Cada um engajado a seu modo
Bom dia, queridos leitores! Neste domingo, selecionei para lermos três poemas – de autores com qualidade inquestionável – que refletem diversas nuances de abordar a crítica social. O primeiro deles, William Shakespeare, renomado por suas peças teatrais, também transitou pela poesia, especialmente sonetos. O segundo escritor selecionado foi a super-atual poetisa Adélia Prado, mordaz ao descrever a vida dos trabalhadores. O terceiro aqui incluído – brasileiro como Adélia – foi o também atual Glauco Mattoso, que descreve com lirismo e mordacidade o cotidiano no Parlamento brasileiro, espalhando carapuças. Espero que vocês gostem! Vale a pena ler. Curtam e comentem lá embaixo.

WILLIAM SHAKESPEARE
William Shakespeare (1564–1616) foi um dramaturgo, poeta e ator inglês, considerado o maior escritor da língua inglesa. A obra de Shakespeare, incluindo seus sonetos, moldou a língua e a literatura ocidental. Escreveu cerca de 38 peças, 154 sonetos e diversos poemas. Sua obra abrange comédias, tragédias e dramas históricos, como “Hamlet”, “Macbeth, “Romeu e Julieta” e “Otelo”. Shakespeare revolucionou o teatro com personagens complexos, linguagem poética e temas universais.
Seus sonetos, “154 poemas de amor e reflexão”, exploram, com maestria, temas universais como o tempo, a beleza e a mortalidade. A linguagem rica e a estrutura impecável dos sonetos influenciaram gerações de poetas. Sua profunda compreensão da psique humana o consagrou como um dos maiores escritores de todos os tempos. Os sonetos revelam a complexidade das emoções e a beleza da linguagem, transcendendo épocas e culturas.
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Soneto 1
Dos seres ímpares ansiamos prole
Para que a flor do Belo não se extinga,
E se a rosa madura o Tempo colhe,
Fresco botão sua memória vinga.
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Mas tu, que só com os olhos teus contrais,
Nutres o ardor com as próprias energias
Causando fome onde a abundância jaz,
Cruel rival, que o próprio ser crucias.
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Tu, que do mundo és hoje o galardão,
Arauto da festiva Natureza,
Matas o teu prazer inda em botão
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E, sovina, esperdiças na avareza.
Piedade, senão ides, tu e o fundo
Do chão, comer o que é devido ao mundo.
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O Soneto 1 de Shakespeare inicia sua série, exaltando a beleza e a necessidade de perpetuá-la por meio da procriação. O poeta adverte o jovem belo de que, ao negar descendência, ele trai a própria beleza. Há uma tensão entre narcisismo e dever social para com o mundo.
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Foto: EBC
ADÉLIA PRADO
Nascida em 1935 em Divinópolis (MG), é uma das vozes mais singulares da literatura brasileira. Professora e filósofa de formação, sua obra une o sagrado e o cotidiano, explorando a experiência feminina com profundidade lírica. Embora não seja uma autora explicitamente militante, sua poesia engajada se revela na valorização da mulher, do corpo, da fé e da vida simples.
Com olhar afiado para as injustiças sociais, escreve sobre a pobreza, a opressão e o trabalho com compaixão e dignidade. Adélia ressignifica o mundo doméstico como espaço de resistência poética. Seus versos celebram a força das mulheres e denunciam, com doçura e firmeza, as desigualdades, num ato de fé e rebeldia em forma de poesia.
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“Trabalhadores” – (Do livro O Pelicano, 1987)
Eles voltam com a marmita vazia,
o boné torto na cabeça,
suados e mansos como bois.
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Passam por mim sem me ver,
mas seus passos pesam no chão
como quem carrega o mundo.
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Têm os olhos fundos
de quem só vê a próxima conta.
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Chamam-se Antônio, José,
e também Maria.
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São santos do ofício
sem altar nem novena.
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A eles, meu verso,
e a vergonha de não saber mais.
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Esse é um dos mais claros exemplos de sua poesia social. Fala com reverência sobre os trabalhadores humildes, elevando-os à dignidade dos santos, num tom solidário e comovente.
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GLAUCO MATTOSO
Glauco Mattoso é o pseudônimo de Pedro José Ferreira da Silva, nascido em São Paulo em 1951. Poeta, tradutor, ensaísta e letrista, destacou-se na cena alternativa e marginal dos anos 1970 e 80, durante a ditadura militar. Sua poesia é marcada pelo uso satírico da linguagem, crítica social, erotismo e experimentação formal, como no uso do soneto clássico para tratar de temas escatológicos ou políticos. Sua obra une irreverência, lirismo e crítica contundente à hipocrisia social.
Tornou-se cego nos anos 1990 por causa do glaucoma, o que reforçou seu trabalho com poesia sonora e tátil. Traduziu autores como Jorge Luis Borges, Oscar Wilde e Marquês de Sade. Foi vencedor do Prêmio Jabuti de poesia em 2015. Glauco é um dos nomes mais provocadores da literatura brasileira contemporânea.
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“Do decoro parlamentar”
– O ilustre senador é um sem‑vergonha!
– O quê?! Vossa Excelência é que é safado!
E os dois parlamentares, no Senado,
disputam palavrão que descomponha.
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Um grita que o colega usa maconha.
Responde este que aquele outro é viado.
Até que alguém aparte, em alto brado
anima‑se a sessão que era enfadonha.
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Inútil tentativa, a da bancada,
de a tempo separar o par briguento:
aos tapas, se engalfinham por um nada…
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Imagem sem pudor do Parlamento,
são ambos mais sinceros que quem brada:
– Da pecha de larápio me inocento!
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Mattoso faz sua crítica social e política, misturada com humor e sátira ácida, e denuncia o espetáculo de grosseria dentro do Parlamento. Em resumo, o soneto mescla forma poética rigorosa, humor corrosivo e crítica social, pintando um retrato crível — e alarmante — do comportamento parlamentar. Um poema engajado, afiado e profundamente atual.
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