ENGENHEIRO, ADVOGADO, EX-DEPUTADO, AGORA POETA


Rodolfo da Costa e Silva Jr.
Na Poesia Dominical de hoje, o Ângulo e Foco apresenta um poeta que tem um currículo vasto, em importantes áreas da engenharia, é também advogado, formado no Largo de São Francisco e foi deputado estadual em São Paulo: Rodolfo José da Costa e Silva Junior é goiano. Nasceu em 1957. Mudou para o Rio de Janeiro em 1964 e hoje vive em São Paulo.
Recebi, nestefinal de ano, uma mensagem do ‘primo’ Rodolfo que diz muito ao mundo e remete muito à poética. Logo fiquei motivado a publicar os seus poemas que, só agora, se revelaram para mim. Leiam a mensagem e, em seguida, dois poemas que este espaço de todos os domingos apreciou muito.
“Feliz ano novo para todos. Sempre com menos ódio, mais Cosme e Damião, menos egoismo e mais Jesus Cristo; menos prepotência, desprezo e mais Manoel de Barros, mais Cecília Meireles e mais compaixão, um pouquinho só. Sim, entremos com os dois pés, afinal, não somos sacis pererês. Somos humanos, bípedes e racionais. Por um 2026 com muita harmonia, democracia e humanismo, pleno e verdadeiro.”
Rodolfo é engenheiro civil sanitarista formado pela UERJ, Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Pós-graduado em Engenharia Hidráulica e Sanitária pela Politécnica na USP-Universidade de São Paulo. Advogado formado pela Faculdade de Direito do Largo do São Francisco – USP. Trabalhou na SABESP- Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo por 35 anos, onde ocupou diversos cargos, tendo sido Vice-Presidente para o Interior do Estado.
Hoje, aposentado, se dedica à leitura e à escrita com um talento muito próprio de traduzir a realidade nua e crua na tonalidade poética. Rodolfo participa do curso de Escrita Criativa da Associação Paulista dos Magistrados e já publicou o conto, “Olhares”, no livro: “A vida é mais que um polígono”, pela Editora Patuá.
No momento, prepara seu primeiro livro de poesias, o “Colecionador de Tempos”, para publicação. Aqui, o Ângulo e Foco traz para vocês duas belas amostras do talento de Rodolfo da Costa e Silva Jr. – “Meu tempo” e “Bethânia”. Nelas, o poeta que se apresenta ao mundo literário – vocês vão concordar – demonstra que tem seu lugar na linguagem da tradução das emoções e sentimentos.
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POESIAS
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Meu tempo
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Tudo quieto em uma noite soturna, fria, embaçada.
Eu ali, modorrento, naquela rua tortuosa e parada.
Suas pedras lisas, grandes, disformes, manchadas
Definem mal minhas rotas, como na vida, incertas.
As folhas do silêncio perambulam com as lufadas
Nas calçadas do tempo: erráticas, precárias e desertas.
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Ladeiam a paisagem obscura, casas conjugadas e antigas.
São pobres, cinzas, degradadas e tortas na viela dançarina.
Um silêncio quase total acentua os sons de uma chuva fina.
As vozes do silêncio são calmas, úmidas, neutras e vagas.
Enquanto os ventos, sobre as calçadas desertas e disformes,
Movem as folhas secas chiadeiras que repicam delicadas.
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De repente, do nada, ratos guincham no lixo degradado
Alegrando a paisagem inóspita, sôfrega e quase morta.
Adrede, um gato faminto vigia-os da cumeeira do telhado.
Uma coruja atenta pia na estaca rústica, iluminada e torta,
Enquanto a ventania, insistente, uiva como lobos bravios
Arrastando folhas degradadas que vagam, é o tempo.
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Curvo-me espremido sobre meu corpo suado e sofrido.
Sei que esta solidão me trará felicidade, só ela pode.
Sinto cólicas, a fome esmaga o estômago. Inspiro.
Vida que tanto passou e pouco resta: minha trajetória.
Verte a vontade de chorar espiando os ratos, choro.
Folhas molhadas escorrem flácidas nas calçadas
Empurradas pela brisa intermitente, úmida que me esfria.
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Uma mulher geme de prazer em um leito ancho, quente.
Escutando a melodia, meu corpo amolecido a inveja.
Aproximo os ouvidos para entender tal ardor carente.
É de amor, sinto a cumplicidade da doce sinfonia.
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Viro-me, a luz acende, estico o corpo, a coruja me espia.
O vento frio, intruso, balança as velhas cortinas,
Folhas leves, amarelas, rotas plainam em harmonia.
Afasto-me, cuspo na sarjeta, tomo um trago, grito no vazio.
Tenho um prazer estranho nesta ilusão de frívola liberdade.
Não aspiro para mim as toscas culpas deste mundo,
Não quero carregar culpas nenhumas, nem as minhas.
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Quero apenas cambalear sem destino, acompanhado
De mim mesmo, do vento e seu tempo de sabedoria.
Quero ser folhas que flutuam nestas sábias calçadas
Marcadas por um tempo que pacifica minha utopia.
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Desço a ruela na parte mais retilínea. Sei o que ao fim da via
Me espera. Diante de mim, vejo o tempo, ao qual evito, todavia.
