O QUE ESTÁ POR TRÁS DOS ATAQUES DE TRUMP

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GUILHERME BOULOS DÁ AULA SOBRE SOBERANIA

Guilherme Boulos apresenta uma aula sobre soberania, com uma ilustração de um personagem caricatural e uma expressão facial intensa.

Printscreen do vídeo postado.

O recém-empossado Ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, deputado Guilherme Boulos, publicou, nas redes sociais, um vídeo emblemático. O Ângulo e Foco não resistiu e resolveu transcrevê-lo aqui, para quem tem interesse de saber o que realmente está por trás da sua postura autoritária e do desprezo que o Agente Laranja dedica à parcela do mundo que não se dobra, nem abre mão de sua soberania, quase sempre conquistada a duras penas. Vale a pena a leitura, em texto coloquial. Afinal, ele é um dos nossos.

Guilherme Castro Boulos (São Paulo, 19 de junho de 1982) é um professor, psicanalista, escritor, ativista e político brasileiro, filiado ao Partido Socialismo e Liberdade (PSOL). É deputado federal pelo estado de São Paulo, encontrando-se licenciado. É bacharel em filosofia e mestre em psiquiatria, ambos pela Universidade de São Paulo (USP). Membro da Coordenação Nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST), é reconhecido como uma das principais lideranças da esquerda no Brasil.

Foi candidato a presidente da República, pelo PSOL, nas eleições de 2018. Também concorreu, pelo mesmo partido, ao cargo de prefeito do município de São Paulo nas eleições de 2020 e de 2024.

Transcrição:

Você já parou para pensar por que o Donald Trump está fazendo essa bagunça toda no mundo? Tarifando todos os países, taxando, atacando gente que era aliada dos Estados Unidos? Até onde isso vai? O que que ele quer com isso?

Eu tenho visto muito no noticiário e a resposta mais fácil que as pessoas dão é dizer: “Ah, porque o Trump é fanfarrão, ele é blefador, isso é o jeito dele de fazer política”. Só que essa resposta, além dela ser superficial, ela é perigosa, porque ela faz com que a gente não busque os reais motivos que estão por trás do movimento Donald Trump. Por incrível que pareça, com o seu jeitão de magnata excêntrico, ele tem uma estratégia.

O que o Trump tá tentando fazer, o tarifaço, não só no Brasil, mas pra Europa, pra China, pro mundo todo, é reorganizar o sistema mundial que vem desde lá, década de 1970, um sistema que vigora há 50 anos. E ele tá buscando fazer duas transformações. A primeira transformação é sair do livre comércio como modelo das relações entre os países. protecionismo. Que que é isso? Desde que o neoliberalismo ascendeu nos anos 80, se quebrou as barreiras comerciais, os países passaram a ter intercâmbio com os outros, circulação de pessoas. É o chamado multilateralismo da globalização.

O fim da globalização

Agora, o Trump tá propondo inverter esse movimento, falando: “Não! vai voltar a tarifa agora. É cada país por si mesmo”. É uma mudança do que aconteceu nos últimos 50 anos. Se a gente olhar a história do capitalismo, o capitalismo teve momentos de livre comércio e teve momentos de protecionismo. Eles foram se alternando na história do capitalismo. O Trump tá propondo uma nova alternância.

Agora tem uma segunda transformação que tá em jogo nos movimentos do Trump, que é mudar a maneira como os Estados Unidos exercem sua hegemonia imperialista no mundo. Desde a Primeira Guerra Mundial e, principalmente, desde a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos são a principal potência do mundo, de maneira incontestável. Eles construíram um sistema de governança global com a ONU, depois com a Organização Mundial do Comércio, porque a ideia era criar uma aparência de que todos os países são soberanos e têm uma relação igual: o chamado soft power.

Que é o soft power? É os Estados Unidos exercendo o seu domínio, mas com uma aparência de serem democráticos, quase que impondo aos outros países que atenda aos interesses norte-americanos, mas com sorrisinho. É claro, teve momentos de guerra, de ataques a países, mas o imperialismo norte-americano se deu essencialmente através desse soft power.

Guilherme Boulos, recém-empossado Ministro da Secretaria-Geral da Presidência, durante aula sobre soberania, com parede de tijolos e arte ao fundo.

O Laranjão e a inversão de tudo

Agora, o Trump também tá propondo a inversão disso e falando: “Acabou, agora é imperialismo de dominação, somos nós que mandamos”. É isso mesmo. Essas são as duas grandes transformações que estão em jogo nos movimentos do Trump. Vamos entender direitinho o que que tá por trás do movimento dele.

