OBSERVAÇÃO DE ESTRELAS ATRAI VISITANTES TAMBÉM NO BRASIL


Vale do Pati, ideal para observar astros.Foto:Guia Chapada Diamantina-Caiã Pires. Modelo:Clara Pires.
Enquanto aqui na Terra o panorama geopolítico é feio e triste, uma excelente opção para nós é olhar para o céu. Não somente para tentar acompanhar a trajetória do objeto errante 3I/Atlas, mas para admirar a beleza da Via Láctea e dos bilhões de astros que compõem o misterioso Universo. Quem quiser ter experiências diferenciadas e compensadoras, tem muitas opções turísticas para observação de estrelas, programas que se espalham pelo Brasil e atraem, cada vez mais, visitantes. O Ângulo e Foco tem sempre matérias que tratam da atividade econômica do Turismo; hoje, trazemos aos queridos leitores informações sobre um segmento que só cresce. Oportunidades para aqueles que gostam de explorar o desconhecido do além, que ‘tiram o fôlego’, ao mesmo tempo em que enriquecem nossas experiências e são opções atraentes para aqueles que trabalham no setor de aventura, entretenimento e lazer. Boa leitura!
Em sua próxima viagem, faça um programa turístico que envolva observação de estrelas. É o chamado astroturismo, que se vale de lugares na natureza onde há pouca luz artificial para oferecer experiências de contemplação do céu noturno.
Essa não é uma ideia nova para os aficionados no assunto. Muitos turistas chegam a reservar viagens com meses de antecedência para avistar eclipses solares e ‘luas de sangue’, por exemplo. Depois do paradeiro gerado pela pandemia, a observação astronômica passou a ser apontada como uma tendência, com cada vez mais ofertas.
Estudo divulgado, recentemente, analisou o potencial astroturístico dos 75 parques nacionais brasileiros. Mas também inclui um parque estadual, o do Desengano, no Rio de Janeiro, que, em 2023, se tornou o primeiro “parque de céu escuro” da América Latina, notável pela sua baixa poluição luminosa.
Para esse trabalho, os pesquisadores criaram um índice, batizado de ‘Iastro’, que considera três aspectos: a qualidade do céu à noite, a chance de haver céu aberto e o nível de infraestrutura turística.
Por exemplo, olhar para o céu nunca mais será a mesma coisa depois de uma noite no Deserto do Atacama. Daniel Mello, astrônomo do Observatório do Valongo, da Universidade Federal do Rio de Janeiro e coordenador do projeto Astroturismo nos Parques Brasileiros, explica o porquê: “A qualidade do céu é o parâmetro mais importante, pois indica o quanto o céu do parque é escuro, ou seja, o quanto o local é menos afetado pelo excesso de luzes artificiais das cidades”.
O levantamento, publicado na Revista Brasileira de Ecoturismo, revela, também, os benefícios do astroturismo para a saúde e o bem-estar. Que ótimo parâmetro!
Regiões em destaque no Brasil
“O potencial do astroturismo no Brasil é atestado por dados robustos. O atlas mundial de luminosidade artificial do céu noturno indica o Brasil como um dos países do G20 com os menores níveis de poluição luminosa”, revela Daniel.
Atesta que o acesso aos parques nacionais brasileiros tem crescido seguidamente – o total de visitas chegou, em 2024, a 12,5 milhões, segundo dados do governo federal. Levando em conta os critérios do Iastro, oito deles foram considerados ‘excelentes’ para o astroturismo e 25, com nota ligeiramente inferior, estão classificados como ‘ótimos’.
Um dos locais classificados como ótimo pelo Iastro é o Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses. “Nele, é possível observar uma gama de objetos e fenômenos que incluem as chuvas de meteoros, a Via Láctea, as Nuvens de Magalhães, nebulosas e dezenas de constelações, a olho nu, sem o uso de instrumentos”, nos conta Daniel, um dos autores do índice.
No Maranhão, o passeio noturno, a partir do vilarejo de Atins, custa R$ 800 (para duas pessoas, na Gaivota Eco Tur Hub) e também inclui a observação do plâncton bioluminescente, encontrado na foz do rio Preguiças. Nesse passeio, devemos escolher a noite em que a lua esteja o mais escondida possível. O turista entra na parte rasa do rio e agita a água para desencadear o fenômeno da bioluminescência, provocada por uma reação química de um gene.
Na segunda etapa, o passeio, acompanhado de um guia, dura cerca de duas horas. O grupo segue para o topo de uma duna, para a observação do céu, que pode ser feita sem nenhum instrumento. Aplicativos instalados no celular podem ser úteis para ajudar a localizar as estrelas. O passeio inclui vinho e queijos, que também têm bastante utilidade nessa aventura. Ainda que seja uma região de calor, o vento pode incomodar um pouco, por isso sugere-se levar um agasalho leve.
O céu, quase sempre límpido, impressiona até mesmo quem não entende nada das estrelas. Até o Cruzeiro do Sul não parece o mesmo quando visualizado nesse Parque.
Mudando o cenário do Norte para o Sul, no Paraná, o Parque Nacional do Iguaçu é classificado como ‘muito bom’ pelo estudo. A Administração passou a vender a atividade – chamada Céu das Cataratas, que acontece aos sábados, às 19h, em um dos mirantes situados junto às quedas d’água.
O projeto nasceu de uma parceria com a Cosmos Iguassu, que já oferecia a experiência aos hóspedes do Hotel das Cataratas, localizado dentro do parque. Agora, ampliou o acesso para o público geral. A atividade é indicada para pessoas a partir dos 12 anos, custa R$ 550 e deve ser agendada no site cataratasdoiguacu.com.br.
O passeio começa um pouco depois do pôr-do-sol, no centro de visitantes. Da mesma forma que na visita diurna, o grupo embarca num ônibus e, no hotel, o grupo segue uma pequena trilha, em direção a um dos mirantes. Espreguiçadeiras com travesseiro e manta aguardam os visitantes nesse local.
Logo, vinho e água são servidos. O astrônomo e ‘guia estrelar’ Janer Vilaça começa a explicar o que há no céu, focalizando a perspectiva científica e a visão dos indígenas guarani, que habitavam a região antes da chegada dos europeus e possuem sua própria cosmologia. E conta que, há 5.000 anos, os humanos começaram a usar o céu para medir o tempo e marcar datas, a partir dos ciclos do sol e da lua.
Em 1929, a União Astronômica Internacional padronizou as nomenclaturas, batizando as constelações com base na mitologia grega, as estrelas com nomes da cultura árabe e os planetas com nome de deuses romanos.

