Uma Análise Comparativa à luz da tragédia de Gaza

Imagem: I.A.
O livro bíblico de Provérbios – atribuído ao rei Salomão – e o movimento sionista moderno representam dois fenômenos distintos, no tempo e na natureza, mas ambos representam a formação do judaísmo e podem ser comparados, em termos de valores, princípios e impactos históricos. Mas, será que os sionistas cumprem as orientações de seu patriarca? O querido leitor poderá sopesar as informações que trago sobre o tema. De sua releitura, vamos explorar as convergências e divergências entre a sabedoria salomônica e as práticas do sionismo, na maior parte das vezes condenável. Prova disso é a postura genocida com que trata da disputa territorial com os palestinos, em Gaza.
Os Provérbios de Salomão constituem uma coleção de ensinamentos que enfatizam a prudência, a justiça, o temor a Deus e a conduta ética nas relações humanas. Salomão é retratado como o monarca mais sábio de Israel, cujo reinado trouxe prosperidade e estabilidade ao reino unificado.
Na visão judaica, Salomão (ou Shlomo, em hebraico) transcende a figura de um mero rei na tradição judaica. Nessa visão, ele é: um símbolo da sabedoria divina concedida, o construtor do Beit Hamikdash (Primeiro Templo Sagrado) e uma figura central cujas ações e escritos continuam a ser debatidos e interpretados, através das lentes da Torá (Pentateuco), do Tanakh (a Bíblia Hebraica) e, subsequentemente, do Talmude (a lei oral e seus comentários).
Como os judeus enxergam Salomão
A perspectiva judaica sobre Salomão é de profundo respeito. Ele é lembrado como um rei justo e sábio, abençoado por Deus e responsável pela construção do Templo Sagrado, em Jerusalém. A história de Salomão, conforme narrada e interpretada através da Torá, do Tanakh e do Talmude, continua a oferecer lições valiosas para o povo judeu, em sua jornada através da história, mas parece não tocar a vertente radical do sionismo.
A Torá e os Livros dos Profetas (parte do Tanakh) narram a promessa divina feita a Davi de que seu filho o sucederia no trono e construiria a Casa de Deus. Assim, a ascensão de Salomão não foi meramente uma sucessão dinástica. Mas sim o cumprimento de uma profecia divina, sublinhando a legitimidade e a importância de seu reinado aos olhos do povo judeu.
O Tanakh enfatiza a escolha de Salomão por Deus, destacando que ele recebeu “um coração sábio e compreensivo” (1 Reis 3:12). Dessa forma, não viam sua renomada sabedoria apenas como uma inteligência humana excepcional. Mas como um presente direto da Divindade, capacitando-o a governar com justiça e discernimento.
A sabedoria de Salomão é um tema recorrente no Tanakh. Atribuem a ele estes três livros em particular: Mishlei (Provérbios), Shir Hashirim (Cântico dos Cânticos) e Kohelet (Eclesiastes). Cada um desses livros, embora distintos em seu estilo e foco, oferece uma faceta da profunda sabedoria de Salomão, que se estende além do intelecto, alcançando as profundezas da emoção e da espiritualidade.
Kohelet, com sua reflexão melancólica sobre a vaidade da vida “sob o sol”, apresenta uma perspectiva mais filosófica. Em suas ponderações, Salomão examina a futilidade das buscas terrenas sem um propósito espiritual, concluindo que a verdadeira sabedoria reside no temor a Deus e na observância de Seus mandamentos. Consequentemente, este livro serve como um lembrete da transitoriedade da existência humana e da importância de buscar significado em algo eterno.

O Beit Hamikdash (Primeiro Templo Sagrado). Imagem: Chabad.org
Provérbios de Salomão x Sionismo
Seus provérbios refletem uma filosofia de vida que valoriza: a busca pelo conhecimento e sabedoria (“O temor do Senhor é o princípio da sabedoria”); a justiça e equidade (“Balança enganosa é abominação para o Senhor”); a moderação e autodomínio (“Melhor é o longânimo do que o valente”); e a importância do conselho e da ponderação (“Na multidão de conselheiros há segurança”).
Em contraste, o sionismo emergiu no final do século XIX como um movimento político nacionalista, fundado por Theodor Herzl, com o objetivo explícito de estabelecer um Estado nacional para o povo judeu. Enquanto os Provérbios são universais em sua aplicação, o sionismo é particularista em seus objetivos.
