CIDADES PERDIDAS LOCALIZADAS GERAM TURISMO


Mapa de Marsmanda, obtido pelo equipamento LIDAR. Imagem: J. Berner/M. Frachetti – SAIE lab.
Uma cidade que pode ter sido importante escala dos viajantes na Rota da Seda, por volta do século 10, foi recém-descoberta, segundo informa matéria do jornalista Armando Batista, do canal português ZAPaeiou. A histórica trilha comercial – que hoje está sendo revivida no projeto da Nova Rota da Seda, da China – entra, agora, na agenda de viagens turísticas, como aconteceu, por exemplo, no Egito. Visitar cidades milenares sempre foi um dos melhores passeios do mundo e um dos mercados que mais se amplia, após as sucessivas descobertas, registradas nos últimos anos. Vamos conhecer algumas e, assim, variarmos um pouco os temas do Ângulo e Foco, daqueles que focalizam geopolítica, como as artimanhas do Laranjão, ou a nojenta política interna, onde o Laranja Marmota faz sua ‘lição de casa’.
Arqueólogos podem ter localizado a lendária Cidade de Ferro da Rota da Seda. Uma cidade sofisticada – com muralhas monumentais, torres defensivas, ruas alinhadas e zonas residenciais bem definidas – emergiu nas montanhas do Uzbequistão, ao longo de uma antiga via da Rota da Seda. Os arqueólogos acreditam que o assentamento pode ser Marsmanda, a metrópole produtora de ferro, citada por fontes árabes do século 10, e cuja localização permanecia um enigma.
Uma equipe internacional afirma ter identificado, no remoto maciço montanhoso uzbeque, vestígios da enigmática Marsmanda, um centro metalúrgico descrito por cronistas árabes há mais de mil anos. A possível cidade perdida foi identificada em Tugunbulak, cerca de 2.100 metros acima do nível do mar, num vale isolado onde, hoje, apenas pastores e alguns agricultores passam os meses de verão.
A descoberta, realizada com tecnologia LiDAR, embarcada em drones, foi apresentada recentemente em artigo publicado na revista Nature. O projeto, liderado por Michael Frachetti (Universidade de Washington), Farhod Maksudov (Centro Nacional de Arqueologia do Uzbequistão) e Sanjyot Mehendale (Universidade da Califórnia), reúne três anos de investigação e começa a revelar estruturas e artefatos que apontam para uma cidade fortificada com 120 hectares – o dobro da área de Pompeia, cidade italiana situada aos pés do vulcão Vesúvio e que foi arrasada numa erupção.
Segundo a Smithsonian Magazine, foram identificados elementos impressionantes: muralhas robustas, torres defensivas, ruas que seguem padrões regulares e bairros residenciais – características inesperadas para um ambiente tão severo, onde a neve cobre o solo durante grande parte do ano.
Os pesquisadores chegaram à região em busca de vestígios da Idade do Bronze, mas encontraram milhares de fragmentos de cerâmica, datados entre os séculos VIII e XI, período de intenso movimento na Rota da Seda.
Escavações posteriores revelaram um pequeno palácio fortificado, onde elites locais utilizavam cerâmicas vidradas, contas de vidro e anéis de prata. Ao redor, puderam ver uma zona urbana densa, com casas robustas, oficinas metalúrgicas e indícios de produção têxtil.
O conjunto reforça a hipótese de que Tugunbulak abrigou um complexo industrial dedicado à extração, fundição e transformação de ferro. Grandes blocos de minério com nódulos metálicos visíveis, restos de fornos e ferramentas especializadas sugerem que mineiros, ferreiros e artesãos convergiam para o local para produzir armas, utensílios agrícolas, ferragens e objetos essenciais às sociedades da Ásia Central medieval.
Esses produtos circulavam por uma vasta rede que ligava o Mediterrâneo à Sibéria, ao Sri Lanka e à Manchúria – a célebre Rota da Seda -, reforçando o papel estratégico das montanhas no comércio intercontinental.

Imagem do que teria sido Marsmanda, no século 10. Gerada por I.A.
Importante escala na Rota da Seda
A estrutura urbana que apareceu na imagem indica que as populações montanhosas eram parte fundamental da rede comercial que uniu Oriente e Ocidente por séculos. Esses indícios fazem os autores do estudo acreditar que o assentamento possa ser a misteriosa Marsmanda, conhecida como “Cidade de Ferro”, mencionada por fontes árabes do século 10, mas nunca antes localizada.
A revelação surpreendeu especialistas como Søren Michael Sindbæk, da Universidade de Aarhus, na Dinamarca. “Encontrar um povoado do tamanho de uma cidade nesta paisagem montanhosa é uma surpresa total”, disse o investigador à Smithsonian. Sindbæk não participou do estudo.
Os autores sugerem que pastores da Idade do Bronze, na Ásia Central, subiam aos prados de altitude durante o verão, onde encontravam nômades de vales vizinhos. Ali, selavam alianças, combinavam casamentos e trocavam alimentos – como trigo e milho-miúdo -, além de produtos como peles e metal, antes de regressarem às zonas mais baixas, no fim da estação.
Com o tempo, essas rotas locais criaram cadeias de circulação que se conectaram através da Eurásia. Dessa forma, os antigos pastores teriam lançado as bases do sistema comercial que mais tarde se consolidaria como a Rota da Seda.
Cinco cidades perdidas descobertas
Ao longo dos séculos, inúmeras cidades resistiram ao tempo e permanecem de pé – como Atenas ou Roma -, sustentadas por vastos registros arqueológicos. Mas há metrópoles antigas que simplesmente desapareceram, apesar de sua relevância histórica. Seria como imaginar São Paulo sumindo de um dia para o outro, sem deixar pistas concretas para estudo.
Lendas e relatos preservaram essas cidades no imaginário coletivo, embora durante muito tempo fosse difícil distinguir fatos de mitos. Nos últimos anos, porém, arqueólogos começaram a localizar vestígios desses centros desaparecidos, oferecendo novas pistas sobre sua organização e sobre o cotidiano de seus habitantes. A seguir, cinco exemplos impressionantes dessas redescobertas:

