O BAIANO DR. EDGAR DE CARVALHO – ENTREVISTA EXCLUSIVA

Na semana passada, o mundo ficou sabendo que esse baiano, de Salvador, foi apontado em pesquisa global como um dos cientistas mais influentes do mundo. Para nosso orgulho! Doenças tropicais como leishmaniose; ou as causadas pelo HTLV, – retrovírus que infecta células do sistema imunológico humano – que podem ser transmitidos por relações sexuais desprotegidas, amamentação e transfusões de sangue, são assuntos corriqueiros para o laureado e crítico cientista Edgar de Carvalho. Ele sempre dedica a maior parte de seu tempo para entender as causas e pesquisar a cura dessas doenças, que apresentam sintomas na pele, fraqueza muscular e perda do controle da urina. O Ângulo e Foco fez uma entrevista exclusiva com esse médico. Está aqui abaixo. Bom proveito!
Anúncio oficial do Reconhecimento
“O diretor do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Doenças Tropicais (INCT.DT), Edgar Marcelino de Carvalho, está entre os cientistas mais influentes do mundo, de acordo com o Ranking Research.com 2026, divulgado em janeiro.
“O ranking internacional avalia pesquisadores a partir de critérios rigorosos, como Índice H da disciplina, número de citações, impacto das publicações e contribuições científicas, em suas áreas de atuação.
“Esse reconhecimento reforça a excelência da pesquisa desenvolvida no âmbito do INCT.DT, pautada em três pilares fundamentais: Pesquisa com foco em intervenções práticas nas doenças tropicais; Formação de recursos humanos qualificados; e Transferência do conhecimento científico para a sociedade e as políticas públicas de saúde.
“A comunidade científica parabeniza Edgar M. Carvalho por essa conquista, que fortalece a ciência brasileira e amplia a visibilidade internacional do Instituto.”

O mosquito flebotomíneo, transmissor da leishmaniose.
A ENTREVISTA:
Vamos começar pedindo um resumo de sua (longa) trajetória de vida, formação, carreira e reconhecimentos institucionais, brasileiros e estrangeiros anteriores.
R – Nasci em Salvador, em 24/05/1950. Meu curso secundário foi realizado no Colégio de Aplicação da UFBA, que teve uma participação importante na minha formação cientifica e profissional. Concluí o Curso de Medicina, o Mestrado e o Doutorado em Medicina e Saúde na UFBA e, em 1973, realizei especialização em Imunologia Clínica e Reumatologia na Universidade da Virgínia nos EUA. O Pós-doutorado foi realizado na Weill Cornell Medical College, em Nova Iorque, em 1990 e 1991. Atualmente, sou Professor Titular de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da UFBA, Professor Titular de Imunologia da Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública, Professor Adjunto da University of Iowa e do Weill Cornell Medical College, nos Estados Unidos, e Professor Emérito da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Após a aposentadoria da UFBA e da Escola Bahiana, em 2014, ingressei por concurso no Instituto Gonçalo Moniz, FIOCRUZ Bahia.
Fui bolsista por cinco anos da Fundação Howard Hugges, e sou bolsista do CNPQ e da Fundação Maria Emília Pedreira Freire de Carvalho. Fui Presidente da Sociedade Brasileira de Imunologia, sou membro da Academia de Medicina da Bahia, da Academia Brasileira de Ciências e da American Society of Tropical Medicine e Hygiene.
Em 2005, recebi o título de comendador, na Ordem Nacional do Mérito Científico, pelo presidente da República; em 2009, a Medalha Tomé de Souza, concedida pela Câmara Municipal de Salvador; em 2018, o Prêmio Roberto Santos de Mérito Científico da FAPESB; em 2022, a Medalha Samuel Pessoa pela Sociedade Brasileira de Protozoologia e, em 2023, a Medalha de Mérito Científico Carlos Chagas, da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical.
Em 1982, criei o Serviço de Imunologia (SIM) na UFBA, um pólo irradiador de conhecimento reconhecido, em 1990, pelo National Institutes of Health (INIH) como um dos três Centros de Excelência em Medicina Tropical no Mundo e, em 2008, me tornei Coordenador do Instituto Nacional de Doenças Tropicais (INCT-DT).

