O HOMEM QUE LANÇOU PERFUME E REVOLTA EM CUBA

Detalhe de um retrato de Jose Martí, por Jorge Arche, no Museo Nacional de Bellas Artes de Cuba.
José Martí, em “Páginas escolhidas”, escreveu: “Um grão de poesia basta para perfumar todo um século.” Ele mesmo seguiu sua constatação, semeando centenas desses ‘grãos’ pelo mundo. Reconhecido como o maior poeta de Cuba e um dos mais festejados em língua espanhola, Martí ocupa o lugar de destaque merecido na literatura mundial. O Ângulo e Foco, hoje, na nossa Poesia Dominical, dá destaque ao homem que sempre defendeu a independência de Cuba, sua terra natal. Soberania que, hoje, se vê ameaçada pela prepotência imperialista, mas resiste e resistirá, apoiada por nações amigas.
Filho de Mariano Martí, natural de Valência, e de Leonor Pérez Cabrera, natural de Tenerife, nas ilhas Canárias, o poeta Jose Martí foi o grande mártir da Independência de Cuba, em relação à Espanha. Além de poeta e pensador, desde sua mocidade demonstrou sua inquietude cívica e sua simpatia pelas ideias revolucionárias que gestavam entre os cubanos.
Influenciado pelas ideias de independência de Rafael María de Mendive, seu mestre na escola secundária de Havana, iniciou sua participação política, escrevendo e distribuindo jornais com conteúdo separatista, no início da Guerra dos Dez Anos. Com a prisão e deportação de seu mestre Mendive, cristalizou-se a atitude de rebeldia que Martí nutria contra a dominação espanhola.
Em 1869, com apenas dezesseis anos, publicou a folha impressa separatista “El Diablo Cojuelo” e o primeiro e único número da revista “La Patria Libre”. No mesmo ano, passou a distribuir um periódico manuscrito intitulado “El Siboney”. Pouco depois, foi preso e processado pelo governo espanhol, por estar de posse de papéis considerados revolucionários.
Foi condenado a seis anos de trabalhos forçados, mas passou somente seis meses na prisão. Em 1871, já com a saúde debilitada, sua família conseguiu um indulto e obteve a permuta da pena original pela deportação à Espanha. Na Espanha, Martí publicou, naquele mesmo ano, seu primeiro trabalho de importância: “El Presidio Político en Cuba”, no qual expôs as crueldades e os horrores vividos, no período em que esteve na prisão.
Nessa obra, já se encontravam presentes o idealismo e o estilo vigoroso que tornariam Martí conhecido nos círculos intelectuais de sua época. Mais tarde, dedicou-se ao estudo do Direito, obtendo o doutorado em Leis, Filosofia e Letras da Universidade de Saragoça, em 1874.
Em 19 de maio de 1895, no comando de um pequeno contingente de patriotas cubanos – após um encontro inesperado com tropas espanholas, nas proximidades do vilarejo de Dos Ríos – José Martí foi atingido e veio a falecer em seguida. Seu corpo, mutilado pelos soldados espanhóis, foi exibido à população e posteriormente sepultado na cidade de Santiago de Cuba, em 27 de maio do mesmo ano.

Marti. Foto restaurada por John Manuel.
POESIAS
.
Duas pátrias
Duas pátrias eu tenho: Cuba e a noite.
Ou as duas são uma? Nem bem retira
sua majestade o sol, com grandes véus
e um cravo à mão, silenciosa
Cuba qual viúva triste me aparece.
Eu sei qual é esse cravo sangrento
que na mão lhe estremece! Está vazio
meu peito, destruído está e vazio
onde estava o coração. Já é hora
de começar a morrer. A noite é boa
para dizer adeus. A luz estorva
a palavra humana. O universo
fala melhor que o homem.
.
Qual bandeira
que convida a batalhar, a chama rubra
das velas flameja. As janelas
abro, já encolhido em mim. Muda, rompendo
as folhas do cravo, como uma nuvem
que obscurece o céu, Cuba, viúva, passa. . .
–
Homens de mármore
.
Sonho com claustros de mármore
onde em silêncio divino
repousam heróis, de pé.
De noite, aos fulgores da alma,
falo com eles.
.
Estão em fila; passeio
por entre as filas; as mãos
de pedra lhes beijo; entreabrem
os olhos de pedra; movem
os lábios de pedra; tremem
as barbas de pedra; choram;
vibra a espada na bainha!
.
Calado, lhes beijo as mãos.
Falo com eles, de noite.
Estão em fila; passeio
por entre as filas; choroso
me abraço a um mármore.
.
“Ó mármore,
dizem que bebem teus filhos
o próprio sangue nas taças
envenenadas dos déspotas!
Que falam a língua torpe
dos libertinos! Que comem
reunidos o pão do opróbrio
na mesa tinta de sangue!
.
Que gastam em parolagem
as últimas fibras! Dizem,
ó mármore adormecido,
que tua raça está morta!
.
Atira-me à terra súbito,
esse herói que abraço; agarra-me
o pescoço; varre a terra
com meus cabelos; levanta
o braço; fulge-lhe o braço
semelhante a um sol; ressoa
a pedra; buscam a cinta
as mãos diáfanas; da peanha
saltam os homens de mármore!
—
Fontes: “Henriqueta Lisboa: poesia traduzida” – Belo Horizonte; Revista Prosa e Verso (tradução Olga Savary); e José Martí – Poesia completa. Madrid: Alianza Editorial.


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