AMEAÇA À VENEZUELA

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EUA enviam grandes forças navais contra narcotráfico

Navios de assalto anfíbio na praia de Porto Rico.Sputnik.APPhoto

Mesmo muito doente, o presidente dos EUA, Donald Topete, secretamente, autorizou, nos últimos dias de agosto, o uso da força militar contra cartéis de drogas latino-americanos, acusando injustamente Nicolás Maduro de ligação com o suposto “Cartel de los Soles”. Ofereceu uma recompensa de US$ 50 milhões (R$ 300 milhões) por informações que levem à sua captura. Imediatamente, a Marinha dos EUA enviou pelo menos sete navios, incluindo três destróieres, um navio de desembarque, um cruzador de mísseis e um submarino nuclear, para a costa da Venezuela, supostamente para combater os cartéis de drogas, escreve o jornal britânico Financial Times. O exército dos EUA está realizando exercícios de desembarque anfíbio em Porto Rico, especificamente nas praias do sul (Praia Arroyo) que se assemelham muito à costa norte da Venezuela. O envio de navios de guerra e milhares de marinheiros estadunidenses à região leva o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, a convocar milícias.

“O Pentágono está implantando navios de guerra em águas ao redor da América Central e do Sul, um aumento naval incomumente grande que alimentou tensões com a Venezuela e outros países latino-americanos”, ressalta o Financial Times.

Segundo o artigo, primeiro, dois navios de guerra chegaram perto da costa da Venezuela, enquanto outros seis, incluindo o USS Iwo Jima com mais de 4.500 militares e cinco equipados com mísseis Tomahawk, estavam a caminho da região. As tropas fizeram manobras de desembarque em Porto Rico.

A reação, da Venezuela e do mundo, não tardou. O envio de militares dos EUA à Venezuela é um teste para intervenção em outros países, advertem analistas. Por sua vez, Nicolás Maduro, afirmou que a Venezuela não se curvará a ninguém e nunca aceitará a supremacia de ninguém sobre si. Além disso, o líder venezuelano agradeceu aos governos dos países amigos pela solidariedade e apoio à república, em face da agressão norte-americana.

O diabo-louro, anunciando a explosão de um barco na costa da Venezuela.

Teste para intervenção em outros países

Em entrevista à Sputnik Brasil, especialistas afirmam que a Venezuela não tem um papel central no mercado global de drogas, e que o objetivo real dos EUA é usar o país como um entreposto para criar uma estratégia e fortalecer um plano imperialista de ocupação de outras regiões.

O envio de militares norte-americanos para combater cartéis de drogas na América Latina alarmou países da região e levantou a suspeita de que a Casa Branca estaria preparando o terreno para uma intervenção militar no continente.

Não seria a primeira vez que os EUA usam a questão das drogas para intervir em outro país. Nos anos 1970, durante a Guerra Fria, Washington financiou cartéis de drogas, como o de Guadalajara, para fortalecer grupos paramilitares no combate ao comunismo.

Nos anos 1980, por sua vez, a Agência Central de Inteligência (CIA) norte-americana financiou os Contras, grupos contrarrevolucionários da Nicarágua que lutavam contra o governo sandinista. Entre suas atividades, além da luta armada, estavam o tráfico de drogas para a América do Norte.

Já nos anos 2000, foi a vez de utilizar o combate ao tráfico, com o Plano Colômbia, para se intrometer na soberania alheia e conseguir bases militares importantes no país sul-americano. Agora, o alvo da vez é a Venezuela, com o presidente estadunidense, Donald Trump, acusando Nicolás Maduro de liderar um cartel de drogas.

Navio de assalto nas manobras em Porto Rico.

Caracas denuncia o uso de intimidação nuclear

Em entrevista à Sputnik Brasil, o professor titular de relações internacionais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Williams Gonçalves explica que de fato as drogas são um flagelo social nos Estados Unidos, país que mais consome esses entorpecentes no mundo.

No entanto, Washington tem por costume fazer um combate às drogas porque vê o consumo como uma “simples consequência da produção”. Isso fez com que os norte-americanos combatessem as drogas de maneira autoritária. “E essa ênfase na produção e no tráfico vem sempre dentro de um determinado contexto”, sugere.

É nesse contexto que a gestão Trump traz de volta uma abordagem truculenta que responsabiliza os países da América Latina. Com ela, diz Gonçalves, os EUA visam à retomada do controle político e estratégico da região, sintetizada por um assessor de Trump como “o quintal dos EUA”.

“Então o combate às drogas se torna ilegítimo, em virtude da solução unilateral, autoritária, dentro de um contexto político de interesse exclusivo dos EUA, em detrimento da região.”

Segundo ele, um dos objetivos com a retomada de controle, com força militar, é conter o avanço da China.

