PALESTINA ENTRA NO BRICS E SE GARANTE CONTRA PAZ ‘FAKE’

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LULA CRITICA USO DE FOME COMO ARMA DE GUERRA

Criança segurando uma bandeira palestina durante protesto em apoio aos palestinos, com manifestantes ao fundo.

Menino agita bandeira palestina, enquanto manifestantes marcham durante protesto em apoio aos palestinos. Foto: Sputnik Brasil

Diante das incertezas quanto à efetividade do cessar-fogo em Gaza, analista diz que a entrada da Palestina no BRICS lhe dá amparo que não tem até hoje. A proposta em curso – apresentada pelo Laranjão do Norte – para o fim da guerra de extermínio na Palestina está suscitando dúvidas na comunidade diplomática mundial de que tudo não passe de um ‘jogo de cena’ e que a luta pela instituição de um Estado na região não resulte na paz, tão almejada pelos humanitários de todo o mundo. O presidente Lula, em reunião internacional contra a fome, afirmou que a falta de alimentos para as populações “está sendo utilizada como arma de guerra”. Enquanto isso, o Brasil vem zerando a fome dos brasileiros menos favorecidos.

Em meio às negociações por um cessar-fogo da ofensiva israelense na Faixa de Gaza, a Palestina formalizou o pedido para se tornar membro do BRICS. Para analistas ouvidos pela Sputnik Brasil, esse movimento pode dar à Palestina o amparo de que ela precisa há 77 anos.

“Não vai resolver os problemas da Palestina, mas vai dar muita força para que ela enfrente essa situação assimétrica que ela tem há 77 anos com a força israelense e o poderio militar, econômico e diplomático dos Estados Unidos”, disse Sayid Marcos Tenório, historiador, especialista em relações internacionais e vice-presidente do Instituto Brasil Palestina (Ibraspal).

O pedido de entrada no grupo foi feito pela Autoridade Nacional Palestina (ANP) e confirmado pelo embaixador palestino na Rússia, Abdel Hafiz Nofal, há cerca de duas semanas. Após a solicitação, a China inclusive expressou apoio à entrada da Palestina no BRICS.

O diálogo foi aberto em meio às negociações sobre um cessar-fogo no território. Nesta segunda-feira (13), trocas de prisioneiros ocorreram entre Israel e o Hamas, cumprindo a primeira parte do acordo de paz proposto pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Porém, os ataques do sionismo de Israel ainda acontecem.

A entrada no BRICS, dessa forma, é vista por Marcos Feres – secretário de comunicação da Federação Árabe Palestina do Brasil (Fepal) -, como uma oportunidade de reconstrução para a Palestina: “A Palestina, mesmo ainda não sendo um Estado livre e soberano, tem um projeto de desenvolvimento econômico e social.”

Segundo ele, é uma notícia a ser celebrada pelos palestinos, mas, “neste contexto atual do genocídio, tudo fica muito agridoce”: “O BRICS vai cumprir um papel fundamental e vai ser, sim, um aliado de uma reconstrução e do estabelecimento de um Estado palestino e da sua vitalidade econômica, da sua viabilidade como um projeto nacional, porque não se faz um projeto nacional sozinho”, acrescenta Feres.

Embora haja valor simbólico na adesão da Palestina ao BRICS, Tenório ressalta que vê um enorme valor estratégico na ação. Além de desafiar o “sistema político dominado pelo Ocidente”, a admissão palestina “representaria um contraponto ao G7, dando ao BRICS uma bandeira clara de justiça global e fortalecendo a sua narrativa em defesa dos povos oprimidos”, argumenta.

Outro ponto trazido pelo historiador como positivo é a possibilidade de acesso e financiamento, a partir do Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), o banco do BRICS, “que apoiaria formalmente projetos humanitários, projetos de desenvolvimento local, e seria também um reforço diplomático para a Autoridade Palestina, para o Estado palestino, que busca o seu reconhecimento e a sua criação em parte do seu território histórico, que superaria uma injustiça”, completa.