As práticas sionistas têm sido caracterizadas por: Ação política e mobilização para criar um Estado judaico; negociações diplomáticas com potências internacionais; e o estabelecimento de instituições pré-estatais. E, em alguns casos, defende o uso da força militar para garantir a soberania.
Os Provérbios de Salomão pouco tratam diretamente da questão territorial, focando mais nas relações interpessoais e na conduta individual perante Deus. Quando o território é mencionado, é no contexto da bênção divina pela obediência (“O justo habitará na terra”). Salomão, como construtor do Templo de Jerusalém, certamente valorizava a conexão espiritual com a terra, mas seus provérbios não enfatizam um direito político exclusivo sobre ela.
Já o sionismo, especialmente em suas vertentes mais nacionalistas, baseia-se na ideia de um direito histórico e divino dos judeus à Terra de Israel (Eretz Yisrael). Essa reivindicação territorial é central para o movimento, muitas vezes justificada, tanto por narrativas bíblicas quanto por argumentos de autodeterminação nacional, após séculos de diáspora e perseguição.
Uma das tensões mais interessantes na comparação surge no tratamento da justiça e do poder. Os Provérbios frequentemente advertem contra o abuso de poder e a opressão dos fracos: “O rei que julga os pobres com verdade firmará o seu trono para sempre”; e “O justo atenta para a causa dos pobres, mas o ímpio nem sequer toma conhecimento”.
O sionismo, por outro lado, especialmente em sua implementação prática, através do Estado de Israel, tem sido acusado – e com razão – de criar estruturas de desigualdade e opressão contra os palestinos, particularmente nos territórios ocupados. Enquanto os Provérbios pregam uma justiça que protege os vulneráveis, críticos argumentam que o sionismo resultou em políticas que marginalizam e deslocam populações não-judaicas.
Sabedoria Pragmática versus Realpolitik
Salomão é celebrado por sua sabedoria pragmática em resolver disputas (como no famoso julgamento das duas mulheres que reivindicavam a mesma criança) e por sua habilidade em manter alianças comerciais e políticas. Seus provérbios refletem essa abordagem prática à vida, enfatizando resultados a longo prazo sobre ganhos imediatos.
O sionismo também demonstrou um pragmatismo notável em sua trajetória, desde as primeiras negociações de Herzl com potências europeias até as alianças contemporâneas com grupos cristãos evangélicos (como o sionismo cristão no Brasil). No entanto, esse pragmatismo político muitas vezes entra em tensão com os valores éticos proclamados nos Provérbios, especialmente quando envolve compromissos com forças contrárias.
Universalismo versus Particularismo
Os Provérbios de Salomão possuem uma dimensão universal – muitos de seus ensinamentos são aplicáveis a qualquer pessoa, independentemente de nacionalidade ou religião. Salomão inclusive é retratado como tendo recebido visitas de líderes estrangeiros (como a rainha de Sabá), atraídos por sua sabedoria.
O sionismo, em contraste, é um movimento particularista por definição, voltado para os interesses específicos do povo judeu. Mesmo quando busca aliados não-judeus (como o sionismo cristão e potências ocidentais), o faz em função de objetivos nacionais judaicos. Essa diferença fundamental entre a sabedoria universalista e o nacionalismo particularista marca uma das principais divergências entre as duas linhas hebraicas.
A comparação entre os Provérbios de Salomão e as práticas do sionismo revela tanto contrastes quanto pontos de contato. Enquanto os Provérbios oferecem uma visão idealizada de sabedoria, justiça e relação com o divino, o sionismo representa uma resposta histórica concreta à situação do povo judeu na modernidade. A tensão entre os valores universais da sabedoria salomônica e as necessidades particulares da ação política sionista continua a ecoar nos debates contemporâneos sobre justiça, nacionalismo e direitos humanos no contexto israelense-palestino.
Nossa análise sugere que, embora o sionismo possa encontrar inspiração em figuras bíblicas como Salomão, sua implementação prática, frequentemente, se afasta dos princípios éticos e sapienciais encontrados nos Provérbios, especialmente no que diz respeito ao tratamento dos “outros” – um tema central na sabedoria salomônica, mas muitas vezes negligenciado na prática política nacionalista.

Os manuscritos dos Provérbios. Imagem: I.A.
O que são os Provérbios de Salomão?