Por que o Trump tá querendo mudar a lógica da relação comercial entre os países, do livre comércio pro protecionismo? Tem dois objetivos com isso: O primeiro é conter a China. A verdade é a seguinte, gente: A China foi a maior vitoriosa desses 50 anos de livre comércio. Cara, a China cresceu, de 1980 para cá, o que nenhum outro país do mundo cresceu, em nenhum outro momento da história do capitalismo. Pra vocês terem uma ideia, até 1980, o PIB da China era menor que o do Brasil. Hoje, a China é a segunda potência do mundo, caminhando para ser a primeira nos próximos anos.

Por que que os Estados Unidos deixou isso rolar por tanto tempo? Quatro, cinco décadas. Porque naquele momento a China não era uma ameaça para a hegemonia americana. Vê só, a era de livre comércio favoreceu a China porque a China foi capaz de atrair investimentos de indústrias de todo mundo, inclusive e talvez especialmente, dos Estados Unidos.

A Apple passou a produzir o iPhone lá, e outras várias empresas transnacionais com controle norte-americano. Só que a China produzia, ganhava com isso, aumentava sua industrialização, ganhava renda pro país, mas o excedente de capital da China ia pros Estados Unidos, porque o dólar é moeda mundial. A China vendia em dólar e, o que a China acumulava de capital de tudo isso, a maior parte era reinvestido nos Estados Unidos, em títulos da dívida pública.

Então, Estados Unidos investia na China, o dólar voltava pros Estados Unidos, tá tudo certo. Mas, que aconteceu depois da crise de 2008?

Momento de ruptura

Teve uma espécie de uma ruptura nisso. A crise de 2008 criou uma instabilidade no sistema financeiro internacional e a China passou a diversificar o investimento dos seus excedentes de capital. Não mandou mais só para Wall Street, para título da dívida pública dos Estados Unidos.

A China criou a nova rota da seda; é um circuito comercial que investiu em infraestrutura na África, em toda a Ásia, aqui na América Latina e passou a investir nesses países, em portos, aeroportos, ferrovias, rodovias. Fez isso para poder diversificar suas relações comerciais, para fortalecer a sua hegemonia comercial no mundo.

A China é a maior parceira comercial, não só do Brasil, gente, da América do Sul inteira. É a maior parceira comercial da África. Nem se fale da Ásia dos que são vizinhos dela. Os Estados Unidos já ficou: (opa!). Depois, a China fez uma outra coisa, pegou grana, investiu pesado, mais que qualquer outro país, em ciência e tecnologia, em pesquisa, inovação, especialmente na inteligência artificial. Ah, mas por que isso ameaça? Se a gente olhar todas as potências imperialistas que foram hegemônicas no mundo, isso tá ligado ao domínio de uma inovação.

Por que que a Inglaterra virou a grande potência em todo o século XIX? Porque foi lá que se descobriu a máquina vapor e que se criou a grande indústria. Por que os Estados Unidos, depois, assume protagonismo? Porque já na segunda revolução industrial, no fim do século 19, os Estados Unidos já foi chave; e depois, na terceira revolução industrial, a microeletrônica robótica também foi dominada pelos Estados Unidos.

Agora, na quarta revolução industrial, que é a da inteligência artificial, internet das coisas, impressão 3D, circuitos integrados, tudo isso é a China que tá na frente. Os chineses estão com uma inovação tecnológica mais dinâmica que os Estados Unidos, caminhando para ser a primeira potência do mundo e superar os norte-americanos. E isso eles não admitem de jeito nenhum. Então, parar a China é essencial pros Estados Unidos.

Medo de uma nova moeda mundial

Agora, tem um segundo objetivo importante. Se a gente olhar lá o movimento do Maga, de onde surge a extrema direita nos Estados Unidos, nós vamos entender. Depois da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos fizeram o plano Marshall e o dólar virou a moeda mundial. Então isso permitiu aos Estados Unidos acumular déficit na balança comercial.

Vocês já viram o Trump ficar falando dos déficits? Nós temos déficit com não sei quem, com não sei quem… Porque os países foram reforçando sua indústria e vendendo mais pros Estados Unidos do que compram dele. E a moeda mundial para você comprar qualquer coisa de qualquer país do mundo é o dólar. Pra economia norte-americana, como eles emitem o dólar, tava lindo e maravilhoso. E o déficit foi se mantendo. Só que isso tinha um efeito colateral, a desindustrialização dos Estados Unidos.