Tudo muda e se movimenta, balanço-me em minha história.
A brisa do tempo corta meu rosto, faz-me mais fortalecido.
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Gosto da sensação de estar agarrado neste ócio merecido.
É meu tempo. Olho as janelas com floreiras adormecidas.
Lufadas de vento aumentam ao chegar da aurora renovada,
Sorrio, as folhas, milhares delas, dançam ao raiar do dia.
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Rodolfo, quando deputado, em São Paulo.
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Bethânia
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Viajando em sonhos
Contemplava árvores
Pela varanda, o dia
Ainda insistia seco.
A tarde que dormia
Cobiçava os pardais
Em bandos barulhentos.
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Na mão, pipa de papel,
Linha, paixão e carretel
Pedindo emoção azul.
Um calor infernal
Espada cintilante
Na Vila ardente de Noel.
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O vento seduzia as árvores –
canção lenta de amor.
Eu, na cadeira de metal
Trançada em cordéis,
Pés libertos e alegres
No piso de lajota fria
De um ocre brilhoso.
Vigiava, vez ou outra,
O campinho de futebol
De terra batida: alegria.
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Algazarra, molecada, fantasia.
Éramos quatro e eu, o varão.
Ouvíamos emocionados,
Rock and Roll Lullaby.
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Eram meus catorze anos…
Diante de nuvens cinzentas
Os pardais se calavam,
Encorujados, trêmulos.
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O Sol se escondia, choroso.
Ventava, vento, ventava.
Ninhos sofridos caíam,
A vida virava morte, chão.
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Folhas frágeis flutuavam.
Elas enxugavam, tristes,
O sangue espalhado:
Porões, covardia, dor,
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Liberdade espancada,
Juventude transviada,
Asfalto escuro, soturno.
Cada mãe, um ninho vazio.
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Obscurantismo, violência.
Uma, que chora, um filho
A abraça na desilusão.
Rostos pesados.
Pânico,
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Liberdade, liberdade,
Revoada pelo mundo afora.
Eu voltava do colégio,
Quase pisoteado, gritaria,
Cavalos, barulho, terror.
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A mão me puxou, uma porta se fechou.
Silêncio. Eu chorava. Pavor.
Desaparecidos, horror,
Em nome do Senhor.
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Vira-latas delatores
Espalhados, ganindo.
Cães. Sangue nas mãos.
Irmão matando irmão
To serve another sir.
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Eram meus doze anos…
Pra frente Brasil!
Varanda colorida,
Criançada empolgada,
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Tv preto e branco,
O País parava na canção,
O Rei, o Jair e o Tostão.
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Um barulho danado,
Fantasia verde e amarela.
Todos nas ruas, emoção.
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A erva chegando,
A pátria vendida,
Tortura em alta.
Brasil tricampeão.
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Eram meus treze anos…
Nossa vitrola girando.
Minha mana carregava nas mãos
Um disco dos grandes,
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Uma palhaça na capa:
Brilhosa e engraçada.
Queria ouvir e eu não.
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A mais velha das quatro.
Insistiu: quem era eu pra
Dizer não: “Você vai gostar”.
Joguei pão para os pardais.
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O vento batia em sintonia.
Dei linha, voei, viajei,
Os pardais me vigiavam
A pipa balançava em alegria…
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“Drama.
E ao fim de cada ato,
limpo no pano de prato
As mãos sujas do sangue das canções…”
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O mundo parou, recolhi a pipa,
O vento, o pardal, o momento,
Desnorteado, embevecido, pasmo.
Que Deusa, que voz, “põe de novo.”
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Nasceu um amor de criança.
Nunca esquecido, guardado
No vento, no andar do menino,
No escorrer melífluo da vida,
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Na baianidade de Dona Canô.
Embalou-me no balanço da flor
No rodar daquele sorriso largo,
os cabelos longos e negros,
Que um dia seriam prateados,
E os pés descalços de Iemanjá.
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Menina de Oyá, minha paixão.
Na minha Mangueira. Emoção.
Aquela voz de algodão egípcio
Tomando o palco, tomando o ar
Na caminhada doce, pés divinos.
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Andou pela nação, pelo cantar,
Pelas dores da dura construção.
Eram seus vinte seis anos,
Eram meus quinze anos…
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O tempo voou
Com Aldir Blanc.
Do Chico vadio
Até a Xerém de Pagodinho,
Ela passeava pelos palcos.
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A sereia da Amazônia,
Rainha da MPB.
Na primeira manhã,
Em toda caminhada.
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Doeu na Proparoxítona
Dor de Pedro pedreiro
Caindo da construção.
Gemeu no espinho
Da rosa que feriu Zé,
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Mas continuamos
Caminhando e cantando
No sol de quase dezembro
Na Rosa dos ventos
Aqui e em Hiroshima
Com lenço e documento,
Canções feitas pra você,
No sol da pátria azul gentil.
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Minha musa, minha Deusa
De um jardim tão encantado
De mulheres gigantes
de agora e de dantes.
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Nem a magia de Bibi cantando
“Pode ser a Gota d´água”
Superou a cicatriz do coração vagabundo,
Deste menino travesso,
Deste admirador apaixonado,
Escutando teu canto
Em algum canto
de uma vida inteira.
Rodolfo Costa e Silva
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