“COMUNICAÇÃO PARA INTEGRAÇÃO” DA A. LATINA


Plenária do Seminário. Foto: Arquivo Barão de Itararé.
A Bahia não poderia ficar de fora, pois criou um dos movimentos pioneiros de formação em Comunicação para a juventude, o projeto Jovens Comunicadores. Mereceu elogios do fundador da rede Brasil247, Leonardo Artuch (assista vídeo). Um dos principais encontros do ano sobre comunicação e integração regional na América Latina reune debatedores de mais de 10 países, nos dias 28 e 29 de novembro, em Salvador/BA. Promovido pelo Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé, o 2º Seminário Internacional de Comunicação para a Integração chega à sua segunda edição, aprofundando os debates e fortalecendo a articulação entre comunicadores, movimentos e mídias independentes do continente. Realizado no Ginásio dos Bancários (Ladeira dos Aflitos), o evento conta com apoio do NIC.br, por meio do CGI.br, e do Sindicato dos Bancários da Bahia.
Ao longo de dois dias, o Seminário está reunindo experiências, oficinas e mesas de alto nível, com representantes de Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, China, Colômbia, Estados Unidos, México, Uruguai, Venezuela e outros países convidados.
Depois da edição inaugural histórica, em 2024, em São Paulo, o encontro deste ano aprofunda discussões sobre os desafios contemporâneos da comunicação na região, incluindo: enfrentamento ao poder das Big Techs e seus algoritmos; estratégias contra desinformação e discursos de ódio; comunicação comunitária, popular e independente; juventude e mobilização digital; e construção de soberania comunicacional na integração latino-americana.
O Centro de Estudos da Mídia Alternativa irá se somar a outras entidades e movimentos sociais que lutam pela democratização da comunicação, visando conquistar maior pluralidade e diversidade informativa e cultural no país. O eixo central desse trabalho é:
Contribuir na ampliação da militância na luta pela democratização da comunicação. Na fase recente, em especial no processo da 1ª Conferência Nacional de Comunicação – Confecom, muitas entidades, movimentos e ativistas se engajaram nesta frente estratégica da batalha de ideias.
O objetivo é dar maior organicidade e dinamismo a este movimento, lutando pela aplicação das resoluções da conferência, para tornar periódico este fórum democrático de consulta à sociedade e para avançar na regulamentação do setor e na adoção de políticas públicas visando a democratização dos meios de comunicação.
Pretende, também, fortalecer os fóruns existentes e incentivar novos espaços de atuação. O Brasil conta hoje com inúmeras entidades e movimentos que priorizam esta frente – desde o Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC), o mais antigo, até o Fórum de Mídia Livre, criado em 2008. No processo da Confecom, também foram formadas comissões estaduais pró-conferência, que ampliaram a participação da sociedade neste movimento. Há ainda novos espaços, como o dos blogueiros e o dos empresários progressistas do setor (Altercom). O “Barão de Itararé” atuará em parceria com estas entidades, visando fortalecer a atuação e organização unitárias.
Construindo o amanhã
Neste sentido, busca reforçar as mídias alternativas, comunitárias e públicas. A luta pela democratização do setor se dá, também, com o fortalecimento dos veículos não comerciais. Atualmente, existem cerca de 3.800 rádios comunitárias e 83 TVs comunitárias. O sistema público também ganhou alento com a criação da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), que revigora as emissoras de rádio e televisão educativas e culturais nos estados. Com o crescimento da Internet, surgiram centenas de sítios e blogs progressistas. O “Barão de Itararé” manterá relação estreita e solidária com estes veículos, visando seu florescimento e fortalecimento.
Outra vertente importante é investir na formação dos novos comunicadores. A comunicação alternativa conta hoje com milhares de ativistas, seja na luta pela democratização do setor, na construção dos instrumentos alternativos e nas próprias redações da mídia privada. A formação destes comunicadores é uma das prioridades do “Barão de Itararé”, que investirá na juventude, ainda nas faculdades, e nos ativistas sociais que constroem as rádios e televisões comunitárias, a imprensa sindical e juvenil, os blogs e sítios progressistas. O objetivo é promover o intercâmbio de experiências e reforçar a formação crítica destes comunicadores.
Uma das metas é aprofundar os estudos sobre o papel da mídia na atualidade. Há um acelerado processo de mutação na mídia internacional e brasileira. Por um lado, ele reforça a concentração deste setor, resultando em maior poder de manipulação. Por outro, ele abre brechas para criação de espaços alternativos. O “Barão de Itararé” pretende, em parceria com a academia e outros institutos de pesquisa, promover estudos sobre esta nova realidade da comunicação.