Um passeio muito educativo
O turista aprende que, ao longo da história, os ciclos das constelações também foram ganhando significados. No Hemisfério Norte, por exemplo, o surgimento da constelação de Escorpião marcava o ápice do calor, do qual os escorpiões fogem, se abrigando sob a areia.
Os guaranis viam essa mesma constelação como uma ema, numa referência à ave que sempre aparece no inverno para devorar tudo o que vê pela frente. Quando a ema descia do céu, para beber as águas das cataratas, era sinal de que a seca estava chegando. Segundo o guia, a cultura polinésia denomina a mesma constelação de ‘anzol’ porque, quando ela aparece no horizonte, significa que é a época de pesca.
O astrofotógrafo Rodrigo Guerra, da equipe do Cosmos Iguassu, ganhou medalha de ouro no concurso Brasília Photo Show e ficou em segundo lugar, na votação popular do concurso Dark Sky, uma das principais competições internacionais de fotografias do céu.
Uma dica a você, que é guia especializado: as explicações prosseguem por cerca de uma hora, sempre apontando as estrelas com um laser e relacionando-as com interpretações científicas, históricas e místicas.
Ao contrário do que fazem parecer as fotos, em geral clicadas usando a técnica de longa exposição (que mantém o obturador aberto por mais tempo, para captar mais luz), não é possível enxergar galáxias brilhando. Para fazer fotos, não adianta usar o celular visando fazer postagens maravilhosas, porque eles não conseguem registrar nada com essa quase ausência de luz.
Uma visão fascinante – que fica para o final – é observar a lua, usando um grande telescópio, que revela o nosso satélite com todos os seus relevos, luzes e sombras, muito além do que se consegue a olho nu.
Um turismo presente em todos os continentes
O astroturismo é praticado em diversos países que possuem céus escuros, com baixa poluição luminosa e, muitas vezes, dispõem de observatórios astronômicos. Vamos conhecer, agora, alguns dos principais destinos de astroturismo no mundo:
Na América do Sul, o destaque especial vai para o Chile, considerado um dos melhores lugares do mundo para observar o céu, a partir do Deserto do Atacama (San Pedro de Atacama, Valle del Elqui). Observatórios: ALMA, Paranal e La Silla. Também já vem sendo praticado na Argentina, mais especificamente, na Patagônia, Província de San Juan, no parque Ischigualasto – Valle de la Luna.
Na América do Norte, a maior parte das opções são nos Estados Unidos, onde se pratica nos parques nacionais certificados, os Dark Sky Parks: Grand Canyon, Bryce Canyon, Death Valley, Big Bend (Texas) e no Observatório Mauna Kea, no Havaí. No Canadá, se destacam as reservas de Céu Escuro Jasper National Park e Wood Buffalo National Park.
Na Europa, o astroturismo é praticado na Espanha, mais precisamente, nas Ilhas Canárias (La Palma e Tenerife, alguns dos melhores céus do hemisfério norte), no Observatório Roque de los Muchachos; na Escócia, no Galloway Forest Park; em Portugal, no Dark Sky Alqueva, uma referência mundial. Na Escandinávia (Noruega, Finlândia e Islândia), a preferência é pela observação de auroras boreais, um outro tipo de astroturismo.
Na África, acontece na Namíbia, onde os céus são extremamente escuros no deserto do Namibe, em lodges especializados em astrofotografia; também na África do Sul, em Sutherland (Observatório SALT – Southern African Large Telescope)
Na Oceania, é vendido na Austrália, no chamado Outback australiano (céus muito escuros), dentro do Observatório de Siding Spring; e na Nova Zelândia, no Aoraki Mackenzie International Dark Sky Reserve.
Já na Ásia, é praticado na Mongólia, mirando o céu limpíssimo nas estepes; no Japão, precisamente nas regiões montanhosas como Nagano e Okinawa rural; na Índia, no majestoso Himalaia, especialmente em Ladakh.