Os Provérbios de Salomão são um conjunto de ditados que fazem parte do Antigo Testamento da Bíblia. Atribuídos principalmente ao rei Salomão, conhecido por sua sabedoria, esses provérbios abordam temas como a moralidade, a ética, a sabedoria e a instrução. O livro é considerado uma fonte de sabedoria popular e é amplamente utilizado para guiar comportamentos e decisões na vida cotidiana.
Aqui estão alguns exemplos notáveis dos Provérbios de Salomão:
“O temor do Senhor é o princípio do conhecimento; os insensatos desprezam a sabedoria e a instrução.”
“A sabedoria é a coisa principal; adquire, pois, a sabedoria.”
“Melhor é o pouco com justiça do que a abundância de bens com injustiça.”
Salomão escreveu vários provérbios sobre a Família, a Amizade, o Trabalho, a Disciplina e a Comunicação, que aqui não vêm ao caso. Quando exaltam a Sabedoria, são importantes: “Os lábios do justo sabem o que agrada, mas a boca dos ímpios anda cheia de perversidades” (Provérbios 10:32); “Aquele que anda com os sábios será cada vez mais sábio, mas o companheiro dos tolos acabará mal” (Provérbios 13:20) e “O temor do ímpio virá sobre ele, mas o desejo dos justos será concedido” (Provérbios 10:24).
Os escritos que mais pesam, nos tempos atuais, são o da Justiça: “O justo jamais será abalado, mas os ímpios não habitarão a terra” (Provérbios 10:30); “A boca do justo em abundância produz sabedoria, mas a língua da perversidade será desarraigada” (Provérbios 10:31; “Os planos dos justos são retos, mas o conselho dos ímpios é enganoso” (Provérbios 12:5). E mais outros:
“No caminho da justiça está a vida; essa é a vereda que nos preserva da morte” (Provérbios 12:28); “O homem é louvado segundo a sua sabedoria, mas o que tem o coração perverso é desprezado” (Provérbios 12:8); “O que encobre o ódio tem lábios falsos, e o que divulga má fama é um insensato” (Provérbios 10:18); “A memória do justo é abençoada, mas o nome dos ímpios apodrecerá” (Provérbios 10:7); e “O temor do ímpio virá sobre ele, mas o desejo dos justos será concedido” (Provérbios 10:24).
Merecem destaque, também, aqueles que tratam da Humildade: “Não sejas sábio a teus próprios olhos; teme ao Senhor e aparta-te do mal” (Provérbios 3:7); “O orgulho só gera discussões, mas a sabedoria está com os que tomam conselho” (Provérbios 13:10); “Não repreendas o escarnecedor, para que não te odeie; repreende o sábio, e ele te amará” (Provérbios 9:8); “O tolo revela todo o seu pensamento, mas o sábio o guarda até o fim” (Provérbios 29:11); “Todo homem prudente age com base no conhecimento, mas o tolo expõe a sua insensatez” (Provérbios 13:16); “O homem prudente não alardeia o seu conhecimento, mas o coração dos tolos derrama insensatez” (Provérbios 12:23).
Os conselhos do rei
Quando fala sobre a Riqueza, Salomão dá conselhos ao sionismo: “A obra do justo conduz à vida; os ganhos do ímpio, ao pecado” (Provérbios 10:16); “O homem bom deixa herança para os filhos de seus filhos, mas a riqueza do pecador é armazenada para os justos” (Provérbios 13:22); “O dinheiro ganho com desonestidade diminuirá, mas quem o ajunta aos poucos terá cada vez mais” (Provérbios 13:11); “O que encobre o ódio tem lábios falsos, e o que divulga má fama é um insensato” (Provérbios 10:18); “Honra ao Senhor com os teus bens, e com a primeira parte de todos os teus ganhos” (Provérbios 3:9).
Quando se refere ao Tempo, o rei Salomão também adverte aos sionistas: “O justo jamais será abalado, mas os ímpios não habitarão a terra” (Provérbios 10:30); “A esperança dos justos é alegria, mas a expectação dos ímpios perecerá” (Provérbios 10:28); e “Não presumas do dia de amanhã, porque não sabes o que ele trará” (Provérbios 27:1).
Obviamente, Salomão não escreveu o livro inteiro, mas há boas razões para aceitar que ele tenha sido o autor da maior parte dos provérbios, entre os capítulos 1 e 24. Certamente, o sionismo tem muitas mensagens dele para se guiar, mas, pelo visto, não quer fazer isso, ao contrário, prefere se opor a Salomão.
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