“Quando o governo dos EUA, com o Trump, coloca como objetivo reenquadrar a América Latina como seu ‘quintal’, como sua área hegemônica exclusiva, isso significa conter, ou pelo menos esvaziar, a influência que a China hoje exerce em toda a área”, explica.

O especialista aponta não haver “nenhum indício” de que Maduro seja chefe de um cartel de drogas e que a acusação contra o venezuelano não tem fundamento.

“Acusar o presidente da Venezuela de chefe de cartel é uma dessas afirmações irresponsáveis que o Trump vem fazendo para com governos locais e também para com outros governos em outros lugares. Não podemos esquecer o que ele já fez com a Dinamarca, a proposta de anexação da Groenlândia; o que ele já fez até com o Canadá.”

O professor titular de relações internacionais da UFRJ, Williams Gonçalves.

Subjugar a América Latina

Gonçalves afirma que Trump “não aceita uma América Latina que seja independente ou uma América Latina vinculada à Rússia e à China”. Segundo ele, em um sistema internacional multipolar, os EUA consideram que a América Latina, e particularmente o Brasil, deve estar submetida a Washington:

“Não é admissível para os EUA que o maior país e mais rico da América Latina esteja fora de sua área de influência. Agora, como levar essa ideia à prática? Tem que criar uma situação. O grande pretexto é o combate às drogas, que é um problema real, mas é usado como pretexto.”

Joana das Flores Duarte, professora na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e pesquisadora de mercados globais de drogas e do papel estratégico da América do Sul, afirma à reportagem que o argumento usado pelos EUA para enviar tropas em direção à Venezuela é falso, porque o país “não tem nenhum papel estratégico no mercado global de drogas”.

O país não é um grande produtor, como a Colômbia, onde estão mais de 70% da produção global, tampouco é a maior porta de entrada de drogas nos Estados Unidos e na Europa, como é o caso do México para os norte-americanos. “A Venezuela tem um papel de entreposto”, explica.

Nesse contexto, Flores, que integra o Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (Clacso), frisa que a estratégia de Trump está muito mais voltada para uma intervenção via Venezuela, para “fortalecer, de certa forma, esse plano imperialista estadunidense de ocupação de outras regiões”.

Domínio do mercado???

Flores destaca que a guerra às drogas dos EUA também guarda um interesse oculto de dominar um mercado altamente rentável. Ela usa como exemplo o caso da cocaína, que só passou a ser uma substância ilícita nos EUA nos anos 1970, época que a Colômbia assume o protagonismo de produção e exportação na cadeia produtiva global.

Antes desse tempo, a produção de cocaína estava sob domínio estadunidense, na região de Java, na Indonésia. E, quando a Colômbia assume essa produção, inicia-se a política velada imperialista estadunidense, que “oculta o verdadeiro interesse de ocupar a cadeia produtiva das drogas”.

Um barco de supostos traficantes foi explodido na costa da Venezuela.

Panorama geopolítico

Acho interessante incluir, aqui, uma avaliação geopolítica do envio de recursos militares navais dos EUA para o mar do Caribe.

O contexto e a justificativa oficial para a movimentação das tropas: É uma epidemia a crise de drogas nos EUA. O governo norte-americano justifica o envio militar como resposta ao aumento do consumo de drogas nos EUA, especialmente do fentanil (opioide responsável por mais de 70 mil overdoses em 2023) e de outras substâncias como cocaína, cannabis, anfetaminas e ecstasy.

Porém, dirige seu foco para cartéis latino-americanos. A operação visa explicitamente combater grupos como o Cartel de Sinaloa (México), Tren de Aragua (Venezuela) e o Cartel de los Soles (que seria vinculado ao governo venezuelano), designados como “organizações narcoterroristas”.

Os recursos militares envolvidos na operação mobilizam um dispositivo naval significativo, ao incluir três destróieres (USS Gravely, USS Jason Dunham e USS Sampson), equipados com sistema Aegis; um submarino nuclear de ataque (USS Newport News); navios anfíbios (USS Iwo Jima, USS San Antonio e USS Fort Lauderdale); aeronaves de reconhecimento P-8 Poseidon.

Esse potente equipamento é acompanhado de um contingente humano, de 4.000 a 4.500 fuzileiros navais e marinheiros, com previsão de atuação por vários meses.

Mas, essa “luta contra as drogas” tem objetivos geopolíticos. O primeiro deles é fazer pressão sobre a Venezuela, pois a ação direciona-se explicitamente ao regime de Nicolás Maduro. O desembarque militar nas costas da Venezuela é visto como uma manobra de cerco e intimidação.

Fica clara a reafirmação da Doutrina Monroe, pois reforça a visão tradicional dos EUA de ter a América Latina sob sua esfera de influência, buscando conter a presença de potências rivais como Rússia, Irã e China na região.