PRINCIPAIS LOCAIS DE ASTROTURISMO NO BRASIL
Em Minas Gerais, já temos esse tipo de turismo na Serra da Canastra, um dos céus mais escuros do Sudeste, excelente para astrofotografia; também, no Capitolio (Serra do Cipó / Ouro Preto), onde várias pousadas e agências oferecem observação guiada; e no Observatório do Pico dos Dias (OPD), Brazópolis, onde fica o maior observatório profissional do país, que tem eventos de visitação periódicos.
Em São Paulo, no município de Cunha, existe céu escuro na divisa com o RJ e são programados muitos eventos de observação; em Campos do Jordão (Santo Antônio do Pinhal), onde se fazem atividades de astroturismo com telescópios; e no Observatório Municipal de Campinas, no Observatório de Amparo, com programações abertas ao público.
No Rio de Janeiro, um dos locais preferidos é o Parque Nacional do Itatiaia, com sua altitude elevada e excelente céu; em Petrópolis e Teresópolis, grupos e clubes de astronomia fazem observações abertas.
No Ceará, o movimento é na Serra da Ibiapaba (Ubajara / Guaramiranga), pela sua altitude e baixíssima poluição luminosa.
No Rio Grande do Sul, a turma interessada vai aos Campos de Cima da Serra, em São José dos Ausentes. São ótimas as condições para observar a Via Láctea; em Santa Maria existe uma forte tradição em astronomia e observatórios didáticos.
Em Goiás, na Chapada dos Veadeiros, região candidata a se tornar uma Reserva de Céu Escuro, é muito procurada por astrofotógrafos.
Ainda no Oeste, em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, um dos melhores locais é no Pantanal, que tem céu limpo durante a estação seca; e na Chapada dos Guimarães, também procurada para turismo astronômico.
No Pará / Amazônia, o astroturismo é praticado em regiões afastadas de cidades, como Alter do Chão, que oferecem céus escuros excepcionais, e ocorrem eventos e iniciativas importantes no Brasil.
Na Bahia, o melhor lugar para essa prática é a Chapada Diamantina, um dos melhores locais do Brasil para observar a Via Láctea. Destaques para Vale do Capão, Mucugê, Igatu (Andaraí), no Vale do Pati; em Lençóis e Morro do Chapéu. Em Salvador, no Planetário da UFBA. Agências locais oferecem experiências de astroturismo e astrofotografia.
Podem vir. A Chapada Diamantina os espera!

Planetário da Universidade Federal da Bahia. Foto: Divulgação.
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Fontes: Folha de S.Paulo, Folhapress e UFBA.


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