POESIA-DIA INTERNACIONAL ANTIFASCISMO

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MIGUEL LABORDETA E MANUEL ALEGRE

A luta antifascista está presente no Brasil, fazendo frente a golpistas.

Hoje é o Dia Internacional Antifascismo e Antissemitismo. Ainda bem que, no Brasil, não existe antissemitismo – ninguém odeia os israelenses como povo -, mas as sombras do fascismo ainda tentam se espalhar pelo mundo, e também no nosso País Soberano. Então, a luta poética antifascista merece espaço, neste dia, no nosso Ângulo e Foco. Trazemos Miguel Labordeta, das origens dessa luta, na Espanha, e o português Manuel Alegre, um dos bastiões para livrar a Península Ibérica dos governos fascistas, no século passado. Boa leitura e bom proveito pessoal.

Esse Dia foi instituído pelo Parlamento Europeu e marca a Noite de Cristal, ocorrida entre os dias 9 e 10 de novembro de 1938. Nesse episódio, centenas de sinagogas foram incendiadas, cemitérios judaicos profanados, mais de 7.500 lojas destruídas e dezenas de judeus assassinados, com cerca de 30 a 35 mil deportados para campos de concentração.

O ataque foi coordenado, na Alemanha e na Áustria, e tornou-se um marco da perseguição sistemática que culminaria no Holocausto, em que mais de seis milhões de judeus foram mortos.

Esse dia pretende promover a consciência histórica e o combate ao ódio e à intolerância. Tem como objetivos: relembrar os perigos do fascismo e do antissemitismo, que promovem a exclusão, a violência e a negação dos direitos humanos; educar as gerações atuais sobre os horrores do passado pra que não se repitam; combater o racismo, a xenofobia e os discursos de ódio, que continuam e emergir, em diferentes partes do mundo.

O Dia Internacional contra o Fascismo e o Antissemitismo visa a mobilizar a humanidade a lutar contra os crimes de ódio. E a poesia tem sido, ao longo da história, uma fonte de resistência, política e social, dos povos. Para difundi-la, estamos aqui, todos os domingos.

MIGUEL LABORDETA

Miguel Labordeta Subías (16 de julho de 1921 – 1 de agosto de 1969) foi um poeta aragonês. Ele nasceu em Zaragoza, Aragão, Espanha. Doutorou-se em História pela Universidade de Madrid. Seu irmão mais novo era o cantor, escritor e político José Antonio Labordeta. Morreu em 1º de agosto de 1969, de ataque cardíaco, aos 48 anos.

Foi um poeta de raça, antifascista, e boa prova disso é o poema “Um homem de trinta anos pede a palavra”, pertencente ao seu livro Epilírica, onde escreve:

Um homem de trinta anos pede a palavra

Diante da Assembleia dos homens ilustres

sob o sol deste outono dourado 

com passo calmo e nos meus olhos de tigre a justiça 

simplesmente sem alardes com chama apaixonada 

apresento minha denúncia.

.

Venho falar em nome dos que têm trinta anos 

dos que, do alto de sua juventude perdida, 

contemplam os restos do naufrágio humano e da desordem do mundo 

e em nome de suas traições mortas eu vos acuso, escutem bem, a todos.

.

A vós: Velhos que adormecestes no valsa indefinida do progresso idiota 

com um fedor burguês banalizado e falso e comíeis costeletas bem saborosas 

enquanto sob vossos galanteios tolos já uivava a jiboia viscosa 

da luta terrível e da fome pelas ruas em chamas: 

em nome da minha geração eu vos acuso.

.

A vós: homens do entre-guerras 

que pisoteastes impotentes o sorriso de uma criança 

que queria nascer de tanta ruína já 

que esquecestes cedo demais o choro dos soldados 

que dançastes demais sob os postes bêbados das greves 

o charleston e o desemprego 

e que vos regozijava até o espasmo híbrido 

a velocidade, a prostituição, a grande farra social ou totalitária ou ainda parlamentar democracia 

e sei lá quantas coisas mais na meia cabeça do feroz agente de negócios 

sem adivinhar que as cidades ofereceriam alvos tão belos 

tão concretos para que um obus perfeito da supertécnica 

esmagasse aquelas panaceias ilusórias 

numa poça de sangue onde iriam flutuar pisoteadas 

vossas virgens violadas entre cédulas inúteis de Banco 

e que no relógio do homem escasso 

já não restava senão meia hora de vida suficiente 

para fumar um cigarro e jazer baionetado 

pelas imensas planícies entre escombros de tanques: 

em nome da minha geração eu vos acuso.

.

A vós: os poderosos energúmenos, os grandes senhores da culpa 

os que com vossa cobiça mais imensa que o céu de tal hipocrisia 

arrebatastes a melhor pilhagem no rio revolto 

e que não fostes para vossos irmãos 

senão carrascos sombrios com sorriso de lobo 

e uma esteira de ódios acesos deixastes 

para mil anos que viessem e mais: 

em nome da minha geração eu vos acuso.

.

A vós: os universitários sábios da Lua, os artistas leprosos 

que fostes presa 

por covardes nefastos e insípidos 

por permitirdes que o espírito fosse aprisionado como uma raposa vil 

na armadilha dos grandes capitães de papel: 

em nome da minha geração eu vos acuso.

.

A vós: os violetas, os idealistas da morte 

os que mergulhastes o mundo num fragor de horrores 

crendo criar um novo sol com vossa pobre bola de sebo: 

em nome da minha geração eu vos acuso.

.

