

Portada Galeano. Foto: Periodistas de Cuba
O Ângulo e Foco traz, hoje, para os queridos leitores, três pérolas da poesia de autores consagrados como Eduardo Galeano, Carlos Drummond de Andrade e Paul Eluard. Como sempre, vamos conhecer um pouco da trajetória de cada um. E, no final, um brinde cintilante: A poesia de Drummond, musicada por Milton Nascimento e cantada pelo próprio. Bom proveito!
EDUARDO GALEANO
Eduardo Galeano nasceu em 1940, em Montevidéu, no Uruguai. Foi jornalista, escritor e ensaísta, reconhecido internacionalmente. Iniciou a carreira muito jovem, atuando em jornais e revistas. Sua obra é marcada pela crítica ao colonialismo e às desigualdades sociais.
Galeano tornou-se referência do pensamento político e cultural latino-americano. O livro *As Veias Abertas da América Latina* é sua obra mais conhecida. Nele, analisou a exploração histórica do continente pelas potências estrangeiras.
Após o golpe militar no Uruguai, viveu no exílio na Argentina e na Espanha. A experiência do exílio influenciou profundamente sua escrita. Sua linguagem combina narrativa literária, história e jornalismo. Também se destacou pela trilogia *Memória do Fogo*.
Galeano valorizou a memória popular e as vozes silenciadas pela história oficial. Recebeu diversos prêmios e homenagens ao longo da vida. Faleceu em 2015, em Montevidéu.
Seu legado permanece como símbolo de resistência intelectual e compromisso social.
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POBREZAS, OS POBRES VERDADEIRAMENTE POBRES
Pobres, verdadeiramente pobres, são os que não têm tempo para perder tempo.
Pobres, verdadeiramente pobres, são os que não têm silêncio e nem podem comprá-lo.
Pobres, verdadeiramente pobres, são os que têm pernas que se esqueceram de andar, como as asas das galinhas, que se esqueceram de voar.
Pobres, verdadeiramente pobres, são os que comem lixo e pagam por ele como se fosse comida.
Pobres, verdadeiramente pobres, são os que têm o direito de respirar merda, como se fosse ar, sem pagar nada por ela.
Pobres, verdadeiramente pobres, são os que não têm liberdade senão para escolher entre um e outro canal de televisão.
Pobres, verdadeiramente pobres, são os que vivem dramas passionais com as máquinas.
Pobres, verdadeiramente pobres, são os que sempre são muitos e sempre estão sós.
Pobres, verdadeiramente pobres, são os que não sabem que são pobres.
Trecho retirado do livro “De pernas pro ar”, de Eduardo Galeano. tradução Sergio Faraco. L&PM, 1998.
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

Carlos Drummond de Andrade. Foto: escritoradesucesso.com
Carlos Drummond de Andrade nasceu em 1902, em Itabira, Minas Gerais. Foi poeta, cronista e contista, considerado um dos maiores escritores do Brasil. Participou ativamente do Modernismo, integrando a chamada segunda geração do movimento.
Sua obra renovou a poesia brasileira, ao unir linguagem simples e reflexão profunda. Drummond abordou temas como o cotidiano, o amor, a solidão e a existência humana. Também tratou de questões sociais, políticas e históricas do país.
O poeta destacou-se pelo tom crítico e, muitas vezes, irônico de seus versos. Livros como “Alguma Poesia” e “Sentimento do Mundo” marcaram sua trajetória. “Claro Enigma” revelou uma fase mais filosófica e introspectiva.
Além da poesia, escreveu crônicas publicadas em jornais de grande circulação. Sua escrita aproximou a literatura do leitor comum, influenciando gerações de escritores e leitores. Por tudo isso, recebeu diversos prêmios e reconhecimento nacional e internacional.
Faleceu em 1987, no Rio de Janeiro, mas seu legado permanece como referência central da literatura brasileira.
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CANÇÃO AMIGA
Eu preparo uma canção
Em que minha mãe se reconheça
Todas as mães se reconheçam
E que fale como dois olhos
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Caminho por uma rua
Que passa em muitos países
Se não me veem, eu vejo
E saúdo velhos amigos
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Eu distribuo um segredo
Como quem ama ou sorri
No jeito mais natural
Dois carinhos se procuram
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Minha vida, nossas vidas
Formam um só diamante
Aprendi novas palavras
E tornei outras mais belas
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Eu preparo uma canção
Que faça acordar os homens
E adormecer as crianças
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PAUL ELUARD

Paul Éluard nasceu em 1895, em Saint-Denis, na França, com o nome Eugène Émile Paul Grindel. Foi um dos principais poetas franceses do século XX. Iniciou sua carreira literária após servir como enfermeiro na Primeira Guerra Mundial. A experiência do conflito marcou profundamente sua visão de mundo e sua poesia. Éluard integrou o movimento dadaísta, antes de se tornar uma figura central do surrealismo. Colaborou com nomes como André Breton, Louis Aragon e Salvador Dalí.
Sua obra é marcada pela valorização do amor, da liberdade e da imaginação. O poeta utilizou uma linguagem clara, sensível e de forte carga emocional.
Durante a Segunda Guerra Mundial, engajou-se ativamente na Resistência Francesa. Nesse período, sua poesia assumiu um tom político e humanista. O livro “Liberté” tornou-se símbolo da luta contra o nazismo. Após a guerra, manteve forte compromisso com ideais sociais e políticos. Sua produção literária conciliou lirismo pessoal e consciência coletiva.
Paul Éluard faleceu em 1952, em Charenton-le-Pont. É lembrado como uma das vozes mais influentes da poesia moderna francesa.
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AQUI A AÇÃO SIMPLIFICA-SE
Derrubei a paisagem inexplicável da mentira
Derrubei os gestos sem luz e os dias impotentes
Lancei por terra os propósitos lidos e ouvidos
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Ponho-me a gritar
Todos falavam demasiado baixo falavam e escreviam
Demasiado baixo
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Fiz retroceder os limites do grito
A ação simplifica-se
Porque eu arrebato à morte essa visão da vida
Que lhes destinava um lugar perante mim
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Com um grito
Tantas coisas desapareceram
Que nunca mais voltarão a desaparecer
Nada do que merece viver
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Estou perfeitamente seguro agora que o Verão
Canta debaixo das portas frias
Sob armaduras opostas
Ardem no meu coração as estações
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As estações dos homens, os seus astros
Trêmulos de tão semelhantes serem
E o meu grito nu sobe um degrau
Da escadaria imensa da alegria
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E esse fogo nu que pesa
Torna a minha força suave e dura
Eis aqui a amadurecer um fruto
Ardendo de frio orvalhado de suor
Eis aqui o lugar generoso
Onde só dormem os que sonham
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O tempo está bom, gritemos com mais força
Para que os sonhadores durmam melhor
Envoltos em palavras
Que põem o bom tempo nos meus olhos
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Estou seguro de que a todo o momento
Filha e avó dos meus amores
Da minha esperança
A felicidade jorra do meu grito
Para a mais alta busca
Um grito de que o meu seja o eco.
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OUÇA O POEMA DE DRUMMOND, MUSICADO POR MILTON NASCIMENTO:
Fontes: Youtube, Revista Prosa Verso e Arte e Divulgação
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