Apresentação de Patrícia Villegas, presidente da teleSUR. Foto: Manoel Porto
Como está sendo esta edição
A 2° edição do Seminário Internacional de Comunicação para a Integração para promover a paz e soberania no Sul Global, que acontece desde sexta-feira (28), ocorre no Ginásio dos Bancários da Bahia, em Salvador, e teve como tema de abertura “Comunicação para impulsionar a integração, a soberania e a paz na região”. Felipe Bianchi, jornalista do Barão de Itararé, organização promotora do evento, abriu a programação defendendo a soberania e integração latino-americana contra o poder do capital e das Big Techs. Ressaltou também a comunicação como campo central de disputa, destacando, inclusive, a importância da cooperação entre as mídias independentes.
Em seguida, Adelmo Andrade, diretor de comunicação do Sindicato dos Bancários da Bahia, parceiro do evento, enfatizou o desafio da entidade sindical, reforçando a importância dos sindicatos na defesa do trabalhador. O diretor também aproveitou a oportunidade para parabenizar o jornal diário O Bancário, que nesta segunda-feira (01/12), completa 36 anos ininterruptos.
Para finalizar a cerimônia de abertura, Renata Mielli, coordenadora do CGI.br (Comitê Gestor da Internet no Brasil), reforçou falas anteriores e citou o controle das grandes empresas na circulação de informações, que promovem desinformação e influenciam processos políticos.
Comunicação e cooperação no Sul Global
“Comunicação e cooperação no Sul Global” foi o tema do primeiro debate. A mesa de discussão foi composta por Patrícia Villegas, presidente da teleSUR; Isabela Shi Xiaomiao, jornalista da CGTN Português; Bruno Lima Rocha, jornalista da Hispan TV; Leonardo Attuch, fundador do Brasil 247 e Michele de Mello, jornalista da RT en Español.
Patrícia Villegas abriu a mesa e trouxe à conversa a situação venezuelana e afirmou que se trata também de uma “guerra comunicacional construída para distorcer a imagem de seus líderes”. Segundo ela, as narrativas divulgadas pelos meios ocidentais são distorcidas e moldadas de forma que influenciam diretamente percepções e agressões políticas e militares. Citou o exemplo da TeleSUR, mostrando que estar presente e narrar é fundamental para vencer a batalha comunicacional.
Na sequência, Isabela Shi Xiaomiao, jornalista chinesa da CGTN Português, destacou que a estrutura global de comunicação permanece desequilibrada, colocando o Sul Global diante do desafio de romper uma “narrativa pobre” e afirmou acreditar que a cooperação entre mídias são fundamentais para formar consenso sobre desenvolvimento, compartilhar experiências como redução da pobreza e modernização nacional e transformar esse conhecimento em força de mudança.

O jornalista Leonardo Artuch contou suas experiências na China. Foto: Manoel Porto
Informações mal-intencionadas
Ainda no debate, Michele de Mello, jornalista da RT en Español, citou a preocupação com a divulgação de informações por pessoas mal-intencionadas “difundindo matrizes de opinião para ganho político e econômico”, enquanto jornalistas disputam o mesmo meio no intuito de repassar notícias. Enfatizou que a comunicação sempre teve dimensão estratégica, mas agora ganha ainda mais importância na disputa sobre modelos de sociedade.
Dando continuidade às discussões, Leonardo Attuch, fundador do Brasil 247, afirmou que a integração das mídias do Sul Global se tornou central em sua trajetória. Relatou ter se impressionado com o modelo chinês de comunicação, público, profissional e voltado à construção de consensos, diferente da lógica de polarização ocidental, após visitas ao país. Attuch conversou com o Ângulo e Foco (veja vídeo no final).
Logo depois, para finalizar a conversa, Bruno Lima Rocha, da Hispan TV, afirmou ser difícil dividir como a mídia hegemônica trata a opinião internacional, sempre focando em centros de poder Europa subalterna e norte-americanas, apesar de o mundo ser mais complexo.
Destacou que existe mídia iraniana em língua portuguesa, profissional e feita por trabalhadores. Citou exemplos: Honduras, onde denunciaram sabotagem eleitoral e acusações de “narcoterrorismo”; Equador, onde divulgaram denúncias contra o presidente; Chile, onde acompanham eleições lendo portais alternativos; Paraguai, onde denunciaram sanções dos EUA ao Banco Basa, ligado ao ex-presidente Horacio Cartes.
A primeira mesa contou com informações e experiências diversas focadas na integração e colaboração da comunicação para combater a mídia hegemônica e formar frentes que possam enfrentar as grandes empresas de tecnologias. O evento conta com apoio do Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br), através do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), além do Sindicato dos Bancários da Bahia.
Hoje (29), a atividade teve início às 9h30 com debates, oficina e a plenária final (ver programação abaixo).

