

Os povos da floresta marcaram presença na Cúpula. Foto: Tania Rego/AgBrasil.
A Cúpula dos Povos, evento da sociedade civil que ocorre paralelamente à COP30, em Belém, se consolidou como um palco para a defesa de pautas históricas e ambientais. Um dos pontos centrais foi a plenária por Justiça e Reparação, realizada na tarde desta quarta-feira (14), que buscou avançar na justiça de transição no país. Militantes de direitos humanos, indígenas e camponeses se reuniram no auditório do Instituto de Ciências Sociais Aplicadas da UFPA para debater estratégias de responsabilização de empresas que colaboraram com a ditadura militar na repressão a opositores. Quatorze empresas estão sob investigação judicial por seu envolvimento no período ditatorial, incluindo nomes como Aracruz, Belgo-Mineira, Cobrasma, CSN, Embraer, Fiat, Folha de São Paulo, Itaipu Binacional, Petrobras e Volkswagen, sendo esta última já condenada.
Os debates também focaram na reparação a povos indígenas e camponeses, severamente impactados pelo regime. O relatório da Comissão Nacional da Verdade aponta que cerca de nove mil indígenas foram atingidos pela simbiose entre empresas e ditadura, enquanto 2.200 camponeses foram assassinados, conforme dados de Sebastião Neto (IIEP) e Gilney Viana (Comissão Camponesa da Verdade).
O objetivo da plenária é fortalecer a luta por memória, verdade, justiça e reparação, evidenciando a violência praticada por essas corporações. Mães de vítimas da violência policial no Pará também participaram do encontro, organizado pelo IIEP, Associação de Ativistas por Reparação e Fórum da Amazônia por Reparação e Justiça.
A Cúpula dos Povos teve sua abertura oficial na quarta-feira (12), com discursos que criticaram a pouca participação popular na COP30 e defenderam a Palestina. Organizações e movimentos sociais apontam omissão de países e soluções ineficientes, colocando em risco a meta de 1,5°C do Acordo de Paris. O evento, que reúne cerca de 1,3 mil movimentos sociais, redes e organizações populares de todo o mundo, se estende até 16 de novembro, na Universidade Federal do Pará.
Ayala Ferreira, do MST e integrante da comissão organizadora, destacou que a Cúpula foi concebida como um dos maiores levantes da classe trabalhadora, mobilizando representações de diversas nacionalidades. Com expectativa de mais de 30 mil participantes, o evento é uma resposta concreta à inércia e falta de compromisso da COP, que, em sua trigésima edição, tem mostrado poucos resultados práticos e marginalizado as populações.
A abertura foi marcada por um desfile com bandeiras em defesa das águas, contra a exploração mineradora e os combustíveis fósseis, além de manifestações de apoio à Palestina, com gritos de “Palestina livre”. A programação inclui debates sobre territórios, soberania alimentar, reparação histórica, racismo ambiental, transição energética justa, enfrentamento ao extrativismo fóssil, governança participativa, democracia e internacionalismo dos povos, cidades justas e periferias vivas, e feminismo popular e resistências das mulheres.

Cúpula dos Povos – Foto: Tania Rego/Agencia Brasil.
Bandeiras de movimentos ribeirinhos, sem-terra, quilombolas, de quebradeiras de coco, atingidos por barragens, de pessoas com deficiência e mulheres percorreram os espaços da universidade mostrando a diversidade de participações. Bandeiras palestinas também tremulavam por todos os cantos, ecoando gritos de “Palestina livre”: “Da Palestina até a Amazônia, os crimes contra a humanidade continuam e a resistência das pessoas continuam. Na Palestina, o genocídio já completou dois anos e ainda não cessou, mesmo com o acordo [firmado entre Israel e Hamas há dois meses], os crimes de Israel continuam a acontecer”, discursou o ativista palestino Jamal Juma.
Os organizadores buscam “fortalecer a construção popular e convergir pautas de unidade das agendas: socioambiental, antipatriarcal, anticapitalista, anticolonialista, antirracista e de direitos, respeitando suas diversidades e especificidades, unidos por um futuro de bem-viver”, conforme manifesto da Cúpula. Ivan González, da Confederação Sindical dos Trabalhadores e Trabalhadoras das Américas (CSA-TUCA), ressaltou o esforço das organizações em participar e influenciar as decisões da COP, apesar das dificuldades financeiras:
“Estamos aqui porque queremos demonstrar que o povo defende nosso planeta, especialmente contra este capitalismo que se alimenta de corpos, trabalho e natureza”, afirmou González, solidarizando-se com lutas em Burkina Faso, Congo, Nepal, Palestina e na América Latina e Caribe.
Um dos pontos centrais da Cúpula é a constatação de que as soluções apresentadas pelos países para a crise climática são ineficientes, aprofundando desigualdades e injustiças ambientais, especialmente em territórios vulneráveis. O Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) destacou o desenvolvimento de “tecnologias solidárias”, como as cozinhas solidárias, criadas durante a pandemia de Covid-19 e que se mostraram essenciais em eventos climáticos extremos, como no Rio Grande do Sul:
“É a partir desse processo de construção de tecnologias populares a partir dos territórios que a gente acredita que vai sair a resposta para o enfrentamento da crise climática”, defendeu um integrante do MTST.
Além dos debates, a Cúpula oferece uma vasta programação cultural, incluindo a Feira dos Povos, a Casa das Sabedorias Ancestrais e apresentações de artistas e grupos populares da Amazônia e de outras regiões do Brasil, com atividades diárias no Campus do Guamá da UFPA.

Indígenas e ribeirinhos chegaram a Belém em barcos ocupados para protestar. Printscreen.
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Fonte: Agência Brasil


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