Conheça esse exuberante poeta e livre-pensador


Fernando Alexandre, no cenário que escolheu para viver. Divulgação.
Fernando Alexandre Guimarães Silva, o “Fernandão”, como era conhecido por seus muitos amigos, tinha uma ligação profunda com o mar. Pisciano, filho de um dentista e de uma dona-de-casa, nasceu em Maceió (AL), em 10 de março de 1950. O poeta, romancista, tradutor e compositor de Londrina (PR), Rodrigo Garcia Lopes, bem o definiu, numa plaquete com alguns de seus trabalhos: “Cativante, irreverente e generoso, de espírito libertário, anticapitalista e ecologista, Fernando era um verdadeiro contador de histórias. Além disso, tinha o dom raro de saber escutar”. Jornalista ‘dos mil jornais’, Fernando Alexandre é um personagem inesquecível, por todos os lugares onde passou, no seu viver irrequieto, em plena quietude da praia deserta.
Teve formação religiosa, estudou em Colégio Marista e, aos 16 anos, trabalhou em uma rádio de Maceió. Em 1968, em plena ditadura militar, foi para Curitiba estudar Jornalismo na Universidade Federal do Paraná. Passou frio, trabalhou em vários jornais simultaneamente, graduou-se em 1972 e mudou-se para Florianópolis (SC). Na ilha, onde morou até 1974, trabalhou no jornal O Estado. Depois, passou uma temporada em Belém e decidiu mudar-se para São Paulo.
Dinamismo desenfreado
Durante os anos na Paulicéia, ele trabalhou em veículos como O Estado de São Paulo, revista Veja, Shopping News e, por dois anos e meio, foi editor da Gazeta de Pinheiros. Um dia, ele decidiu cobrir a inauguração de um pequeno teatro no bairro que faria história: o Lira Paulistana (1979-1986). Saiu do emprego e, junto com quatro amigos, mergulhou fundo na nova aventura.
Logo, o Lira Paulistana passaria a funcionar, não só como casa de shows, mas como cinema, teatro, jornal, editora e gravadora. Em 1981, criou o Jornal da Lira, que chegou a ter uma tiragem de 30 mil exemplares e foi um dos primeiros guias de cultura e lazer do Brasil. O tabloide funcionou apenas por um ano (doze números), mas foi tempo bastante para influenciar outros jornais e cadernos culturais de São Paulo, como a Vejinha. Pelo selo da gravadora do Lira, saíram os dois primeiros discos de Itamar Assumpção, Cida Moreira, grupos como Rumo, Língua de Trapo, Premeditando o Breque e outros.
Nessa época, Fernando criou um personagem próprio, o Professor Delyra, “um astrólogo anarquista que previa o passado e sentia saudades do futuro”. Com ele, chegou a ter uma coluna na TV Record.
Fernando voltou a viver em Curitiba na metade dos anos 80, onde foi assessor da Fundação Cultural. Boêmio, “de esquerda mas sem ser engajado”, trabalhou em dezenas de veículos de comunicação e em projetos e altos cargos oficiais da Cultura no Paraná. Também estruturou e participou da criação da Secretaria Municipal de Cultura de Curitiba, coordenando grande eventos.
Em 1988, conheceu e se apaixonou pela artista plástica Andréa Ramos, resolvendo se mudar com ela para a Praia do Saquinho, em Florianópolis. Deslumbrou-se com a natureza do lugar, onde construíram uma casa sobre um rochedo à beira-mar, e ele passou a pesquisar a história e os costumes dos nativos da área, mesmo sem eletricidade nem telefone.
Já em outra casa, na Costa de Dentro, criaram a Editora Cobra Coralina e editaram vários opúsculos sobre a cultura da região. Lançou, então, o blog Tainha na Rede (premiado com a Bolsa Funarte para Produção Cultural online), que manteve até sua morte, em 7 de abril de 2021.
Os ‘manécais’
Embora não fosse um poeta prolífico, a paisagem do sul da ilha e os costumes locais sempre foram inspiração para seus poemas. Principalmente os similares a hai-kais, que denominou de “manécais”.
Manécais ou mané-kais, como o autor preferia, eram haicais “manezinhos” (apelido que se dá aos nativos da Ilha de Santa Catarina), no impulso de dar “um olhar (meio) oriental para os falares da ilha”, segundo ele.

Imagem reproduzida do Estadão.
ALGUNS ‘MANÉCAIS‘:
Silêncios
.
Incenso aceso
Olho o mundo
Mudo de senso
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Ventos de outono
na madrugada
acordam meu sono
—
ilhas de outono
na madrugada
acordam meu sono
.
ilhas de outono
prateiam tainhas
nas asas da luz
—
mar arisco
bate, bate na pedra
mariscos
—
Quase verão
Guarapuvus de novembro
Amarelam nosso chão
—
rotina
todo esse azul
relaxando a retina
—
outono-inverno
primavera-verão
certos poemas são
sempre de meia-estação
—
luz acesa
braços catam no vento
brilho de estrelas
—
estrela vadia
rasga a escuridão
noite vazia
—
No bico do pássaro
semente:
vida voando ao vento.
—
Horário de verão
Galos acordam à noite
Estrelas brincam de escuridão
—
Noite indo
Dia vindo
A manhã sendo
—
tarde quieta
ventos me contam
cheiros de solidão
—
Indo
ou vindo
questão de V
—
terminou a espera
o barco não se fez ao mar
ficar também é navegar

A paisagem que tanto o inspirou.
—


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