O fundador do Brasil 247 conversou do Emília Mazzei. Foto: Kal Alves.
Bahia se destaca no Brasil
A comunicadora Emília Mazzei, Especialista em Juventudes da CAR-Gov Ba, relatou para o Ângulo e Foco os resultados altamente significativos do projeto “Jovens Comunicadores”, do Governo da Bahia, e comentou a importância do evento de Salvador:
“O projeto Jovens Comunicadores do semiárido baiano teve resultados significativos, com todas as metas alcançadas. Entre os principais resultados, 385 jovens foram capacitados e fortalecidos no semiárido, com 82% participando de espaços de atuação política e acesso a direitos, e 56% permanecendo na comunidade rural. Além disso, 48% dos jovens passaram a desenvolver ações comunitárias, superando a meta inicial.
“Participar do Encontro Internacional, para a Bahia, significa nivelar a atuação governamental do estado a iniciativas de sucesso, relatadas pelos representantes de outros países. Ao final desse importante acontecimento, a representação baiana se integra a esse fundamental movimento mundial” – conclui.

@Emília Mazzei na coordenação da mesa “Como enfrentar o poder das big techs e seus algoritmos secretos?”. Foto:Divulgação
Programação
Dia 28
17h – Abertura | Comunicação para impulsionar a integração, a soberania e a paz na região – Felipe Bianchi (Barão de Itararé), Renata Mielli (CGI.br) e Adelmo Andrade (Sindicato dos Bancários da Bahia)
17h30 – Debate | Comunicação e cooperação no Sul Global – Patrícia Villegas (Colômbia) – presidente da teleSUR, Isabela Shi Xiaomiao (China) – jornalista da CGTN (China Global Television Network) Português, Bruno Lima Rocha (Brasil) – jornalista da Hispan TV (Irã), cientista político e professor de Relações Internacionais, Leonardo Attuch (Brasil) – fundador do Brasil 247 e da TV 247 e Michele de Mello (Brasil) – jornalista da RT en Español.
19h30 – Debate | A batalha de ideias nas Américas hoje – Vladimir Ríos (México) – Secretário do MORENA na Cidade do México e titular da Comissão de Juventudes, Fernando Buen Abad (México/Venezuela) – reitor internacional da Universidad Internacional de las Comunicaciones (Uicom – Venezuela), Zoe Alexandra (Estados Unidos) – Comunicadora popular e editora do People’s Dispatch, Florencia Abregú (Argentina) – Secretaria Operativa da Alba Movimientos.
Dia 29
9h30 – Debate | Comunicação e juventude na América Latina – Camila Modanez (Brasil) – pesquisadora, especialista em mobilização digital e representante do Barão de Itararé, Quya Reyna (Bolívia) – escritora, pesquisadora e comunicadora aimara, Sebastián Furlong (Argentina) – editor do Grito del Sur, Pilar Sivira (Venezuela) – artista visual, comunicadora popular e diretora de comunicação da organização social Francisco de Miranda,
14h – Debate | Como enfrentar o poder das Big Techs e seus algoritmos secretos? – Ergon Cugler (Brasil) – coordenador do Barão de Itararé, pesquisador e autor do livro “IA-cracia: Como enfrentar a ditadura das Big Techs” (2024), Patricia Peña (Chile) – professora da Universidad de Chile, diretora da Fundación Datos Protegidos e co-fundadora do capítulo chileno da organização Internet Society, Gustavo Gómez (Uruguai) – pesquisador e diretor do Observatório Latinoamericano de Regulación de Medios y Convergencia (Observacom) e Nina Santos (Brasil) – Secretária Adjunta de Políticas Digitais na Secretaria de Comunicação da Presidência da República.
16h – Oficina | Ferramentas e recursos de IA para jornalismo independente e comunicação popular – Vanessa Martina-Silva (Brasil – Barão de Itararé / Diálogos do Sul Global) e Sindicato dos Jornalistas da Bahia.
17h30 – Plenária final
21h – Festa para a Integração

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Fontes: Barão de Itararé, Itana Olveira-Sindicato dos Bancários da Bahia e Emília Mazzei


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