Se produzir mais barato na China, na Alemanha, no Japão, na América Latina, em qualquer outro lugar, as indústrias dos Estados Unidos vão fechando. E foi isso que aconteceu no famoso Meioeste.

Todo mundo já deve ter ouvido falar de Detroit, que era a grande cidade industrial e virou uma carcaça de indústria. Isso gerou uma legião de milhões de desempregados. Aí o Trump vem e fala: “A culpa é dos imigrantes e da China. Os imigrantes tomaram seus empregos porque aceitam o salário mais barato e a China levou nossas indústrias embora. Desde que o Trump lá atrás fundou esse movimento extrema direita, ele já tinha esse objetivo de reindustrialização dos Estados Unidos.

Imagem em preto e branco de um homem com uma coroa, aparentemente em um momento solene ou dramático.

O “rei” Donald Trump. Foto: postada por ele no X.

Tarifaços a torto-e-a-direito

Ah, mas que que isso tem a ver com as tarifas? Tudo. Porque, vê só, se o Trump vai lá e bota no Brasil 50%, na China quase 200%, na Índia mais não sei quantos por cento, isso quer dizer que os produtos produzidos em todos esses países ficam mais caros nos Estados Unidos e se torna mais barato produzir lá. É uma forma que ele tá fazendo para atrair as grandes corporações, olhar para as indústrias dizer: “Venham produzir aqui nos Estados Unidos para retomar esses empregos”.

O protecionismo tem esses dois objetivos, botar a trava no crescimento da China e reindustrializar os Estados Unidos. Bom, falei para vocês que tinha duas transformações em jogo no movimento do Trump. A primeira é justamente essa, do livre comércio pro protecionismo. Agora a segunda transformação, que é a maneira como os Estados Unidos se coloca no mundo, diante dos outros países. Ser uma potência imperialista e poder agir de dois jeitos. Você pode ser aquele cara, o mandão, eu domino mesmo. Quem vier eu vou pro pau. Ou você pode dominar no sapatinho daquele jeito.

A hegemonia e o soft power

Essa é a diferença entre o imperialismo de hegemonia e o imperialismo de dominação direta. Desde a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos apostou muito no imperialismo de hegemonia, que é o que eles chamam do soft power. Esse soft power tá chegando ao fim. Ele se sustentava quando sua hegemonia não era questionada. Agora, com a China chegando em cima, ele fala: “Tô passando aí”. Ele teve que tirar a máscara do “Acordo internacional eu rasgo”. Toda aquela ordem de governança de instituições globais, OMC, FMI, ONU, Organização Mundial da Saúde, a OTAN, tudo isso ele tá dizendo, ó, joga para lá e batendo no peito. Eu sou os Estados Unidos.

E é isso mesmo, cara. A maior expressão disso foi uma resposta que ele deu para uma jornalista na Casa Branca, perguntado sobre o tarifaço no Brasil, que não tinha justificativa comercial, eles têm superávit com a gente. Ela perguntou: “Por que você fez o tarifaço no Brasil?” Ele nem soube responder. Esse é o imperialismo de dominação. Ele não tá preocupado em justificar. É porque “eu posso, eu quero e pronto”. É esse caminho que tá sendo construído agora, no movimento Donald Trump.

Aí a pessoa pode se perguntar: “Boulos, mas Donald Trump não é eterno? Você tá falando de um movimento de mudança global dos últimos 50 anos pro protecionismo? O Trump vai sair daqui a pouco, tem mais dois anos e tanto de governo, pode perder a eleição parlamentar que é ano que vem e tal.”

Então a questão é que todos os sinais que chegam é que isso não é só uma estratégia do Trump. O Trump é mais espalhafatoso, ele é mais barulhento – como dizia o Dom Corleone no Poderoso Chefão; é aquele inimigo que você vê chegando a média distância. Mas, se vocês olharem o mandato do Biden, já teve medidas nessas mesmas direções. Por exemplo, quem é que declarou guerra econômica com a China? Foi o Biden em 2022, quando ele proibiu a venda de chips, de semicondutores para empresas chinesas para atrasar o desenvolvimento tecnológico chinês. Foi aí que a coisa escalou no governo do Biden. Isso são as fontes diplomáticas que dizem: “Ele já esvaziou o papel da ONU, já esvaziou a OMC, foi fazendo acordos bilaterais”.

A diferença entre Trump e os democratas, nesse caso, não é na estratégia, é na forma de fazer. O Trump faz num ritmo mais intenso, com mais barulho, xingando os outros e tal, e os democratas tentam fazer com mais jeitinho.