Menino agita bandeira palestina durante protesto com manifestantes em apoio à Palestina.

Tony Blair. Foto: Biography online

Governo de transição

A proposta de Trump para cessar a ofensiva em Gaza inclui um modelo de governança transitória internacionalmente supervisionado. Esse governo assumiria o controle, enquanto uma série de reformas seriam implementadas para, então, a Autoridade Palestina assumir o comando.

Entre os possíveis nomes defendidos pelos Estados Unidos para liderar o governo provisório, está o ex-primeiro-ministro do Reino Unido Tony Blair. Para Feres, os Estados Unidos, como parceiro histórico e direto de Israel, não têm legitimidade para ser o mediador desse processo de paz:

“Os Estados Unidos são os mandantes e os financiadores desse genocídio. Israel é um pinscher, é um poodle dos Estados Unidos no Oriente Médio. É através de Israel que os Estados Unidos promovem as guerras de extermínio no Oriente Médio, há décadas.”

Já sobre a possibilidade de Tony Blair assumir o comando desse governo interino, Tenório se diz estarrecido, porque o projeto de paz é artificial e mostra um Trump preocupado com seus interesses na Faixa de Gaza. Ou seja, segundo o especialista, a nomeação de Blair demonstra que o presidente americano “quer aquela fatia de terra sagrada para os projetos imobiliários dele, que está querendo impor a Gaza, de preferência sem a participação dos palestinos”.

‘Fome virou arma de guerra’, diz Lula na FAO

O presidente do Brasil, durante abertura do Fórum Mundial da Alimentação, em Roma. Foto: Sputnik BrasilPalácio do Planalto/Ricardo Stuckert

Conforme relatório divulgado neste ano pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO, na sigla em inglês), o número de pessoas que enfrentam insegurança alimentar aguda no mundo saltou de 281 milhões em 2023 para mais de 295 milhões no ano passado.

Em meio ao aumento da fome global, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva abriu, nesta segunda-feira (13), o Fórum Mundial da Alimentação, em Roma, e afirmou que os atuais conflitos armados, somados às “políticas protecionistas de países ricos” que desestruturam a produção agrícola “no mundo em desenvolvimento”, são alguns dos responsáveis pela situação.

“Da tragédia em Gaza à paralisia da Organização Mundial do Comércio [OMC], a fome tornou-se sintoma do abandono das regras e das instituições multilaterais”, destacou.

Durante o discurso, o presidente brasileiro ainda ressaltou que “a fome é inimiga da democracia”, acrescentando que “um país soberano é um país capaz de alimentar seu povo”. Na sequência, Lula lembrou que o mundo seria um lugar pior “sem o multilateralismo”, diante do aprofundamento dos desafios globais.

A fala de Lula reforça as críticas da Organização das Nações Unidas (ONU) à redução drástica do financiamento humanitário no mundo, ao mesmo passo em que crescem os gastos com o setor de defesa.

Laura Ludovico, advogada especialista em direito internacional e diretora de projetos e pesquisa do Fórum para Tecnologia Estratégica dos BRICS, afirma à Sputnik Brasil que Lula tocou em um ponto central das discussões: como a fome também é reflexo do enfraquecimento das instituições multilaterais como a própria ONU.

“Nos últimos seis anos, a geopolítica global entrou em colapso, especialmente nas organizações que deveriam representar o equilíbrio internacional. A influência dos EUA sobre a OMC levou a uma paralisia que vem se arrastando, e esse quadro se agravou com o conflito na Ucrânia, quando o sistema internacional reagiu de forma seletiva, com sanções e isolamento, sem resultados concretos”, resume.

A especialista enfatiza a situação na Faixa de Gaza, que enfrentou por quase dois anos uma intensa guerra promovida por Israel, que dizimou praticamente toda a infraestrutura local. “Lá, a fome não é consequência da negligência, mas foi transformada em arma de guerra, uma estratégia de controle e punição coletiva.”

