
Caetano e Gil. Foto:Divulgacao gege.com.br
Nossos dois poetas de hoje, Caetano Veloso e Gilberto Gil, tornaram-se sucesso e alcançaram notoriedade até internacional por suas belíssimas canções. Inspiradas na natureza, no amor, na paz e na justiça social, as músicas de ambos embalaram uma época que os mais maduros de nós viveram, com todas as suas nuances de comportamento, filosofia e posicionamento político. É com imenso respeito por eles e pelos meus leitores que trago, hoje, duas poesias de primeiríssima qualidade, que foram completadas com melodias e harmonias encantadoras. Ambos têm uma longa e vitoriosa carreira profissional. Aqui não haveria espaço para enumerar tantas realizações e sucessos. Sempre foram, e ainda são, dedicados em difundir linhas de pensamento profundo, crítico e engajado. Bom proveito!
CAETANO VELOSO
Caetano Emanuel Viana Teles Veloso nasceu em Santo Amaro (BA), em 7 de agosto de 1942. Além de poeta, é cantor, músico, produtor, arranjador e escritor brasileiro. Com uma carreira que ultrapassa cinco décadas, Caetano construiu uma obra musical marcada pela releitura e renovação e considerada amplamente como possuidora de grande valor intelectual e poético.
Embora desde cedo tivesse aprendido a tocar violão, em Salvador escreveu, entre os anos de 1960 e 1962, críticas de cinema para o Diário de Notícias e conheceu o trabalho dos cantores de rádios e dos músicos de bossa nova (notadamente João Gilberto, a quem chamava de seu “mestre supremo”).
Hoje, com 83 anos, Caetano começou a trabalhar apenas em 1965, acompanhando a irmã mais nova, Maria Bethânia, em suas apresentações nacionais e no espetáculo Opinião, no Rio de Janeiro. Na década de 1960, conheceu Gilberto Gil, Gal Costa e Tom Zé, com quem seguiu toda sua carreira.
Em 1967, saiu seu primeiro LP, Domingo, com Gal Costa, e, no ano seguinte, liderou o movimento chamado Tropicalismo, que renovou o cenário musical brasileiro e os modos de se apresentar e criar música no Brasil, através do disco Tropicália ou Panis et Circencis, ao lado de vários músicos.
Em 1968, face ao endurecimento do regime militar no Brasil, compôs o hino “É Proibido Proibir”. Depois veio o disco Transa (1972). Em 1976, uniu-se a Gal Costa, Gilberto Gil e Maria Bethânia para formar o grupo Doces Bárbaros, influenciado pela temática hippie dos anos 1970, lançando um disco e saindo em turnê. Na década de 1980, lançou os discos Outras Palavras, Cores, Nomes, Uns e Velô e, em 1986, participou de um programa de televisão com Chico Buarque.
Na década de 1990, escreveu o livro Verdade Tropical (1997) e o disco Livro (1998). Ganhou o Prêmio Grammy em 2000, na categoria World Music. Com o disco A Foreign Sound, cantou clássicos norte-americanos. Em 2006, lançou o álbum Cê, fruto de sua experimentação com o rock e o underground.
Caetano Veloso é considerado um dos artistas brasileiros mais influentes desde a década de 1960. Em 2004, foi considerado um dos mais respeitados e produtivos músicos latino-americanos do mundo, tendo mais de cinquenta discos lançados e canções em trilhas sonoras de filmes como Hable con Ella, de Pedro Almodóvar e Frida, de Julie Taymor.
Ao longo de sua carreira, também se converteu numa das personalidades mais polêmicas no Brasil. É uma das figuras mais importantes da música popular brasileira e considerado internacionalmente um dos melhores compositores do século XX, com atuação marcante, ao enfrentar a Ditadura Militar. Suas canções foram frequentemente censuradas neste período, e algumas até banidas.

Foto: Divulgação
.
Terra
Quando eu me encontrava preso
Na cela de uma cadeia
Foi que eu vi pela primeira vez
As tais fotografias
Em que apareces inteira
Porém lá não estavas nua
E sim, coberta de nuvens
.
Terra, terra!
Por mais distante
O errante navegante
Quem jamais te esqueceria?
.
Ninguém supõe a morena
Dentro da estrela azulada
Na vertigem do cinema
Mando um abraço pra ti
Pequenina
Como se eu fosse o saudoso poeta
E fosses à Paraíba
.
