POESIA DOMINICAL-MANOEL DE BARROS

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Manoel de Barros. Foto: BahiaNoAr.

Manoel Wenceslau Leite de Barros foi um renomado poeta brasileiro – conhecido por um estilo que celebra o cotidiano e as belezas do simples – que nasceu e morreu em Cuiabá, no Mato Grosso (19/12/1916 – 13/11/2014). Sua obra é considerada pertencente à terceira geração do modernismo (a conhecida Geração de 45). Manoel de Barros deixou um legado significativo na literatura brasileira, sendo reconhecido por sua originalidade e profundidade poética. Sua obra continua a inspirar novas gerações de leitores e escritores, e ele é frequentemente lembrado como um dos grandes nomes da poesia brasileira do século XX.

A infância do poeta foi toda passada em uma fazenda no Pantanal, local onde seu pai, João Venceslau Barros, tinha uma propriedade. Durante a adolescência, Manoel mudou para Campo Grande onde estudou em um Colégio Interno. Seu primeiro livro foi publicado em 1937 (Poemas Concebidos Sem Pecados). Logo, se mudou para o Rio de Janeiro para cursar Direito e se formou em 1941. Nessa mesma época se filiou ao Partido Comunista.

Com fome de novas vivências, Manoel viveu Nos Estados Unidos, na Bolívia e no Peru. No princípio dos anos sessenta, resolveu regressar para a fazenda que tinha no Pantanal para criar gado. Em paralelo com as atividades rurais, nunca deixou de escrever e começou a ser consagrado pela crítica a partir dos anos oitenta. O escritor recebeu duas vezes o Prêmio Jabuti: em 1989 com o livro “O guardador de águas” e, em 2002, com “O fazedor de amanhecer”.

A obra de Manoel de Barros é marcada por uma linguagem simples e direta, que busca capturar a essência do cotidiano e a beleza do que é pequeno e aparentemente insignificante. Ele frequentemente utilizava neologismos e fragmentação em sua escrita, refletindo uma visão única do mundo ao seu redor. Sua poesia é um mergulho no universo interior e nas belezas escondidas do cotidiano, celebrando a natureza e a simplicidade da vida.

É considerado um dos maiores poetas brasileiros contemporâneos. Entre suas obras mais conhecidas estão: “O Livro das Ignorâncias”, “O Guardador de Águas” (1989), “Livro sobre Nada” (1996) e “O Fazedor de Amanhecer” (2002). Esses livros são apreciados, tanto pelo público geral quanto pela crítica acadêmica, e muitos de seus poemas são estudados e analisados em escolas e universidades.

Manoel de Barros sempre preferiu a vida no campo. Foto:FocusPortalCultural

POESIAS

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Bocó

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Quando o moço estava a catar caracóis e pedrinhas

na beira do rio até duas horas da tarde, ali

também Nhá Velina Cuê estava. A velha paraguaia

de ver aquele moço a catar caracóis na beira do

rio até duas horas da tarde, balançou a cabeça

de um lado para o outro ao gesto de quem estivesse

com pena do moço, e disse a palavra bocó. O moço

ouviu a palavra bocó e foi para casa correndo

a ver nos seus trinta e dois dicionários que coisa

era ser bocó. Achou cerca de nove expressões que

sugeriam símiles a tonto. E se riu de gostar. E

separou para ele os nove símiles. Tais: Bocó é

sempre alguém acrescentado de criança. Bocó é

uma exceção de árvore. Bocó é um que gosta de

conversar bobagens profundas com as águas. Bocó

é aquele que fala sempre com sotaque das suas

origens. É sempre alguém obscuro de mosca. É

alguém que constrói sua casa com pouco cisco.

É um que descobriu que as tardes fazem parte de

haver beleza nos pássaros. Bocó é aquele que

olhando para o chão enxerga um verme sendo-o.

Bocó é uma espécie de sânie com alvoradas. Foi

o que o moço colheu em seus trinta e dois

dicionários. E ele se estimou.

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Poema

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A poesia está guardada nas palavras — é tudo que eu sei.

Meu fado é o de não saber quase tudo.

Sobre o nada eu tenho profundidades.

Não tenho conexões com a realidade.

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Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.

Para mim poderoso é aquele que descobre as

insignificâncias (do mundo e as nossas).

Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.

Fiquei emocionado e chorei.

Sou fraco para elogios.

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Uma didática da invenção

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O rio que fazia uma volta

atrás da nossa casa

era a imagem de um vidro mole…

.

Passou um homem e disse:

Essa volta que o rio faz…

se chama enseada…

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Não era mais a imagem de uma cobra de vidro

que fazia uma volta atrás da casa.

Era uma enseada.

Acho que o nome empobreceu a imagem.

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O fotógrafo

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Difícil fotografar o silêncio.

Entretanto tentei. Eu conto:

Madrugada a minha aldeia estava morta.

Não se ouvia um barulho, ninguém passava entre as casas.

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Eu estava saindo de uma festa.

Eram quase quatro da manhã.

Ia o Silêncio pela rua carregando um bêbado.

Preparei minha máquina.

.

O silêncio era um carregador?

Estava carregando o bêbado.

Fotografei esse carregador.

Tive outras visões naquela madrugada.

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Preparei minha máquina de novo.

Tinha um perfume de jasmim no beiral de um sobrado.

Fotografei o perfume.

Vi uma lesma pregada na existência mais do que na

pedra.

Fotografei a existência dela.

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Vi ainda um azul-perdão no olho de um mendigo.

Fotografei o perdão.

Olhei uma paisagem velha a desabar sobre uma casa.

Fotografei o sobre.

Foi difícil fotografar o sobre.

.

Por fim eu enxerguei a ‘Nuvem de calça’.

Representou para mim que ela andava na aldeia de

braços com Maiakowski – seu criador.

Fotografei a ‘Nuvem de calça’ e o poeta.

Ninguém outro poeta no mundo faria uma roupa

mais justa para cobrir a sua noiva.

A foto saiu legal.

Fontes: Cultura Genial e Wikipedia

2 respostas a “POESIA DOMINICAL-MANOEL DE BARROS”

  1. Avatar de Monica Cardim
    Monica Cardim

    Parece pequenos contos. Muito bom!

  2. Avatar de heroic0573c510b4
    heroic0573c510b4

    Genial esse poeta!!

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