“Isso evidencia o quanto as instituições internacionais perderam a capacidade de agir frente a crises humanitárias graves”, diz, ao defender que “o multilateralismo só pode se reerguer se voltar à sua essência, agir de forma autônoma, sem se alinhar aos interesses de uma única potência”.

Lula tirou o Brasil, de novo, do Mapa da Fome da ONU.

O Brasil tem autoridade para falar ao mundo porque deixa o Mapa da Fome, após três anos, aponta relatório da ONU. Pela segunda vez na história, o Brasil conseguiu sair do Mapa da Fome, neste ano – agora, menos de 2,5% da população vive sob risco de insegurança alimentar. Para Ludovico, o feito do governo Lula se torna uma das principais vitrines internacionais e reforça também a reconstrução da imagem do país no exterior:

Apesar disso, a especialista enfatiza que o Brasil é um exemplo na conciliação do desenvolvimento agrícola com políticas públicas de inclusão e segurança alimentar. “Essa combinação de avanços econômicos e compromisso social projeta o Brasil como um exemplo internacional de equilíbrio entre crescimento do agronegócio e combate à pobreza, algo que os outros países deveriam seguir.”

Outro ponto citado pela pesquisadora como vitrine nacional é o Plano Brasil Sem Fome, lançado em 2023 pelo governo federal, que também prevê o incentivo a uma produção alimentar mais sustentável, com metas de investimento em sistemas agropecuários de baixa emissão de carbono e menor dependência de insumos externos até 2030.

Homem sentado em escombros de edifícios destruídos, observando enquanto outras pessoas caminham entre os destroços no campo de refugiados de Jabaliya, na Faixa de Gaza.

Homem senta-se sobre escombros enquanto outros passam pelos destroços de edifícios atingidos por ataques aéreos israelenses no campo de refugiados de Jabaliya, no norte da Faixa de Gaza. Foto: Sputnik BrasilAP Photo/Abed Khaled.

O jornal El País vê pessimismo em Gaza

“Ao alcançar metas globais e retomar pautas sociais, ele reposiciona o Brasil como uma liderança responsável e solidária. Ao mesmo tempo, Lula precisa equilibrar esse simbolismo com uma gestão mais pragmática, voltada ao centro político – dialogando com o agronegócio, com o mercado e com pautas fiscais. Ou seja, enquanto o presidente busca estabilidade interna, o líder global tenta recuperar a imagem de um Brasil comprometido com causas humanitárias e com a cooperação entre países em desenvolvimento”, analisa.

Os habitantes de Gaza olham pessimistamente para o futuro e para o plano de Trump: “As coisas voltarão a ser como antes ou até piores” – dizem analistas. Os palestinos da Faixa não têm ilusões nem sobre a possibilidade de uma paz duradoura, nem sobre a prometida reconstrução.

Fidaa al Araj ainda não conseguiu retornar à sua casa no bairro de Al Nasr, na cidade de Gaza, mas já sabe que a casa está danificada por bombardeios israelenses. A estrutura ainda está de pé e esse palestino está planejando como usar folhas de plástico ou móveis quebrados para improvisar.

3 respostas a “PALESTINA ENTRA NO BRICS E SE GARANTE CONTRA PAZ ‘FAKE’”

  1. Avatar de
    Anônimo

    Não sei nem o que falar… DIANTE DE TANTA FALTA DE BONDADE. LULA REALMENTE É UM ILUMINADO. PENA QUE O POVO, NA FEBRE DE UMA COISA CHAMADA RELIGIÃO, ESQUECE DO CRIADOR, DEUS, E FICA NA IGNORÂNCIA DO FANATISMO.

  2. Avatar de
    Anônimo

    Como sofrem!!!

  3. Avatar de
    Anônimo

    Lamentável a situação dos Palestinos…até quando, meu Deus!

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