Dr. Edgar numa palestra em Brasilia, em novembro de 2019.
Com quais principais trabalhos você se inseriu, em 2025, nas temáticas do INCT, levadas em conta pelo Ranking Research?
R – Os estudos das leishmanioses têm como foco determinar os mecanismos imunológicos, associados à proteção e à patologia das leishmanioses, como reduzir a transmissão da infecção para o homem, através do controle da leishmaniose canina, e identificar novas formas de tratamento para a doença.
A infecção pelo HTLV-1 causa uma mielopatia que limita e impede a deambulação e também a leucemia/linfoma de células T, mas, como somente 5% dos infectados desenvolvem essa complicação, a infecção é considerada de baixa morbidade. Nossos estudos têm documentado que mais de 70% dos indivíduos infectados apresentam doença, principalmente caracterizada por disfunção urinária, disfunção sexual e artropatias. Em 2025, utilizando a métrica da ressonância magnética da coluna lombar e torácica, documentamos que, mesmo na ausência de disfunção motora, a lesão medular na infecção pelo HTLV-1 já pode ser comprovada.
Você recebeu os resultados oficiais de seus índices nos critérios: Índice H da disciplina, número de citações, impacto das publicações e contribuições científicas em suas áreas de atuação? Quais foram seus índices?
R – Vide abaixo as informações com base nos dados do Scopus:
Indice H (O índice h é uma métrica que quantifica a produtividade e o impacto de um pesquisador com base no número de citações de seus artigos científicos): 44
Citações: 7.259
Colaboração internacional: 45,2%
Impacto: 70.4% (95 documentos)
Percentual de documentos no topo: 25% (Journals by CiteScore dos últimos 10 anos)
Como você divide seu tempo, no dia-a-dia?
R – Atualmente 60% com as atividades de pesquisa, 15% atividades de assistência, 5% com o ensino e 10% com lazer.
Em quais pesquisas, estudos e artigos está trabalhando, no momento?
R – Identificando células que são responsáveis pela persistência da infecção, causada pelas leishmanias e pelo vírus HTLV 1; a influência da obesidade na resposta imune e gravidade da leishmaniose tegumentar, no controle e tratamento das leishmanioses; e em uma vacina contra a esquistossomose.

Encontro de pesquisadores, em 2019.
Você tem filh@s? Algum segue sua carreira? Fale um pouco sobre esse legado e da profissão de sua esposa. Casou quando?
R – Meu pai era médico e professor e minha mãe era professora primária e diretora de uma escola de bairro, onde realizei meu curso primário. Com certeza que esse ambiente de ensino e da medicina, na minha infância, contribuíram para o meu interesse pelas atividades didáticas e científicas e espero que esse legado seja transferido a gerações. A pesquisa fascina, é estimulante, exige muita dedicação, mas não deve comprometer a família. Meu primeiro casamento foi em 1975 e dele resultaram Lucas, Rodolfo e Augusto que, além de filhos, hoje são companheiros e parceiros. Lucas e Augusto são professores da UFBA e cientistas, estudando a influência da obesidade e do envelhecimento na resposta imunológica. Em 2007, me casei com Lou, Maria de Lourdes Bastos, mais conhecida na Medicina e na Pneumologia como Lourdinha. Lou é uma mulher fantástica que participa ativamente da minha vida. Sua compreensão e seu constante estímulo contribuem, de forma ímpar, para o sucesso das minhas atividades científicas.

Trabalho em casa-de-farinha, em área de transmissão da leishmaniose.
O que você gosta de fazer, quando não está trabalhando? Fale um pouco sobre sua rotina diária.
R – Confesso que a minha facilidade em desligar e ligar “as tomadas” tem uma participação fundamental na minha vida. Quando acabo de trabalhar, me esqueço de tudo o que fiz e me transporto integralmente para a família, o lazer, a leitura, receber e conversar com amigos, dançar, assistir e praticar esportes.
Qual é a situação do Brasil no seu ramo de atuação?
R – O incentivo às atividades de pesquisa no Brasil se iniciou no século passado e evoluiu, de forma importante, com a criação de Conselhos, Institutos e Ministérios, voltados para a Ciência e Tecnologia, e com a criação dos Programas de Pós-graduação. Todavia, os incentivos para a pesquisa são os primeiros a serem afetados nas crises econômicas e administrativas, por isso, a formação de pesquisadores e docentes vem sendo prejudicada. Essa formação continua sendo principalmente prestada por Institutos e Universidades Federais e Estaduais, cujas estruturas físicas têm sido comprometidas e a qualidade do ensino vem sendo afetada, a passos largos. As instituições privadas, com raras exceções, são de péssima qualidade.
O que é o INCT-DT
O INCT/DT faz o mapeamento de marcadores de imunopatogênese de doenças tropicais, testes de novos fármacos, proteínas candidatas para o diagnóstico mais preciso e desenvolvimento de vacinas. Seu trabalho está focado nas doenças: leishmaniose, doença de chagas, esquistossomose, hanseníase e HTLV-1.

Painel interno do INCT-DT. Reprodução
—


Deixe uma resposta