Terra, terra
Por mais distante
O errante navegante
Quem jamais te esqueceria?
.
Eu estou apaixonado
Por uma menina, terra
Signo de elemento terra
Do mar se diz: Terra à vista
Terra para o pé, firmeza
Terra para a mão, carícia
Outros astros lhe são guia
.
Terra, terra
Por mais distante
O errante navegante
Quem jamais te esqueceria?
.
Eu sou um leão de fogo
Sem ti me consumiria
A mim mesmo eternamente
E de nada valeria
Acontecer de eu ser gente
E gente é outra alegria
Diferente das estrelas
.
Terra, terra
Por mais distante
O errante navegante
Quem jamais te esqueceria?
.
De onde nem tempo, nem espaço
Que a força mande coragem
Pra gente te dar carinho
Durante toda a viagem
Que realizas no nada
Através do qual carregas
O nome da tua carne
.
Terra, terra
Por mais distante
O errante navegante
Quem jamais te esqueceria?
.
Terra, terra
Por mais distante
O errante navegante
Quem jamais te esqueceria?
.
Terra, terra
Por mais distante
O errante navegante
Quem jamais te esqueceria?
.
Nas sacadas dos sobrados
Da velha São Salvador
Há lembranças de donzelas
Do tempo do Imperador
Tudo, tudo na Bahia
Faz a gente querer bem
A Bahia tem um jeito
.
Terra, terra
Por mais distante
O errante navegante
Quem jamais te esqueceria?
Reflexão sobre liberdade e pertencimento em “Terra”
“Terra”, de Caetano Veloso, nasceu do impacto que o artista sentiu ao ver a imagem do planeta fotografada do espaço, enquanto estava preso durante a ditadura militar. Esse contraste entre a imensidão da Terra, descrita como “inteira” e “coberta de nuvens”, e o confinamento da cela, atravessa toda a letra, intensificando tanto o sentimento de isolamento quanto a sensação de pertencimento e conexão com o mundo. A escolha de um único acorde nas estrofes reforça musicalmente a ideia de estagnação, enquanto a melodia ascendente sugere o desejo de liberdade e transcendência.
A letra utiliza metáforas afetivas e geográficas para expressar o amor e o cuidado pelo planeta, como em “Eu estou apaixonado por uma menina, terra” e “Terra para o pé, firmeza / Terra para a mão, carícia”. Essas imagens aproximam a Terra de uma figura feminina, maternal e acolhedora, ao mesmo tempo em que ressaltam sua fragilidade e a necessidade de proteção. O trecho “De onde nem tempo, nem espaço / Que a força mande coragem / Pra gente te dar carinho / Durante toda a viagem” amplia o sentido da música para uma dimensão universal, sugerindo que o cuidado com o planeta é uma missão coletiva e contínua. O uso de “Terra” em protestos ambientais recentes reforça essa leitura, tornando a canção um símbolo de consciência ecológica e resistência social. Ao citar a Bahia e suas lembranças, Caetano ancora sua visão global em raízes pessoais, mostrando que o amor à Terra também se manifesta no apego à terra natal e à própria história, além da busca por liberdade.
—

Foto:Divulgação gilbertogil.com.br.
GILBERTO GIL
Gilberto Passos Gil Moreira nasceu em Salvador, em 26 de junho de 1942. É um cantor, compositor, músico, político e escritor brasileiro. Com uma carreira de mais de seis décadas, é conhecido por sua relevante contribuição na música brasileira e por ser vencedor de prêmios Grammy Awards, Grammy Latino e galardoado pelo governo francês com a Ordem Nacional do Mérito (1997). Em 1999, foi nomeado “Artista pela Paz”, pela UNESCO.
Gil foi também embaixador da ONU para agricultura e alimentação, e ministro da Cultura do Brasil, entre 2003 e 2008, durante partes dos dois primeiros mandatos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Em mais de cinquenta álbuns lançados, o cantor incorpora a gama eclética de suas influências, incluindo rock, gêneros tipicamente brasileiros, música africana, funk, música disco e reggae. Em 2021, foi eleito para a cadeira de número 20 da Academia Brasileira de Letras.
Criado em Ituaçu, aos 3 anos de idade, o menino já manifestava seu desejo de ser músico, fascinado com os sons da banda local, do sanfoneiro Cinézio e dos cantadores e violeiros, mas sempre ouviu muita música pelo rádio.
