SEGREGAÇÃO E ALERTA MUNDIAL

Aimé Césaire – Foto: Philippe Giraud
O Ângulo e Foco selecionou para a Poesia Dominical de hoje dois poetas bem diferentes, porém, muito semelhantes por suas características de denunciarem injustiças que persistem na Humanidade e, também, por apontarem caminhos para a Justiça entre os seres humanos. O primeiro é o poeta surrealista Aimé Cesaire, batalhador pela causa anticolonialista e lutador contra a discriminação racial; o segundo, o nosso bem conhecido Zé Ramalho, que criou peças poético-musicais em tom de alerta aos humanos, que se encaminham para o futuro, ainda, a esmo. Boa leitura! Além de ler, ouça a belíssima criação de Zé Ramalho, no final.
Aimé Cesaire é considerado o melhor poeta do surrealismo – falava grego, latim e era oriundo de uma família proletária na Martinica. Já foi chamado de “eterno Aimé Cesaire”. Formulou, pela primeira vez, o conceito de negritude, que definiu como uma “busca dramática” pela identidade negra.
Aimé Césaire nasceu em Basse-Pointe, Martinica, em 1913. Poeta, dramaturgo, ensaísta e político, fervoroso defensor das raízes africanas e militante anticolonialista, Césaire foi um dos escritores mais importantes do século XX.
Ainda jovem, chegou a Paris para fazer seus estudos, em 1931. Em 1934, fundou com outros estudantes o jornal L’étudiant noir [O estudante negro], onde lutou pela identidade negra. Em 1935, começou a escrever o Caderno de um Retorno ao País Natal, publicado em 1939, antes de voltar para a Martinica, onde se tornou professor de Letras e, alguns anos depois, entrou para a política.
Césaire foi eleito prefeito de Fort-de-France (1945-2001) e deputado da assembleia nacional francesa pelo Partido Comunista Francês (PCF). Em 1957, decepcionado com o PCF, que negligenciou questões antilhanas, fundou o Partido Progressista Martiniquês, pelo qual se manteve deputado até 1993. Ao mesmo tempo que trabalhou numa atividade política contínua, nunca se apartou de sua verve literária, publicando ininterruptamente ao longo da vida. Sua obra foi traduzida mundo afora. Morreu em Fort-de-France em 2008.
Leia a apresentação do seu último livro de poesias “Eu, Laminária…”:
“O não-tempo impõe ao tempo a tirania da sua espacialidade: em todas as vidas, há um norte e um sul, e o oriente e o ocidente. No ponto mais extremo, ou, pelo menos, no cruzamento, é a enfiada das estações sobrevoadas, a luta desigual da vida e da morte, do fervor e da lucidez, talvez até mesmo a do desespero e da nova queda, a força também de olhar sempre o amanhã. Assim vai toda e qualquer vida. Assim vai este livro, entre sol e sombra, entre montanha e mangue, no crepúsculo quando não se distinguem cão e lobo, claudicando e binário. Tempo também de dar cabo de algumas fantasias e alguns fantasmas”.
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POEMA DE AIMÉ CESAIRE
Nova Bondade
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está fora de questão entregar o mundo aos assassinos da aurora
. a vida-morte
. a morte-vida
os que desprezam o crepúsculo
as estradas pendem nos seus pescoços de esfoladores
como calçados novos demais
não pode tratar-se de derrota
só os painéis foram de noite escamoteados
quanto ao resto
corcéis que só deixaram sobre o solo
suas pegadas furiosas
focinhos retesados de sangue tragado
o desembainhar das facas da justiça
e dos cornos inspirados
dos pássaros vampiros cada bico iluminado
brincando com as aparências
mas também seios que amamentam rios
e as doces cabaças no côvado das mãos de oferenda
uma nova bondade cresce sem cessar no horizonte.
(Poema do livro “Eu, Laminária… Últimos Poemas”)

