NINGUÉM MAIS VAI BEBER ÁGUA SALOBRA

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ESTUDANTES DA PARAÍBA CRIAM DESSALINIZADOR SIMPLES

Banner colorido anunciando a nova escola de tempo integral em Piatã, Bahia, com o texto 'VEM AÍ EM PIATÃ NOVA ESCOLA DE TEMPO INTEGRAL' e logotipo do Governo da Bahia.
Dessalinizador solar feito de materiais locais, com dois galões de água ao lado, um com água salobra e outro com água potável. O equipamento está em um ambiente rural com céu claro ao fundo.

Imagem: Ângulo e Foco I.A.

O ano de 2026 está começando com grande chance de a vida humana ficar mais doce. Ameaças amargas e salgadas cercam a humanidade, desprotegida perante os gigantes do sistema explorador e guerreiro. Ainda bem que, nos nossos quintais, surgiu uma solução de dessalinização, criada por pesquisadores da Universidade Estadual da Paraíba, que transforma água salobra em recurso potável, garantindo até 16 litros diários para famílias do Cariri que vivem sob forte escassez hídrica. Vamos somar essa celebração à esperança do Brasil e do Mundo encontrarem caminhos mais sustentáveis e suaves que devolvam a esperança a quem já a perdeu.

No ambiente árido do Cariri paraibano, a água é tratada como um bem mais precioso do que ouro. A região está entre as que menos registram chuvas no país e, neste ano, mais da metade das cidades da Paraíba entrou em situação de emergência.

Uma novidade, exposta no jornalismo da Rede Paraíba, mostrou, neste final de ano, que a cidade de Caraúbas é uma das mais sofridas e, para moradores como seu Reginaldo, cada gota tem peso de resistência e sonho.

Ele conta que a água é essencial em todos os aspectos da vida local e que, por isso, nenhum desperdício é tolerado. Segundo ele, escovar os dentes com um simples copo de água faz parte da rotina, porque a escassez sempre marcou a região e já impôs momentos ainda mais difíceis.

Água salobra e desafios do subsolo

Existe água no subsolo, mas o acesso depende de vencer camadas profundas de rocha. Mesmo quando um poço é perfurado, o resultado nem sempre atende às necessidades humanas. No caso da família de seu Reginaldo, a primeira perfuração só serviu para os animais, porque a água era muito salobra, tornando o consumo humano inviável. O teste do líquido, retirado diretamente do poço, confirma o problema: o sabor é intensamente salgado.

As medições técnicas apontam que essa água contém 7 g de sal por litro, enquanto o limite para ser considerada potável é de, no máximo, 5 g por litro.

As plantações e a água de consumo da casa, praticamente tudo o que hoje existe, foi conquistado após muita dificuldade. Antes, conforme recorda a família, existia apenas a moradia, sem qualquer estrutura adicional. A mudança, porém, começou quando uma iniciativa acadêmica chegou ao local trazendo uma alternativa concreta.

Dessalinizador solar simples instalado em área árida, equipado com uma caixa de captação de água salobra e um sistema de filtragem. Ao lado, há um recipiente de água potável e um copo azul.

O equipamento paraibano, funcionando.

Pesquisa universitária cria solução local

A grande mudança teve início em um projeto da Universidade Estadual da Paraíba, desenvolvido desde 2010: uma equipe de alunos e pesquisadores buscava desenvolver um equipamento simples, de fácil instalação, manutenção acessível e custo reduzido. O objetivo era criar uma tecnologia que pudesse ser adotada, sem depender de insumos sofisticados ou equipamentos externos.

O resultado apareceu através da implantação de pequenas estruturas que funcionam como estufas capazes de transformar água salobra em água doce. Cada unidade tem capacidade de produzir até 16 litros por dia, gerando água de alta qualidade para o consumo. Reginaldo e a comunidade afirmam: o efeito parece um milagre, diante do cenário de escassez que os envolve.