Notas de 100 dólares dispostas em uma pilha, mostrando o retrato de Benjamin Franklin.

O fim do domínio do dólar

Mas no fim do dia, a estratégia de ir pro protecionismo para enfrentar a China e a estratégia de ir para imperialismo mais duro parece ser uma política de estado dos Estados Unidos. Gente, a questão é: o que que ameaça tanto os Estados Unidos? E aí é uma palavra: dólar, o fim da hegemonia do dólar. Esse é o grande tema da geopolítica mundial. É hoje o que tá por trás do enfrentamento, dessa guerra fria entre Estados Unidos e China.

Vê só, o dólar, até 1970, quando o presidente era o Richard Nixon, tinha um acordo de Bretton Woods. Esse acordo foi feito logo depois da Segunda Guerra Mundial, dizendo: “Ó, todo o comércio mundial vai ser feito em dólar, mas pros Estados Unidos não poder imprimir dólar à sua vontade, tem que ter uma conversibilidade com ouro.”

Que que quer dizer isso? que uma onça de ouro seria USD$5. Então, para cada USD$5 que o FED – Banco Central do Estado, tinha que ter lá, na sua reserva, uma onça de ouro. Era o lastro da moeda. Quando chega em 1970, os Estados Unidos já estava com déficit. Ficou claro que não tinha o tanto de ouro lá no cofre do FED do que tinha de dólar no mundo. E aí, o que o Nixon pressionado faz? Acabou o acordo de Bretton Woods: “Não tem mais isso não. Eu vou emitir dólar e pronto. Não tem ouro mesmo e já era”. Cara, isso foi uma crise do caramba na época.

O dólar desvalorizou no começo, mas o fato é que o dólar se firmou, mesmo assim, como moeda mundial e os Estados Unidos ganhou um privilégio de poder emitir a moeda do mundo. Isso é o que sustenta hoje a dominação econômica dos Estados Unidos, gente. Que os Estados Unidos, ele não precisa gerar riqueza, ele tem ali o dinheiro. Tanto é que o mundo gera riqueza para eles. Eles só consomem.

Essa hegemonia do dólar é essencial pros Estados Unidos se manter como potência do mundo. Que que aconteceu? Crise de 2008, instabilidade financeira, a China passou a diversificar o investimento dos seus excedentes de capital. Depois, a China fez uma outra coisa, pegou grana e investiu pesado, mais que qualquer outro país, em ciência e tecnologia, em pesquisa, inovação, especialmente na inteligência artificial.

Em 2020, a China anuncia investimento pesado em moeda digital, uma criptomoeda com tecnologia de blockchain. Na sequência, guerra Rússia e Ucrânia, que que os Estados Unidos faz? Congela as reservas internacionais da Rússia. Como é que funciona isso? Pra você entender: O Brasil, por exemplo, tem 200 e tantos bilhões de dólares em reserva internacional. Tá lá. Se os Estados Unidos falar: “Tá congelado, o Brasil perdeu esse dinheiro. Qualquer coisa que você queira comprar, você vai pagar em dólar por um sistema chamado sistema Swift, que é controlado pelos Estados Unidos.

Sanção pra todos os lados

Então, quando os Estados Unidos quer sancionar um país, ele tem a faca e o queijo na mão. Eles já fizeram isso com o Irã e, depois do ataque à Ucrânia, fizeram com a Rússia. Então eles chegaram e disseram pra Rússia: “Vocês não podem mais usar o sistema Swift e sua reserva internacional tá congelada”. Pá, foi para cima. Só que isso teve um efeito colateral.

A Rússia não ia comercializar mais nada com ninguém? não. A Rússia começou a comercializar com a China com moeda digital, a criptomoeda chinesa que já estava sendo desenvolvida. E isso abriu uma rachadura no domínio do dólar e começou a aparecer para as pessoas que é possível ter um comércio de outro jeito. E a China desenvolveu uma plataforma de moeda digital muito mais rápida, eficiente e mais barata que o sistema Swift. E aí? Aí é que o bicho pegou.

Então, pela primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial, a hegemonia do dólar tá ameaçada e pode começar a ter comércio, entre outros países, sem o dólar, por moeda digital. Então pensa a história do tarifaço no Brasil. Quando o Trump anunciou 50%, que que tinha acontecido uma semana antes? Reunião da cúpula dos BRICS, no Rio de Janeiro. E, nessa reunião, um dos pontos importantes da declaração foi desenvolver moedas alternativas ao dólar. O que tá pegando no fim do dia é isso, porque o mundo todo sabe o quanto o domínio dos caras depende do dólar.

