consolidação da Rede de Pesquisa de Tuberculose, com o importante apoio do Novo Banco de Desenvolvimento e da Organização Mundial da Saúde, bem como a cooperação regulatória em produtos médicos, são exemplos concretos do quanto já avançamos como grupo. Estamos liderando pelo exemplo.
Cooperando e agindo com solidariedade em vez de indiferença.
Colocando a dignidade humana no centro de nossas decisões.
Muito obrigado”.

A plateia aplaudiu o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Foto oficial
O registro foi feito no salão principal do Museu de Arte Moderna (MAM) e contou com a presença de 35 chefes de Estado e de governo, entre membros permanentes e parceiros do grupo. Logo depois da foto oficial, foi realizada uma sessão plenária com foco em meio ambiente, saúde global e na COP-30, que será realizada em novembro, em Belém (PA).
Os membros plenos — Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia e Irã – participaram da imagem, juntos aos representantes de países parceiros como Belarus, Bolívia, Cazaquistão, Cuba, Malásia, Nigéria, Tailândia, Uganda e Uzbequistão, e convidados especiais, entre eles Chile, Uruguai, Vietnã, ONU, OMS, OMC, Banco de Desenvolvimento do BRICS (NDB) e União Africana.
Logo em seguida, os chefes de Estado participaram de uma reunião plenária, voltada a temas como a cooperação internacional, o enfrentamento das mudanças climáticas, a saúde global e a preparação para a COP-30, que acontecerá em novembro, em Belém (PA). Dessa forma, a pauta reforçou o compromisso do BRICS+ com soluções conjuntas entre os parceiros do Sul Global.
Ao final, aconteceu a divulgação de duas declarações com temas específicos: uma sobre o combate às mudanças climáticas e outra sobre a erradicação de doenças socialmente determinadas.
Ontem (6), os países divulgaram a declaração final da Cúpula, com críticas severas ao atual sistema multilateral. O documento defende mudanças no FMI, no Banco Mundial e no Conselho de Segurança da ONU, e também condenando ataques ao Irã, sem mencionar diretamente os Estados Unidos. O grupo dos BRICS+ também reafirmou seu apoio à criação do Estado Palestino, determinado pela ONU.
O que é o Brics?
A sigla foi criada em 2009 com as letras iniciais de Brasil, Rússia, Índia e China, mas logo no ano seguinte passou a incluir a África do Sul, que acrescentou a letra “S”. A iniciativa gerou grande interesse e 21 países do Sul Global – nações em desenvolvimento da América Latina, África, Ásia e Oceania – se articulam para participar da cooperação, nas áreas de economia, saúde e meio ambiente.
Hoje, são membros permanentes a Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia e Irã. Outros países como a Belarus, Bolívia, Cazaquistão, Cuba, Malásia, Nigéria, Tailândia, Uganda e Uzbequistão já estão incluídos como nações parceiras e foram convidados: Chile, Uruguai, Vietnã, a ONU e a OMS.
Multilateralismo e I.A.
Na 2ª sessão da Cúpula dos BRICS, o presidente Lula falou, também, sobre: Fortalecimento do Multilateralismo, Assuntos Econômico-Financeiros e Inteligência Artificial.
A presidência brasileira dos BRICS é guiada pelo lema: Fortalecendo a Cooperação do Sul Global para uma Governança mais Inclusiva e Sustentável. Em 2025, se concentrou em duas prioridades: a Cooperação do Sul Global e as Parcerias BRICS para o Desenvolvimento Social, Econômico e Ambiental.

Íntegra do primeiro discurso de Lula
O presidente brasileiro e do BRICS+, Luiz Inácio Lula da Silva, fez seu discurso de abertura, abordando, com firmeza, as grandes questões mundiais de hoje. Segue a íntegra da fala de Lula, um dos mais influentes líderes mundiais do momento:
“Esta 17ª Cúpula no Rio de Janeiro coroa a histórica expansão do BRICS. É a primeira vez que os Chefes de Estado e de Governo dos países parceiros participam formalmente.