A operação tem evidente interesse no controle de rotas marítimas e migratórias. Além do combate às drogas, o Pentágono busca garantir o acesso sem restrições ao Canal do Panamá e controlar fluxos migratórios, integrando a política de segurança fronteiriça de Trump.

O presidente venezuelano, Nicolás Maduro.

Reações Regionais e Internacionais

Como resposta da Venezuela: Maduro ordenou a mobilização de 4,5 milhões de milicianos (civis armados) em resposta à “ameaça imperialista”. A chancelaria venezuelana denunciou a violação da “Zona de Paz” da CELAC.

Os alinhamentos até agora incluem países como o Equador que declarou o Cartel de los Soles como grupo terrorista, alinhando-se a Washington, enquanto Cuba criticou a ação como parte de uma “agenda corrupta” do secretário de Estado Marco Rubio. No Brasil, a agressão de Trump enfrenta a rejeição de partidos e movimentos sociais na região (como o PCB no Brasil) repudiam a ação como intervencionista e imperialista, defendendo a autodeterminação dos povos.

O Laranjão é imprevisível e existe o risco de uma escalada. A presença de força naval com capacidade de ataque (incluindo mísseis e submarinos nucleares) aumenta o potencial de conflito armado na região, embora analistas acreditem que uma invasão terrestre seja improvável.

A operação é vista como uma forma de Trump consolidar sua imagem de “linha dura” na segurança nacional; agradar à sua base eleitoral e ao lobby anti-imigração; desviar a atenção de crises econômicas internas nos EUA (como inflação e desemprego).

Reconfiguração de alianças

Os impactos geopolíticos em curto e longo prazo passam por uma reconfiguração de alianças. A crise deve aprofundar a divisão regional entre governos alinhados aos EUA (ex.: Equador, Guiana) e aqueles que rejeitam a intervenção (ex.: Venezuela, Cuba e Bolívia). A Rússia já reforçou os armamentos que mantém na Venezuela e a China está de olho no desenrolar da coisa.

Será que é a estratégia correta a militarização da luta antidrogas? A estratégia de designar cartéis como “terroristas” cria um marco legal para justificar operações militares extraterritoriais, um precedente com implicações globais.

Por outro lado, é real o fortalecimento de discursos antimperialistas: A mobilização popular na Venezuela e a retórica de resistência de Maduro podem ganhar simpatia em setores da região, ainda que seu governo enfrente crises internas.

Podemos, então, concluir que o envio militar dos EUA para o Caribe vai muito além do combate ao narcotráfico. É uma jogada geopolítica multifacetada que busca reafirmar o poder norte-americano na região, pressionar governos adversários (especialmente Venezuela e Cuba) e enviar uma mensagem de força à China e Rússia.

A operação, no entanto, envolve riscos significativos de escalada regional, enfrenta questões sobre sua eficácia prática e foi amplamente rejeitada por movimentos sociais e políticos da América Latina como uma violação da soberania. A situação destaca a persistência das práticas intervencionistas sob a doutrina de “América para os Americanos” e ressalta a complexa interrelação entre segurança, política de drogas e geopolítica no Hemisfério Ocidental.

Maduro diz que aceita negociar, mas sem ‘canhoneio’. Na foto, com o enviado especial dos Estados Unidos, Richard Grenell. Caracas, 31/01/2025 – Sputnik Brasil.

“A Venezuela vai continuar de pé”

O presidente Nicolás Maduro afirmou que, apesar da nova investida do “imperialismo”, a Venezuela permanecerá firme e em paz, mas advertiu que responderão a qualquer tentativa de violar a sua soberania.

“Não haverá império nem traidor da pátria que toque o solo sagrado que nos legaram os libertadores”, declarou, após as ameaças de Trump e o desdobramento militar no Caribe.

Maduro revela por que os EUA querem atacar a Venezuela: “Eles estão vindo pelas reservas naturais, pelas terras férteis”, disse, ressaltando que esses recursos pertencem apenas ao povo venezuelano. O presidente venezuelano ainda apontou o secretário de Estado americano, Marco Rubio, como principal articulador da operação.

Depois do alistamento na Milícia Bolivariana, Maduro reiterou a sua disposição ao diálogo com os EUA, desde que não se imponha a “diplomacia dos canhoneios”.

Fontes: Sputnik, Financial Times, The Guardian e Grupo Neves

2 respostas a “AMEAÇA À VENEZUELA”

  1. Avatar de
    Anônimo

    A JUSTIÇA DIVINA E INFINITA, NA LUZ DO CRIADOR, DISSOLVE, COMO PÓ AO VENTO, TODO O MAL DO PLANETA. A MÃO DE DEUS SEMPRE Dá RESPOSTA.

  2. Avatar de heroic0573c510b4
    heroic0573c510b4

    Trump não perde por esperar uma cacetada do destino!

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