POESIA DOMINICAL ELISA LUCINDA

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Banner colorido promovendo 690 escolas de tempo integral na Bahia, com a imagem de uma jovem sorridente usando óculos.
Elisa Lucinda sorrindo, com as mãos apoiadas em uma mesa, usando uma jaqueta marrom e com cabelo cacheado.

Elisa Lucinda. Foto: Letras.com

Nossa personagem deste domingo é atriz, poetisa, escritora, cantora e recebeu vários prêmios por sua criação artística: Prêmio Especial do Júri pelo conjunto da obra do Festival de Cinema de Gramado (2020); Melhor Atriz de Teatro por “Parem de Falar Mal da Rotina”, Troféu Raça Negra (2010) e outros galardões, inclusive dos governos democráticos do Brasil. Firme em suas posições políticas e de convívio social, posicionou-se desde cedo contra atitudes autoritárias, o machismo e a discriminação racial. Hoje, na Poesia Dominical, o Ângulo e Foco tem orgulho de trazer três poemas dessa magnífica artista. Boa leitura!

Reconhecida no meio musical e de atuação por seus trabalhos em cinema, televisão e teatro, Elisa é, também, excelente poetisa, como poderão constatar, abaixo, aqueles que ainda não conhecem seu trabalho com o texto poético.

Em sua longa trajetória artística, é vencedora de um Kikito do Festival de Gramado por “Por que Você Não Chora?”, e um Troféu Raça Negra, na categoria Teatro. Em 2020, Elisa foi galardoada com o Prêmio Especial do Júri do Festival de Cinema de Gramado pelo conjunto de obra. Também foi laureada no cinema pelo filme “A Última Estação”, no qual protagonizou a personagem Cissa. O filme abriu o Festival de Brasília de 2012.

Vida intensa

Nascida em uma família de classe média, filha de um professor de português e latim, Elisa interessou-se pela poesia desde cedo. Aos dez anos, frequentou aulas de declamação, ou melhor, “interpretação teatral de poesia”, como preferia a professora, Maria Filina Salles Sá de Miranda.

Cursou Comunicação Social na Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), tornando-se jornalista na década de 1980. Também trabalhou como professora.

Disposta a seguir a carreira de atriz, mudou-se para o Rio de Janeiro em 1986, para viver numa vila no bairro da Tijuca. No Rio, cursou interpretação teatral na Casa das Artes de Laranjeiras (CAL). Trabalhou em algumas peças teatrais, sob direção de Domingos de Oliveira, e de Ticiana Studart. Também integrou o elenco do filme “A Causa Secreta”, de Sérgio Bianchi.

Seu primeiro trabalho na televisão foi numa telenovela, em 1989, na extinta Rede Manchete. Participou de minisséries e, depois, migrou para o SBT para participar de uma telenovela. Entrou na TV Globo, no programa “Você Decide”. Após sua estreia na emissora, integrou o elenco da série “Mulher”. Muito identificada com o autor de novelas Manoel Carlos, participou de sete telenovelas dele, na emissora. Em 2017, voltou à Globo no folhetim “Tempo de Amar”.

Em 2021, a atriz fez sua estreia num streaming, na Prime Video, em que Elisa interpretou a voz da cantora Vanusa e, também no Prime, participou de dois episódios na série “Desjuntados”. E, em m parceria com Geovana Pires e Denise Stutz, assinou a dramaturgia da peça teatral “Perigosas Damas”.

Ecletismo

No ano de 1998, fundou a Casa Poema, instituição socioeducativa cujo método capacita vários profissionais, desenvolvendo sua capacidade de expressão e sua formação cidadã, através da poesia falada. A atriz, em parceria com a Organização Internacional do Trabalho (OIT), tem desenvolvido o projeto “Palavra de Polícia, Outras Armas”, onde ensina poesia falada aos policiais, procurando alinhá-los aos princípios dos direitos humanos e transformar antigos modos operacionais em relação ao gênero e à raça.

Elisa Lucinda é considerada a artista da sua geração que mais populariza poesia. Seu modo coloquial de se expressar faz com que o mais complexo pensamento ganhe fácil compreensão. Junto com Geovana Pires, criou a Companhia da Outra, grupo teatral que desenvolve sua linguagem de teatro essencial, através da poesia. Fez várias apresentações teatrais, com declamação de seus poemas, algumas das quais com a participação especial de Paulo José. Em seguida, representou em “Euteamo” e “O Semelhante”.

Em 2006, Lucinda foi agraciada pelo então presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) com uma admissão à Ordem de Rio Branco no grau de Oficial suplementar, por seus méritos como poetisa.

Em 2011, foi entrevistada no programa online Filossofá – Desertores do Cotidiano, gravado em um sofá, sobre as dunas de Itaúnas, no Espírito Santo, o lugar em que Elisa passa as férias e onde mantém uma Casa-Poema.

Convidada pela Fundação Nacional de Artes (Funarte) para representar o Brasil no Ano Brasil–Portugal, a artista realizou uma turnê em cinco cidades daquele país, em outubro de 2012. Na sua volta ao Brasil, recebeu um convite da presidente Dilma Rousseff para ser mestre de cerimônia, junto com o ator José de Abreu e a então Ministra da Cultura Marta Suplicy, na Ordem do Mérito Cultural (OMC), em Brasília.

Como cantora e intérprete, excursionou com vários shows.

Vida pessoal

Firmando-se numa posição política, na eleição presidencial de 2014, apoiou a reeleição Dilma Rousseff (PT) contra a candidatura de Aécio Neves (PSDB). No ano de 2016, posicionou-se de maneira contrária ao Impeachment de Dilma Rousseff. Na eleição presidencial de 2018, declarou seu apoio ao petista Fernando Haddad.