Os países convidados trazem consigo perspectivas de diferentes contextos regionais que enriquecem a articulação de uma visão própria do Sul Global.
Estamos na mesma cidade e no mesmo local que abrigaram a Cúpula do G20 no ano passado. Muito do sucesso alcançado se deveu à participação construtiva do BRICS. Em um curto espaço de tempo, o cenário internacional se deteriorou a tal ponto que algumas iniciativas que aprovamos naquele momento não seriam possíveis agora. A presidência sul-africana do G20 tem nosso total apoio.
O BRICS é ator incontornável na luta por um mundo multipolar, menos assimétrico e mais pacífico. Nesta sessão, vamos tratar da governança econômico-financeira e da necessidade de uma arquitetura para a Inteligência Artificial.
Completamos 10 anos da Conferência de Adis-Abeba sobre o Financiamento para o Desenvolvimento e da adoção dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.
Na Conferência de Sevilha, encerrada na semana passada, ficou evidente que a Agenda 2030 não recebeu recursos suficientes. As estruturas do Banco Mundial e do FMI sustentam um Plano Marshall às avessas, em que as economias emergentes e em desenvolvimento financiam o mundo mais desenvolvido.
Os fluxos de ajuda internacional caíram e o custo da dívida dos países mais pobres aumentou. O modelo neoliberal aprofunda as desigualdades. Três mil bilionários ganharam 6,5 trilhões de dólares, desde 2015. Justiça tributária e combate à evasão fiscal são fundamentais para consolidar estratégias de crescimento inclusivas e sustentáveis, próprias para o século XXI.
A Declaração do BRICS, em apoio à negociação de uma “Convenção Quadro da ONU sobre Cooperação Tributária Internacional”, é um marco. Através da “Visão sobre Reforma do FMI” vamos engajar mais países na 17ª Revisão Geral de Quotas do Fundo.
O Brasil apoia um processo de realinhamento de quotas inclusivo, com fórmula de cálculo simples, equilibrada e transparente. Mesmo nos termos atuais, as distorções são inegáveis.
Para fazer jus ao nosso peso econômico, o poder de voto dos membros do BRICS no FMI deveria corresponder, pelo menos, a 25% – e não os 18% que detemos atualmente.
Onde os arranjos desenhados no pós-Guerra insistem em falhar, o Novo Banco de Desenvolvimento dá uma lição de governança.
O ingresso da Argélia, e o processo de adesão da Colômbia, Uzbequistão, Peru e todos os demais que a companheira Dilma Rousseff anunciou, atestam a capacidade do Banco de oferecer financiamento para uma transição justa e soberana.
Enquanto o unilateralismo cria barreiras ao comércio, nosso bloco trabalha por sistemas de pagamento transfronteiriços mais rápidos, baratos e seguros. Isso vai intensificar o nosso fluxo de comércio e serviços.
A reforma da Organização Mundial do Comércio é outro eixo de ação imprescindível e urgente. Sua paralisia e o recrudescimento do protecionismo criam uma situação de assimetria insustentável para os países em desenvolvimento. Não será possível restabelecer a confiança na OMC sem promover um equilíbrio justo de obrigações e direitos que reflita adequadamente os interesses de todos os seus membros.
Precisamos destravar as negociações agrícolas e estabelecer um novo pacto sobre comércio e clima que distinga políticas ambientais legítimas de protecionismo disfarçado.
Novos desafios demandam um entendimento sobre política industrial que não restrinja a ação estatal em prol do desenvolvimento.
A promoção de cadeias produtivas inclusivas, equilibradas e sustentáveis deve permanecer no centro da nossa agenda comum.
Fazer um estudo de viabilidade para o estabelecimento de cabos submarinos, ligando diretamente membros do BRICS, aumentará a velocidade, a segurança e a soberania na troca de dados.
Ao adotar a Declaração sobre Governança da Inteligência Artificial, o BRICS envia uma mensagem clara e inequívoca. As novas tecnologias devem atuar dentro de um modelo de governança justo, inclusivo e equitativo. O desenvolvimento da Inteligência Artificial não pode se tornar privilégio de poucos países ou um instrumento de manipulação na mão de bilionários. Tampouco é possível progredir sem a participação do setor privado e das organizações da sociedade civil.