Não é querendo ser alarmista, não. Mas isso, no passado, já gerou guerras. A Inglaterra teve que derrotar a França na batalha de Waterloo para se consolidar como a principal potência do século XIX. Nós estamos entrando numa era, ó, perigosa. É uma guerra fria. Estados Unidos e China disputam quem vai ser a maior potência do mundo. O dólar podendo ser destronado por uma moeda digital em que a China dá a garantia da validade dela. E aí, o que que o Brasil tem a ver com isso?

Imagem de Lula recebendo um título de honra na Universidade Nacional da Malásia, vestido com toga acadêmica e segurando o diploma, enquanto é cumprimentado por um oficial da universidade.

O Doutor Lula está atento.

Brasil é ator central

Porque quando a gente ouve a história toda, Nova Guerra Fria, Estados Unidos, China, inteligência artificial, o protecionismo, a gente se percebe, de algum modo, como um coadjuvante, né? E aí é a grande questão que eu quero trazer para vocês. O Brasil, gente, é central na estratégia do Donald Trump. E por que o Brasil é central? Porque os BRICS é, hoje, quem tem dito abertamente que é possível fazer um comércio que não dependa do dólar. E o Brasil é o elo mais fraco dos BRICS.

Das grandes economias fundadoras dos BRICS, a Rússia tem bomba atômica, a China tem bomba atômica, a Índia tem bomba atômica e nós? O Brasil é o mais vulnerável nessa história. O principal motivo pelo qual o Brasil é estratégico pro Trump é porque nós estamos na América Latina, meus caros. E os Estados Unidos desde sempre entenderam a América Latina como seu quintal, a sua zona de influência.

Desde a doutrina Monroe, lá do século XIX, que eles diziam: América para os americanos. Que que eles queriam dizer? Toda a América Latina, o domínio é deles, é o quintal deles. Agora, como tem uma guerra fria com a China, o Trump faz uma espécie de uma nova doutrina Monroe. Isso é expressão desse imperialismo de dominação e da importância que a América Latina tem para eles. Por quê? Porque hoje a China é a principal parceira comercial da América Latina.

Eles estão numa disputa direta para ver quem vai dominar a economia mundial. Ele não pode deixar que a área que eles entendem como quintal deles tenha uma influência chinesa tão grande. Ah, o tarifaço de 50% é por causa do Bolsonaro. O Bolsonaro é o traidor da pátria, útil para o Trump impor os interesses dos Estados Unidos. O que que ele quer? Se afastar da China e estreitar a relação pra América voltar a ser só deles. Da mesma forma que eles fizeram na Guerra Fria com a Rússia, lá atrás, impulsionando um monte de golpes militares.

O golpe de 64, qual era o argumento? Leiam os papéis da CIA. Era que o Jango ia aproximar o Brasil da União Soviética. O golpe contra o Allende, no Chile, qual era o argumento? O bloco socialista e a União Soviética intervir na América Latina e eles não podiam permitir; fizeram golpes na Bolívia, golpes na Argentina, na América Central inteira.

Esse é o jogo. Hoje, não necessariamente, você precisa dar golpe militar. Você tem outros instrumentos para isso. Veja, tem uma coisa assim que é só a gente pensar. Quando você entra numa negociação, se você quer um acordo, você propõe algo possível, certo? pensa, sei lá eu, uma negociação salarial, onde os trabalhadores fazem uma greve, eles querem um acordo, aí você não vai propor o aumento de 200% do salário. Lógico, não vai ter acordo. Quem propõe isso é porque não quer acordo. É o que o Trump tá fazendo.

Quando ele fala: “O que eu quero é que o Lula intervenha no Supremo e o Xandão não sei o quê, pro Bolsonaro ser libertado”, ele sabe que isso é absolutamente impossível. Ele joga algo impossível para apostar na escalada. Ele quer ir asfixiando a margem de manobra do governo brasileiro para tentar eleger alguém o ano que vem.

O mais grave pode vir o ano que vem, influenciando a atuação das bigtechs, das grandes plataformas da Meta, Google, que tem o YouTube, que tem o Facebook, que tem o Instagram, todas elas para poder favorecer o candidato da extrema direita o ano que vem, para derrotar o Lula. Isso não seria novidade. O X do Elon Musk atuou diretamente – tem vários estudos comprovando isso – para eleger o Trump em 2024. É por aí que a coisa vai. O que tá acontecendo é uma articulação da maior potência imperialista do mundo que quer fazer com que o Brasil se ajoelhe.