Em 2019, escreveu uma carta aberta para o magistrado Leandro Paulsen, desembargador do Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4) que utilizou um poema de Elisa para aferir a condenação do ex-presidente Lula. Para Elisa, a utilização de seu poema foi um “mico” e “expõe a ignorância do citador”.

A atriz mora no Rio de Janeiro, cidade que escolheu viver desde meados dos anos 1980. É candomblecista. Foi casada com o psicanalista Zanandré Avancini, entre 1981-1984, com quem teve um filho, Juliano; e depois com o psiquiatra José Ignácio Tavares Xavier, entre 1993-2004.

Elisa Lucinda, atriz e poetisa, com cabelo afro e flor na cabeça, sorri em evento cultural.

Foto: Wikipedia

Ele

Já começa a beijar o meu pescoço

com sua boca meio gelada meio doce,

já começa a abrir-me seus braços

como se meu namorado fosse,

já começa a beijar a minha mão,

a morder-me devagar os dedos,

já começa a afugentar-me os medos

e dar cetim de pijama aos meus segredos.

.

Todo ano é assim:

vem ele com seus cajás, suas oferendas, suas quaresmeiras,

vem ele disposto a quebrar meus galhos

e a varrer minhas folhas secas.

Já começa a soprar minha nuca

com sua temperatura de macho,

já começa a acender meu facho

e dar frescor às minhas clareiras.

.

Já vem ele chegando com sua luz sem fronteiras,

seu discurso sedutor de renovação,

suas palavras coloridas,

e eu estou na sua mão.

.

Todo ano é assim:

mancomunado com o vento, seu moleque de recados,

esse meu amante sedento alvoroça-me os cabelos,

levanta-me a saia, beija meus pés,

lábios frios e língua quente,

calça minhas meias delicadamente

e muda a seu gosto a moda de minhas gavetas!

.

É ele agora o dono de meus cadernos, meu verso, minha tela,

meu jogo e minhas varetas.

Parece Deus, posto que está no céu, na terra,

nas inúmeras paisagens,

na nitidez dos dias, no arcabouço da poesia,

dentro e fora dos meus vestidos,

na minha cama, nos meus sentidos.

.

Todo ano é assim:

já começa a me amar esse atrevido,

meu charmoso cavalheiro, o belo Outono,

meu preferido.

Aviso da lua que menstrua

Moço, cuidado com ela!

Há que se ter cautela com esta gente que menstrua…

Imagine uma cachoeira às avessas:

Cada ato que faz, o corpo confessa.

.

Cuidado, moço

Às vezes parece erva, parece hera

Cuidado com essa gente que gera

Essa gente que se metamorfoseia

Metade legível, metade sereia.

Barriga cresce, explode humanidades

E ainda volta pro lugar que é o mesmo lugar

Mas é outro lugar, aí é que está:

Cada palavra dita, antes de dizer, homem, reflita.

Sua boca maldita não sabe que cada palavra é ingrediente

Que vai cair no mesmo planeta panela.

Cuidado com cada letra que manda pra ela!

.

Tá acostumada a viver por dentro,

Transforma fato em elemento

A tudo refoga, ferve, frita

Ainda sangra tudo no próximo mês.

.

Cuidado moço, quando cê pensa que escapou

É que chegou a sua vez!

Porque sou muito sua amiga

É que tô falando na “vera”

Conheço cada uma, além de ser uma delas.

.

Você que saiu da fresta dela

Delicada força quando voltar a ela.

Não vá sem ser convidado

Ou sem os devidos cortejos.

Às vezes pela ponte de um beijo

Já se alcança a “cidade secreta”

A atlântida perdida.

Outras vezes várias metidas e mais se afasta dela.

.

Cuidado, moço, por você ter uma cobra entre as pernas

Cai na condição de ser displicente

Diante da própria serpente

Ela é uma cobra de avental

Não despreze a meditação doméstica

É da poeira do cotidiano

Que a mulher extrai filosofando

Cozinhando, costurando e você chega com mão no bolso

Julgando a arte do almoço: eca!…

Você que não sabe onde está sua cueca?

.

Ah, meu cão desejado

Tão preocupado em rosnar, ladrar e latir

Então esquece de morder devagar

Esquece de saber curtir, dividir.

E aí quando quer agredir

Chama de vaca e galinha.

São duas dignas vizinhas do mundo daqui!

.

O que você tem pra falar de vaca?

O que você tem eu vou dizer e não se queixe:

Vaca é sua mãe, de leite.

Vaca e galinha…

Ora, não ofende. enaltece, elogia:

Comparando rainha com rainha

Óvulo, ovo e leite

Pensando que está agredindo

Que tá falando palavrão imundo.

Tá, não, homem.

Tá citando o princípio do mundo!

A Ilha

Na solidão da existência,

nado firme na batida das águas,

corpo revolto à mercê da decisão das ondas,

vou destilando coragem no desespero das braçadas.

É noite.

Ainda bem que os versos são claros,

me ancoram, me falam, me salvam,

me beijam na boca o beijo longo da salvação,

me devolvem o ar, a vida, a trilha.

.

O poema é para mim terra firme,

como é, para o náufrago, a ilha.

Fontes: Jornal Nota, Letras, Wikipedia, Clube do Livro

One response to “POESIA DOMINICAL ELISA LUCINDA”

  1. Avatar de
    Anônimo

    MARAVILHOSA ATRIZ E POETIZA, MULTIMíDIA DE TALENTOS NA LUZ DO CRIADOR. TODA MINHA ADMIRAÇÃO A ESSA TALENTOSA ARTISTA ENGAJADA.

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