Como funciona o dessalinizador

O equipamento utiliza materiais disponíveis na própria região, como vidro, cimento e lona. A água, retirada do poço, abastece a casinha, que recebe o calor intenso do sol da caatinga. A temperatura, dentro da ‘caixa’ chega a 70ºC, fazendo o vapor subir e condensar no teto de vidro. O líquido escorre por canaletas laterais e sai pronto para beber, enquanto o sal permanece acumulado na lona. Depois, basta limpar o material para reiniciar o processo. A cada 50 litros de água salobra, o sistema gera 16 l de água doce.

Hoje, cerca de 200 famílias na Paraíba já adotam o dessalinizador. Não há custos adicionais para o uso contínuo, mas os criadores recomendam que as primeiras unidades sejam construídas com supervisão ou treinamento, a fim de evitar erros comuns no processo, de início.

Um homem sorridente, vestindo uma camisa vermelha e um chapéu, aparece em um ambiente árido com vegetação escassa ao fundo.

Sêo Reginaldo está encantado com o dessalinizador caseiro.

Qualidade da água e impacto social

Os moradores e visitantes classificam a água produzida como excelente e muitos consideram o sabor até melhor do que o de água mineral. Mesmo em dias nublados, a produção continua atendendo às necessidades domésticas. A sensação de alívio é evidente, entre as famílias beneficiadas, que agora enxergam o recurso como um fator de mudança radical no dia-a-dia.

Os técnicos explicam que o próximo passo da pesquisa é descobrir maneiras de aproveitar o sal, acumulado após a purificação. Enquanto isso, Na casa de dona Rosinete e seu Reginaldo, a esperança ganhou espaço. Eles afirmam esperar que os filhos permaneçam na região, trabalhando com essa e outras tecnologias, adequadas à realidade do semiárido.

Para eles, agroecologia, produção de alimentos, criação de animais e preservação da cultura local caminham juntas. Nada é separado – nem as plantas, nem os animais, nem as pessoas. Tudo faz parte da identidade que desejam manter viva.

Instalação industrial de dessalinização com grandes estruturas de membranas e tubos de condução, onde operadores monitoram o processo.

Uma planta dessalinizadora por osmose reversa. Imagem: Ângulo e Foco I.A.

Os dessalinizadores existentes

O Ângulo e Foco foi pesquisar as principais opções de dessalinizadores de água potável disponíveis hoje, trazendo uma descrição sintética dos sistemas, sua origem e destaque para soluções mais simples e econômicas.

Para retirar o sal da água em grande quantidade, são empregadas tecnologias comerciais e que funcionam em larga escala. A principal delas é a de Osmose Reversa (OR/RO), um processo de separação em que a água salgada ou salobra é forçada a passar através de uma membrana semipermeável, que retém sais e impurezas, permitindo a saída de água potável.

Essa tecnologia foi desenvolvida e aperfeiçoada na segunda metade do século XX e, hoje, é a tecnologia dominante em usinas de dessalinização no mundo (especialmente no Oriente Médio, EUA, Austrália e partes da Europa). Suas vantagens são: eficiência relativamente alta, produção contínua e água com padrão potável. As desvantagens são: alto consumo de energia elétrica e necessidade de manutenção de membranas.

A fim de trabalhar em escala industrial, são necessárias grandes usinas (milhões de litros/dia), mas existem até unidades menores, em comunidades costeiras.

Outro sistema é de Dessalinização térmica (MSF, MED, destilação). Nesses processos, é feita a evaporação da água e, depois, é condensado o vapor, separando o sal. Eles são de dois tipos – Multi-Stage Flash (MSF) e Multiple Effect Distillation (MED) -, métodos tradicionais usados há décadas, em grandes plantas que ainda estão em operação em regiões com disponibilidade de calor residual, por exemplo, ao lado de termoelétricas.

A vantagem da operação térmica é sua robustez para modificar água com salinidade muito alta. As desvantagens são o consumo energético térmico elevado e requerer infraestrutura de grande porte.