A liderança do Conselho Empresarial e da Aliança Empresarial de Mulheres, na organização do encontro empresarial que reuniu mais de mil pessoas no sábado, demonstra a pujança de nossos setores privados.
A primeira reunião do recém-criado Conselho Civil e as demais reuniões do pilar social do BRICS confirmam os avanços na integração entre nossas sociedades. Aproximar essa vertente social do trabalho conduzido pelos governos mantém o BRICS em sintonia com as aspirações de nossas sociedades.
Muito obrigado.”

A presidente do NDB, Dilma Rousseff, durante a 10 ª reunião do banco de desenvolvimento.
Dilma Rousseff falou pelo NDB
Ao encerrar o encontro anual do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB) – realizado junto com a Cúpula -, sua presidente, Dilma Rousseff, destacou setores prioritários como energia limpa, inovação, impacto social e saneamento. Ela enfatizou que “o banco foi feito por países do Sul Global para o Sul Global”.
No décimo encontro anual da instituição, realizado sexta-feira (5), a presidente do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), Dilma Rousseff, pronunciou um duro discurso, defendendo a cooperação entre países do Sul Global e a promoção de um desenvolvimento sustentável e tecnológico.
Durante a coletiva de imprensa de encerramento do evento, Dilma afirmou: “Somos um banco feito por países do Sul Global para o Sul Global”, disse ela, lembrando que o banco foi fundado em 2014, na cúpula do BRICS em Fortaleza. Dilma citava o marco de uma década de criação do NDB, que hoje reúne 11 países membros e está em expansão.
Ela informou que o Conselho de Governadores aprovou a entrada de três novos membros no NDB: a Colômbia, o Uzbequistão e a Argélia, que se juntam aos fundadores — Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul — e aos outros integrantes. “Existem outros países planejando entrar, mas ainda não podemos divulgar os nomes”, comentou.
Energia, inovação e infraestrutura, as prioridades
Ao longo da entrevista, Dilma destacou que uma das principais missões do banco é financiar projetos ligados à inovação, ciência e tecnologia, com foco especial na transição energética. Sobre isso, ela se referiu aos ataques que sofreu quando, no seu mandato presidencial, mencionou o armazenamento de energia eólica e solar:
“No passado, eu lembro de quando falava em armazenar vento e sol. Toda a imprensa brasileira achava que isso era uma ignorância. Pois saibam que este é um dos temas mais importantes hoje”, afirmou, destacando o desenvolvimento estratégico de baterias modernas, capazes de estabilizar os sistemas elétricos.
Dilma também resumiu outras iniciativas prioritárias para o banco, nas temáticas de infraestrutura, projetos com impacto social e saneamento básico. Ela afirmou que essas “são áreas fundamentais para melhorar a vida das pessoas, reduzir desigualdades e garantir um desenvolvimento sustentável”.
Séria busca do desenvolvimento
Ressaltou, ainda, que o NDB já aprovou 122 projetos de investimento, somando US$ 40 bilhões, com alinhamento à Agenda 2030 da ONU: “Nossa relação funcional é baseada na igualdade. Não podemos exercer condicionalidade, como, por exemplo, exigir privatizações, mas fazer reindustrialização de qualidade”.
Foi fundamental, também, focar nas vocações específicas de cada país membro. Por exemplo, “o Brasil é referência em biocombustíveis. A China se destaca nos carros elétricos e na robótica. A Índia tem uma especialidade enorme em economia digital. É isso que queremos transacionar entre nossos países”, disse Dilma.
O Brasil tem papel de destaque nas operações do banco dos BRICS+. Até agora, 29 projetos foram aprovados no país, totalizando US$ 7 bilhões em investimentos. Uma das principais metas para os próximos anos é ampliar o uso de moedas locais nas operações financeiras: “Queremos avançar na adesão de novos membros, de forma estratégica, e ampliar o uso de moedas locais. Essa é uma grande prioridade”, garantiu.
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