Aos 18 anos de idade Gilberto Gil formou com amigos o grupo “Os Desafinados”, conjunto instrumental onde ele revezava na sanfona e vibrafone. O grupo se apresentava em festas de aniversário, escolas e sedes de clubes de Salvador. Gil ficou no grupo até 1961. No final dos anos 1950, aos 17 anos, quando a bossa nova estava em ascensão, ele escutou o cantor e violonista baiano João Gilberto e, a partir de então, Gilberto abandonou a sanfona e passou a tocar violão.
Ele começou a escrever poemas, em sua maioria metrificados e influenciados pelos românticos Castro Alves e Gonçalves Dias, e o parnasiano Olavo Bilac, por exemplo. Oficialmente, sua carreira começou em 1962, compondo e tocando jingles. No final do mesmo ano, Gil conheceu Caetano Veloso – que havia conhecido Gil pela TV e o tinha como um ídolo -, apresentado pelo produtor musical Roberto Sant’Ana, e logo depois conheceu as cantoras Maria Bethânia e Gal Costa.
Passou, então, a fazer parcerias com os letristas Capinan e Torquato Neto, além de participar, com Caetano, Gal, Bethânia e Tom Zé, da “Arena canta Bahia”, espetáculo dirigido por Augusto Boal, e encenado no Teatro Oficina. Em 11 de setembro de 2007, foi nomeado Ministro da Cultura do Brasil.
Em 1988, mesmo gravando, fazendo shows e se envolvendo em causas sociais, elegeu-se vereador em Salvador, sua cidade natal, pelo Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB) com exatos 11 111 votos. Em 21 de março de 1990, filia-se ao Partido Verde (PV), como membro da Comissão Nacional Executiva.
.
Se Eu Quiser Falar Com Deus
Se eu quiser falar com Deus
Tenho que ficar a sós
Tenho que apagar a luz
Tenho que calar a voz
.
Tenho que encontrar a paz
Tenho que folgar os nós
Dos sapatos, da gravata
Dos desejos, dos receios
.
Tenho que esquecer a data
Tenho que perder a conta
Tenho que ter mãos vazias
Ter a alma e o corpo nus
.
Se eu quiser falar com Deus
Tenho que aceitar a dor
Tenho que comer o pão
Que o diabo amassou
.
Tenho que virar um cão
Tenho que lamber o chão
Dos palácios, dos castelos
Suntuosos do meu sonho
.
Tenho que me ver tristonho
Tenho que me achar medonho
E apesar de um mal tamanho
Alegrar meu coração
.
Se eu quiser falar com Deus
Tenho que me aventurar
Tenho que subir aos céus
Sem cordas pra segurar.
Busca interior e entrega em “Se Eu Quiser Falar Com Deus”
“Se Eu Quiser Falar Com Deus”, de Gilberto Gil, propõe que a verdadeira conexão com o divino exige um esvaziamento profundo de si mesmo, indo além de rituais ou dogmas religiosos. Gil sugere que, para esse diálogo acontecer, é necessário abandonar tudo o que é superficial e mundano, como mostra nos versos: “Tenho que folgar os nós / Dos sapatos, da gravata / Dos desejos, dos receios”. O próprio Gilberto Gil não segue uma religião específica, mas valoriza uma busca espiritual autêntica e pessoal, refletida na necessidade de “ter a alma e o corpo nus”, símbolo de vulnerabilidade e entrega total.
A letra também aborda o sofrimento e a humildade como etapas inevitáveis desse caminho. Expressões como “comer o pão que o diabo amassou” e “lamber o chão dos palácios, dos castelos suntuosos do meu sonho” representam o enfrentamento das próprias dores, vaidades e ilusões.
No trecho final, “Decidido, pela estrada / Que, ao findar, vai dar em nada / Nada, nada, nada, nada / Do que eu pensava encontrar”, Gil revela que a busca por Deus pode não trazer as respostas ou recompensas esperadas, mas sim um vazio transformador, onde as certezas se dissolvem.
Essa visão introspectiva e despojada, que inclusive fez Roberto Carlos recusar a canção por não se identificar com sua abordagem, transforma “Se Eu Quiser Falar Com Deus” em uma reflexão profunda sobre autoconhecimento e transcendência.
—


Deixe uma resposta