
Foto: Arquivo pessoal
Nesses últimos três dias, o poeta Paulo Leminski está sendo homenageado na FLIP – 23ª Festa Literária Internacional de Paraty, que começou quarta-feira (30) e termina hoje, domingo (3). Ao longo de cinco dias, 36 autores brasileiros e estrangeiros participaram de 21 mesas no Auditório da Matriz. O homenageado desta edição foi o poeta, músico e judoca curitibano Paulo Leminski. Ele é o nosso poeta de hoje, não apenas pela admiração que tenho pelo seu trabalho criativo, mas, também, pelo fato de já ter convivido com essa verdadeira ‘figura’ do cenário cultural brasileiro, e sua esposa, Alice Ruiz, enquanto morei em Curitiba, entre 1985 e 89. Isso no tempo em que nos encontrávamos em grupo para tomar uma cervejinha, depois do trabalho. Foi ele quem me explicou que a pronúncia correta dos curtos poemas orientais é haikku, e não hai-kai. Leminski era, também poliglota, incluindo o latim.
Aqui, um pouquinho de sua vida e formação: Paulo Leminski Filho nasceu em 24 de agosto de 1944, em Curitiba, Paraná. Filho de um militar de origem polonesa e de uma mãe de ascendência africana, Leminski teve uma infância marcada por uma intensa busca intelectual. Aos 12 anos, ingressou no Mosteiro de São Bento, em São Paulo, onde estudou latim, teologia e filosofia. No entanto, abandonou a vida monástica em 1963 e começou a se envolver com a cena literária, participando da Semana Nacional de Poesia de Vanguarda em Belo Horizonte, onde conheceu poetas concretistas como Décio Pignatari e os irmãos Haroldo e Augusto de Campos.
Jesus, do ponto de vista do saudoso curitibano, é um “superpoeta” que se envolve com a luta de classes. Leminski escreveu: “Curioso que, na frondosa bibliografia sobre os socialismos utópicos, nunca apareça a doutrina de Jesus como uma das mais radicais”.
Seu livro “Toda poesia” foi lançado em 2013 pela editora Companhia das Letras, a antologia “Toda poesia”. Na publicação, ele pretendia reunir os trabalhos realizados entre 1944 e 1989. Porém, a edição não reuniu apenas uma coletânea de poemas esparsos, até então publicados em livros diversos.
“Toda poesia” contou com importantes comentários críticos e depoimentos sobre Leminski e sua obra – com destaques para a apresentação da poeta, e depois esposa, Alice Ruiz e a participação de José Miguel Wisnik. O lançamento de “Toda poesia” foi marcante, também, porque Leminski, geralmente, fazia publicações artesanais e com tiragem curta, o que dificultava o alcance do leitor.

Leminski e a esposa, Alice Ruiz. Foto: Arquivo pessoal.
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Buscando o sentido
O sentido, acho, é a entidade mais misteriosa do universo.
Relação, não coisa, entre a consciência, a vivência e as coisas e os eventos.
O sentido dos gestos. O sentido dos produtos. O sentido do ato de existir.
Me recuso (sic) a viver num mundo sem sentido.
Estes anseios/ensaios são incursões em busca do sentido.
Por isso é próprio da natureza do sentido: ele não existe nas coisas, tem que ser buscado, numa busca que é sua própria fundação.
Só buscar o sentido faz, realmente, sentido.
Tirando isso, não tem sentido.
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Riso para Gil
teu riso
reflete no teu canto rima rica
raio de sol
em dente de ouro
.
“everything is gonna be alright” teu riso
diz sim
teu riso
satisfaz
.
enquanto o sol
que imita teu riso
não sai
—
Já disse
Já disse de nós.
Já disse de mim.
Já disse do mundo.
Já disse agora,
eu que já disse nunca. Todo mundo sabe,
eu já disse muito.
Tenho a impressão
que já disse tudo.
E tudo foi tão de repente…
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Suprassumo da quintessência
O papel é curto.
Viver é comprido.
Oculto ou ambíguo,
.
tudo o que eu digo
tem ultrassentido.
Se rio de mim,
me levem a sério.
Ironia estéril?
.
Vai nesse ínterim,
meu inframistério.
.
rio do mistério
o que seria de mim
se me levassem a sério?
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Não discuto
não discuto
com o destino
o que pintar
eu assino
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Invernáculo
Esta língua não é minha,
qualquer um percebe.
Quem sabe maldigo mentiras,
vai ver que só minto verdades.
Assim me falo, eu, mínima,
quem sabe, eu sinto, mal sabe.
Esta não é minha língua.
A língua que eu falo trava
uma canção longínqua,
a voz, além, nem palavra.
O dialeto que se usa
à margem esquerda da frase,
eis a fala que me lusa,
eu, meio, eu dentro, eu, quase.
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