Ruínas de de San el-Hagar, no Egito. Foto: Wikimedia Commons
1. Tânis, Egito
No fim do século XIX, a pequena vila de San el-Hagar, no noroeste do Cairo, reunia pouco mais de 1.800 moradores. Ali, surgiram as primeiras ruínas de uma antiga capital do Egito Antigo, soterrada nas areias do deserto. Durante a 21ª dinastia, Tânis prosperou como um importante centro comercial. A cidade, porém, declinou quando o curso do Rio Nilo mudou, forçando a população a migrar e deixando a região sujeita ao avanço das dunas.
Escavações revelaram tumbas reais ricamente decoradas, comparáveis às de Tutancâmon, com máscaras de ouro, joias e diversos tesouros. As descobertas mais emblemáticas ocorreram em 1939, pouco antes da Segunda Guerra Mundial, e novas continuam a ser encontradas até hoje. Em 2009, pesquisadores identificaram um lago dedicado à deusa Mut, e imagens de satélite apontam para estruturas ainda não exploradas.
2. Vale do Indo
Contemporânea ao Egito Antigo, a civilização do Vale do Indo foi ainda maior e mais influente. Entre 2.500 a.C. e 1.700 a.C., grandes cidades com até 50 mil habitantes floresceram no território que hoje corresponde ao Paquistão. Harappa e Mohenjo-Daro destacavam-se pelo planejamento urbano, pela vida comercial ativa e pela produção artesanal refinada. Sua escrita ainda é objeto de decifração e até unidades de medida padronizadas eram utilizadas.
Mesmo assim, toda essa civilização desapareceu sem deixar registros claros por séculos. Nas últimas décadas, arqueólogos começaram a remontar sua história: sabe-se agora que Mohenjo-Daro foi destruída por volta de 1900 a.C. durante uma invasão, e que mudanças climáticas obrigaram parte da população a migrar para regiões montanhosas.

Descobertas de Harappa e Mohenjo-Daro, no Vale do Indo. Foto: Wikimedia Commons.
3. Helike, Grécia
Durante muito tempo, a Ilíada, de Homero, foi um dos poucos indícios da existência de Helike. Segundo a tradição grega, a cidade-estado foi devastada por uma catástrofe natural que matou todos os habitantes e submergiu suas construções. Diversos exploradores, entre eles Jacques Yves Cousteau, procuraram pelas ruínas no Golfo de Corinto.
A localização só foi confirmada em 2001, quando arqueólogos investigaram o delta dos rios que desaguam naquele golfo. Ali, encontraram moedas, cerâmicas e uma série de artefatos que comprovaram a existência da cidade perdida. As escavações permanecem em andamento.
4. Roanoke, Estados Unidos
Foto: Wikimedia Commons
A colonização europeia das Américas começou com os espanhóis, mas, no fim do século XVI, os ingleses também estabeleceram seus primeiros assentamentos na costa do atual território dos Estados Unidos. Após um período na ilha de Roanoke, o inglês John White retornou ao Reino Unido em busca de suprimentos, deixando para trás sua família e mais 115 colonos.
Quando voltou, em 1598, não encontrou ninguém. Apenas árvores marcadas com a palavra “Croatoan” – nome de uma tribo indígena local -, mas sem sinais de confronto. Somente em 2012 arqueólogos identificaram artefatos ingleses na ilha que então pertencia aos Croatoan. A principal hipótese é que os colonos tenham se deslocado até lá em busca de abrigo e se integrado aos nativos. As pesquisas continuam.

Finalmente, aparecem provas da cidade de El Dorado, na Amazônia. Foto: Wikimedia Commons
5. El Dorado, América do Sul
A mais famosa das cidades perdidas tornou-se um mito global. Descrita como uma metrópole inteiramente construída em ouro – onde o rei era coroado coberto pelo metal e, depois, as pedras preciosas eram lançadas num lago -, a lenda de El Dorado inflamou a imaginação europeia, desde 1500, impulsionando expedições pela Amazônia.
Apesar de séculos de buscas, nada foi encontrado e, no século 18, El Dorado já era tratada como ficção. Contudo, descobertas recentes sugerem que parte das histórias pode ter base real: objetos de ouro foram recuperados nas proximidades do lago Guatavita, na região de Bogotá. Pesquisadores ainda tentam localizar mais evidências.
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Fontes: National Geographic, Smithsonian Magazine
Imagens: Wikimedia Commons e I.A.


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