Aimé Cesaire, um lutador.
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Zé Ramalho. Foto: Silvio Tanaka-Wikipedia
O POETA ZÉ RAMALHO
Eis uma frase anônima sobre Zé Ramalho, que destaca seu espírito irrequieto: “A resistência surge das adversidades compartilhadas, fortalece a identidade coletiva e encontra na arte e na música um chamado à consciência, à esperança e à transformação social.”
Zé Ramalho, nascido José Ramalho Neto em 3 de outubro de 1949, é um renomado cantor e compositor brasileiro, conhecido por sua contribuição à música nordestina e popular brasileira. Nasceu em Brejo do Cruz, na Paraíba, e ficou órfão de pai aos dois anos, quando seu pai, Antônio de Pádua Ramalho, um seresteiro, faleceu afogado.
Foi criado por seus avós e, após se mudar para João Pessoa, começou a se interessar pela música, influenciado por artistas da Jovem Guarda e pelo rock internacional. Zé Ramalho chegou a cursar medicina na Universidade Federal da Paraíba, mas a música acabou se tornando sua verdadeira paixão.
Zé Ramalho começou sua carreira artística escrevendo versos de cordel e se apresentando em bandas locais. Em 1975, lançou seu primeiro disco, “Paebiru”, em parceria com Lula Côrtes, e logo se destacou na cena musical brasileira. Seu álbum de estreia solo, intitulado “Zé Ramalho”, foi lançado em 1977 e incluía sucessos como “Avôhai”, que homenageia seu avô, e “Chão de Giz”.
Estilo e Influências
A música de Zé Ramalho é uma fusão de rock, baião e música popular brasileira, com letras que frequentemente abordam temas sociais e culturais do Nordeste. Ele é conhecido por sua voz grave e letras poéticas, que instigam a curiosidade dos ouvintes. Ao longo de sua carreira, Zé Ramalho colaborou com diversos artistas renomados, como Raul Seixas, Alceu Valença e Elba Ramalho.
Zé Ramalho é considerado um dos grandes nomes da música brasileira, com uma carreira que se estende por mais de quatro décadas. Suas canções continuam a ressoar com o público, e ele ainda realiza shows por todo o Brasil, mantendo viva a rica tradição musical nordestina.
Hoje, ele é um ícone cultural que representa a luta e a beleza da vida nordestina, através de sua música.
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POEMA DE ZÉ RAMALHO
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A Terceira Lâmina
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É aquela que fere
Que virá mais tranquila
Com a fome do povo
Com pedaços da vida
Com a dura semente
Que se prende no fogo
De toda multidão
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Acho bem mais do que pedras na mão
Dos que vivem calados
Pendurados no tempo
Esquecendo os momentos
Na fundura do poço
Na garganta do fosso
Na voz de um cantador
.
E virá como guerra
A terceira mensagem
Na cabeça do homem
Aflição e coragem
Afastado da terra
Ele pensa na fera
Que o começa a devorar
.
Acho que os anos irão se passar
Com aquela certeza
Que teremos no olho
Novamente a ideia
De sairmos do poço
Da garganta do fosso
Na voz de um cantador
.
E virá como guerra
A terceira mensagem
Na cabeça do homem
Aflição e coragem
Afastado da terra
Ele pensa na fera
Que o começa a devorar
.
Acho que os anos irão se passar
Com aquela certeza
Que teremos no olho
Novamente a ideia
De sairmos do poço
Da garganta do fosso
Na voz de um cantador
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OUÇA O ÁUDIO

A Terceira Lâmina – composição de Zé Ramalho na voz de Gabi da Pele Preta
A música se encontra no disco de vinil “Forró do Mundo”, um álbum coletivo que apresenta oito vozes femininas, em versões contemporâneas de clássicos do forró. O projeto, produzido por Pupillo, inclui artistas como Assucena, Céu, Gabi da Pele Preta, Gaby Amarantos, Juliana Linhares, Luedji Luna, Mariana Aydar e Rachel Reis. O álbum revitaliza o gênero com beats atuais e releituras de músicas icônicas.
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Fontes: Recanto do Poeta,Templo Cultura Delfos, Wikipedia


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