Lula e Putin posando para a câmera em um ambiente formal, com soldados ao fundo.

Lula com Putin. Imagem: @BrasilEEI.

A luta pela soberania

E aqui vale destacar a firmeza do Lula, virou capa até do New York Times, como o único governante que enfrentou o Trump. O Lula foi firme, o governo reagiu bem, fez um pacote, apoiou os setores afetados. A escolha que nós temos a fazer agora é uma escolha de futuro, do que que a gente quer como nação. Se a gente quer ser puxadinho dos Estados Unidos, “República das Bananas”, ou se a gente quer um país soberano. É uma questão de orgulho nacional, de patriotismo de verdade. É isso que tá em questão agora.

Então, gente, toda essa história traz para nós brasileiros dois desafios. O primeiro, cara, nós estamos muito atrasados na construção de um projeto soberano para poder enfrentar o período histórico de instabilidades. O Brasil precisa se preparar para isso, ter um projeto de desenvolvimento soberano.

Por exemplo, na ciência e tecnologia, nós somos extremamente dependentes da tecnologia, seja norte-americana, seja chinesa. Não há investimento real em ciência e tecnologia. Esse é um foco que tem que ser nosso nesse momento, a gente desenvolver tecnologia própria. Nós temos todas as condições de fazer isso. O Brasil tem grandes universidades. O Brasil hoje exporta cérebros porque não tem um projeto soberano para que as pessoas possam trabalhar aqui. Isso passa por a gente ter um projeto de substituir as importações desse país.

Vamos pensar, se inaugura uma era de protecionismo, redução do comércio entre os países, isso exige uma autossuficiência. Hoje, a gente depende de componentes básicos de produtos que vem de outros países. Nós temos que mapear quais são esses componentes estratégicos para que a gente tenha condições de, aqui, ter um projeto de produção própria e autônoma desses bens, no Brasil. Isso significa soberania digital. Soberania digital vai desde o investimento em ciência e tecnologia, até regulação própria para impor limites.

Freio às bigtechs

Hoje, as bigtechs aqui fazem o que querem e a gente fica à mercê, refém, lutando com as ferramentas que tem na mão. Então, existe esse desafio histórico, e mais no momento em que a principal potência do mundo adota uma estratégia agressiva, de tentar nos sufocar. Esse é um tema.

E aí vem o segundo desafio, uma tática na política brasileira para todos os setores progressistas, todos os setores nacionalistas, populares, de entender o tamanho do ataque que a gente tá sendo alvo. Olha o contexto em volta. Isso deve escalar. Isso exige responsabilidade histórica de todas as forças que não se rendem, não querem se ajoelhar, seja pros Estados Unidos, seja pra China, que sabem a vocação e a potência que o Brasil tem.

Isso exige da gente ter a responsabilidade com a unidade, essa frieza em defesa da soberania nacional. E, lamentavelmente, se a gente olhar a história brasileira, as classes dominantes do Brasil, historicamente, nunca tiveram essa vocação soberana. Muitas vezes se aliaram aos interesses internacionais do capitalismo estrangeiro, em vez de apostar na construção de um projeto nacional.

E muitas vezes podem atuar, como hoje a extrema direita atua, de forma aberta, como lesa-pátria, fazendo acordos com os norte-americanos e ponto final. Por isso somos nós, as forças populares e progressistas, que temos condições de fazer com que o Brasil enfrente, com altivez, a maior ameaça à nossa soberania, na história recente brasileira.

Esse assunto é importante, gente, e reverbera em toda a estratégia política da esquerda, do campo progressista. Nós temos que ter isso em mente pra nossa atuação. Por isso, eu peço a quem assistiu até aqui, que compartilhe esse vídeo, passe adiante, passe para mais gente, para que esse assunto não fique apenas como um debate de geopolítica, de acadêmicos, de diplomatas, mas que possa ser discutido por todo o povo brasileiro.

Vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=RKMkJrHH5GI&pp=ygUGYm91bG9z

Fontes: #guilhermeboulos, Wikipedia

2 responses to “O QUE ESTÁ POR TRÁS DOS ATAQUES DE TRUMP”

  1. Avatar de heroic0573c510b4
    heroic0573c510b4

    Fora Trump!! Não venha não

  2. Avatar de
    Anônimo

    TUDO NAS MÃOS DO CRIADOR.

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