Existem, também boas opções para tratamento em pequena escala e descentralizadas. Uma delas é o uso de dessalinizadores solares simples, que usam energia solar para evaporar e condensar a água (princípio da destilação solar). Podem ser sistemas passivos (sem eletricidade) ou com pequenas estruturas que concentram radiação solar e captam o condensado. Este é o caso do dessalinizador da Paraíba.

Texto apresentando solo árido e rachado à esquerda, simbolizando escassez de água, e recipiente azul com água limpa à direita, representando a solução de dessalinização desenvolvida na Paraíba.

Projeto paraibano: O sal fica retido na lona e a água sai limpíssima.

Sistemas portáteis inovadores

As unidades brasileiras funcionam com pressão baixa e sem filtros, como outras que veremos abaixo, que são compactas e usam concentração e polarização de íons ou técnicas eletromembranares para remover sais, sem necessidade de sistemas de alta pressão.

Além do bem-sucedido processo da Paraíba, temos outro exemplo de destaque: um dessalinizador portátil do Massachusetts Institute of Technology – MIT (EUA), que pesa menos de 10 kg, opera com menos energia que um carregador de celular e pode ser alimentado por um painel solar pequeno; produz água potável com um botão e sem filtros substituíveis. Foi concebido para uso em áreas remotas ou emergências. A vantagem exibida é seu fácil transporte, baixo consumo de energia e a operação simples. Os contras são: produção de água limitada (< 1 l/h) e custo de aquisição ainda relativamente alto para uso doméstico comum.

Também de pequeno porte, estão os dessalinizadores que usam eletrodiálise ou eletrodiálise reversa (ED/EDR). Os ED representam tecnologias eletroquímicas que usam membranas carregadas eletricamente e corrente elétrica para separar íons da água. O sistema foi desenvolvido para tratamento de água salobra e industrial; EDR é UMA variante que melhora reversão de polaridade e reduz incrustação.

A aplicação típica desses é dessalinizar água salobra (menos salina que água do mar), útil para pequenas comunidades ou poços com salinidade moderada. Os prós são: menor consumo de energia em salinidade baixa e potencial para sistemas descentralizados. Entre os contras está o fato de ser menos útil para água do mar muito salina e por estar ainda em estágio de comercialização mais limitado que RO.

Deionização Capacitiva (CDI / mCDI) é outro processo emergente em que íons de sal são adsorvidos eletricamente, em superfícies de eletrodos, quando uma tensão baixa é aplicada, depois liberados em um passo de regeneração. Foi criado numa pesquisa acadêmica e possui protótipos industriais recentes.

Os prós são os fatos de terem potencial para baixo consumo de energia em água salobra e usarem materiais relativamente baratos. Os contras são: ainda não consolidados como outros métodos e geralmente aplicados em águas de menor salinidade.

Entre os dispositivos inovadores, um exemplo histórico é o Slingshot, uma proposta de purificação através da destilação por compressão de vapor, alimentada por uma fonte de calor primária; não é amplamente comercializado, mas inspirou tecnologias de campo.

São diversos, também, os pequenos dispositivos pessoais portáteis: as garrafas filtrantes ou purificadores, como o LifeSaver. Ainda que não dessalinizem água do mar diretamente, removem contaminantes.

Contudo, a criatividade dos universitários paraibanos, que desenvolveram nosso dessalinizador alternativo, salta aos olhos e desperta muita curiosidade, num mundo em que bilhões de pessoas carecem desses dispositivos para terem uma vida mais digna.

Fontes: Climate-ADAPT, ScienceDirect, UEPB, Newater, IEEE Spectrum, Waterworld, Taylor & Francis Online, SSWM, Wikipedia

One response to “NINGUÉM MAIS VAI BEBER ÁGUA SALOBRA”

  1. Avatar de Wagner Franco
    Wagner Franco

    Que beleza! Pessoas simples ajudando pessoas simples.

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