NESTE DIA, TAGORE E MANUEL BANDEIRA

Dia de Finados, inevitavelmente nos lembramos dos queridos que já se foram e pensamos em como, nós próprios, passaremos “para o outro lado”. Para celebrar, Ângulo e Foco foi em busca de poemas que abordam a morte com lirismo, serenidade e uma visão espiritual ou otimista. São muitos, e de grande qualidade. Eles vêm de autores que tratam o fim da vida como transformação, continuidade ou reencontro. Como Manoel Bandeira que viu a morte como uma visita tranquila, sem medo, quase como um reencontro com algo familiar. Ou Rabindranath Tagore, poeta indiano que é autor dos hinos da Índia e de Bangladesh. Enfim, constatamos que existem poemas sobre a morte com ânimo de esperança e beleza.
Rabindranath Tagore
Rabindranath Tagore escreveu sobre a morte com profunda espiritualidade e otimismo, vendo-a como parte da jornada da alma. Tagore via a morte como uma transição natural, uma entrega à eternidade.
Rabindranath Tagore (1861–1941) foi um poeta, filósofo, músico e artista indiano, nascido em Calcutá. Foi o primeiro autor não europeu a receber o Prêmio Nobel de Literatura, em 1913, pela coletânea Gitanjali. Escreveu em bengali e inglês, abordando temas como espiritualidade, natureza, amor e a condição humana. Tagore também compôs os hinos nacionais da Índia e de Bangladesh.
Fundou a escola experimental Shantiniketan, que mais tarde se tornou a Universidade Visva-Bharati. Sua obra combina tradição oriental com pensamento universalista. Era um defensor da educação integral, da liberdade e da harmonia entre culturas. Até hoje, é reverenciado como um dos maiores nomes da literatura mundial.

Rabindranath Tagore. Imagem: Laxman-Akunuri – DharmaPublication.
“As Coisas Transitórias”
Rabindranath Tagore
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Irmão,
nada é eterno, nada sobrevive.
Recorda isto, e alegra-te.
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A nossa vida
não é só a carga dos anos.
A nossa vereda
não é só o caminho interminável.
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Nenhum poeta tem o dever
de cantar a antiga canção.
A flor murcha e morre;
mas aquele que a leva
não deve chorá-la sempre…
Irmão, recorda isto, e alegra-te.
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Chegará um silêncio absoluto,
e, então, a música será perfeita.
A vida inclinar-se-á ao poente
para afogar-se em sombras doiradas.
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O amor há-de ser chamado do seu jogo
para beber o sofrimento
e subir ao céu das lágrimas …
Irmão, recorda isto, e alegra-te.
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Apanhemos, no ar, as nossas flores,
não no-las arrebate o vento que passa.
Arde-nos o sangue e brilham nossos olhos
roubando beijos que murchariam
se os esquecêssemos.
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É ânsia a nossa vida
e força o nosso desejo,
porque o tempo toca a finados.
Irmão, recorda isto, e alegra-te.
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Não podemos, num momento, abraçar as coisas,
parti-las e atirá-las ao chão.
Passam rápidas as horas,
com os sonhos debaixo do manto.
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A vida, infindável para o trabalho
e para o fastio,
dá-nos apenas um dia para o amor.
Irmão, recorda isto, e alegra-te.
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Sabe-nos bem a beleza
porque a sua dança volúvel
é o ritmo das nossas vidas.
Gostamos da sabedoria
porque não temos sempre de a acabar.
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No eterno tudo está feito e concluído,
mas as flores da ilusão terrena
são eternamente frescas,
por causa da morte.
Irmão, recorda isto, e alegra-te.
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Manuel Bandeira. Imagem: InfoEscola.
Manuel Bandeira
Manuel Bandeira (1886–1968) foi um dos principais poetas brasileiros do século XX. Nascido em Recife, sua obra transita entre o simbolismo, o modernismo e o lirismo cotidiano. Após ser diagnosticado com tuberculose na juventude, passou a refletir profundamente sobre a vida e a morte, temas recorrentes em seus versos.
Publicou obras marcantes como “Estrela da Manhã” e “Lira dos Cinquent’anos”. Participou ativamente da Semana de Arte Moderna de 1922, embora à distância. Seu estilo é conhecido pela simplicidade expressiva, humor sutil e emoção contida. Também foi crítico literário, tradutor e professor. A morte, vista com serenidade e até com leveza, é um dos traços mais comoventes de sua poesia.
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“Consoada” – Manuel Bandeira
“Quando a morte vier
Não há de me encontrar desprevenido.
Estarei pronto, como quem espera um amigo.”
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A Morte Absoluta – Manuel Bandeira
“Morrer tão completamente
Que um dia ao lerem o teu nome num papel
Perguntem: ‘Quem foi?’
Morrer mais completamente ainda,
Sem deixar sequer esse nome.”
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