A vós: os peões anônimos do salário miserável 

que vos abandonastes no torpor brutal 

do vinho barato e da batata cozida 

aos que vos entregastes ao futebol e aos semanários de crimes 

para não pensar 

aos estudantes irresponsáveis que gritavam feridos sem saber por quê 

aos pacifistas raquíticos que fechavam seus anos diante da zombaria 

aos estômagos espirituais que tanto nos falaram do inferno 

aos profetas de grandes paraísos de sucata 

às mulheres sem vergonha que não queriam parir homens 

aos indiferentes que apenas sonharam com seus bolsos miseráveis 

aos que com a flor na lapela jogaram o ensaio 

aos complexos sexuais, à pederastia 

à morfinomania, à aventura política de cacetadas e empurra-empurra 

perdidos, putrefatos, podres de civilização, de nojo e de cinema barato 

estivestes malditos, estareis corrompidos pelos séculos dos séculos 

fostes rebanho propício 

quando chegou o grande banquete dos ultimatos 

o mesmo que seríeis se tal momento chegasse de novo 

como parece estar chegando: 

em nome da minha geração eu vos acuso.

.

Mas fomos aprendendo vossa lição passo a passo: 

quando tínhamos quinze anos ela se formou em noites de terror e de assombro inaudito 

entendendo que ser homem era estar disposto a tirar da cama seu irmão 

e assassiná-lo covardemente à beira de um caminho 

quando tínhamos vinte anos soubemos que tudo era lícito 

até destruir milhões de inocentes pela fome e pelo fogo 

quando tínhamos vinte e cinco anos conhecemos também 

que o perdão é inútil e os sonhos mais nobres 

se perdem no tempo como um sopro de fumaça 

e agora com nossos trinta anos compreendemos tantas coisas… 

tantas coisas que nos doem profundamente aqui dentro 

e que se tivéssemos que confessá-las morreríamos 

de vergonha e de raiva.

.

Ah! e de novo as bombas espreitam nossas pobres carnes amadurecidas 

para nos sacrificar junto a nossos irmãos mais jovens 

a quem damos a mão na escuridão que golpeia as persianas 

dos que estão de pé com estatura de despertos.

.

Por tudo eu protesto. Eu vos denuncio. Eu vos acuso. 

Pegarei minha mochila com minha cara de padre 

se me deixarem com vida 

e fugirei às colinas sagradas junto ao mar imensamente novo 

para ler meus poetas chineses preferidos 

e que o mundo trema por vossos pecados e se arrase 

amanhã pela manhã.

—

MANUEL ALEGRE

Manuel Alegre de Melo Duarte nasceu a 12 de Maio de 1936 em Águeda. Estudou Direito na Universidade de Coimbra, onde foi um ativo dirigente estudantil. Apoiou a candidatura do General Humberto Delgado. Foi fundador do CITAC – Centro de Iniciação Teatral da Academia de Coimbra, membro do TEUC – Teatro de Estudantes da Universidade de Coimbra, campeão nacional de natação e atleta internacional da Associação Académica de Coimbra. Dirigiu o jornal A Briosa, foi redator da revista Vértice e colaborador de Via Latina.

A sua tomada de posição sobre a ditadura e a guerra colonial levam o regime de Salazar a chamá-lo para o serviço militar em 1961, sendo colocado nos Açores, onde tenta uma ocupação da ilha de S. Miguel, com Melo Antunes. Em 1962 é mobilizado para Angola, onde dirige uma tentativa pioneira de revolta militar. É preso pela PIDE em Luanda, em 1963, durante 6 meses. Na cadeia conhece escritores angolanos como Luandino Vieira, António Jacinto e António Cardoso. Colocado com residência fixa em Coimbra, acaba por passar à clandestinidade e sair para o exílio em 1964.

Passa dez anos exilado em Argel, onde é dirigente da Frente Patriótica de Libertação Nacional. Aos microfones da emissora A Voz da Liberdade, a sua voz converte-se num símbolo de resistência e liberdade. Entretanto, os seus dois primeiros livros, Praça da Canção (1965) e O Canto e as Armas (1967) são apreendidos pela censura, mas passam de mão em mão em cópias clandestinas, manuscritas ou datilografadas.

Trova ao Vento que Passa

Pergunto ao vento que passa

notícias do meu país

e o vento cala a desgraça

o vento nada me diz.

.

 Pergunto aos rios que levam

tanto sonho à flor das águas

e os rios não me sossegam

levam sonhos deixam mágoas.

.

Levam sonhos deixam mágoas

ai rios do meu país

minha pátria à flor das águas

para onde vais? Ninguém diz.

.

Se o verde trevo desfolhas

pede notícias e diz

ao trevo de quatro folhas

que morro por meu país.

.

Pergunto à gente que passa

por que vai de olhos no chão.

Silêncio – é tudo o que tem

quem vive na servidão.

.

E a noite cresce por dentro

dos homens do meu país.

Peço notícias ao vento

e o vento nada me diz.

.

Quatro folhas tem o trevo

liberdade quatro sílabas.

Não sabem ler é verdade

aqueles pra quem eu escrevo.

.

Mas há sempre uma candeia

dentro da própria desgraça

há sempre alguém que semeia

canções no vento que passa.

.

Mesmo na noite mais triste

em tempo de servidão

há sempre alguém que resiste

há sempre alguém que diz não.

.

Manuel Alegre, Praça da Canção, 1965

—

Fontes: elbatiscaforojo.blogspot.com, filosofia e psicanálise, rebelion.org

2 respostas a “POESIA-DIA INTERNACIONAL ANTIFASCISMO”

  1. Avatar de heroic0573c510b4
    heroic0573c510b4

    FASCISTAS NÃO PASSARÃO

  2. Avatar de
    Anônimo

    QUE O FACISMO SEJA DISSOLVIDO COMO PÓ AO VENTO ,NO GRANDE OLHAR DA JUSTIÇA DIVINA NA LUZ DO CRIADOR, JÁ E SEMPRE.

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