

Hilda brinca de balanço. Foto: Cultura Genial.
Nesta nossa Poesia Dominical, o destaque vai, hoje, para a poetisa Hilda Hilst (1930-2004), uma das mais importantes escritoras brasileiras do século XX, reconhecida por sua obra inovadora e provocativa. Ainda que seu foco tenha sido o século passado, sua inspiração e sensibilidade política aguçada avançam por esse novo século. Quem sabe, hoje, toque o coração de líderes, dos homens de bem e daqueles que podem se tornar um deles. Vamos conhecer, um pouco, da vida, da formação e da inspirada poesia de Hilda Hilst.
Hilda de Almeida Prado Hilst nasceu em 21 de abril de 1930, em Jaú, São Paulo. Filha de Apolônio de Almeida Prado Hilst, um fazendeiro de café e jornalista, e de Bedecilda Vaz Cardoso, uma imigrante portuguesa, Hilda teve sua infância marcada pela separação dos pais, em 1932, o que a levou a se mudar com a mãe para Santos. Em 1948, formou-se em Direito pela Universidade de São Paulo, mas exerceu a profissão apenas por um ano, decidindo dedicar-se exclusivamente à literatura.
Hilda estreou na literatura com o livro de poesias “Presságio”, em 1950. Ao longo de sua carreira, publicou diversas obras, incluindo poesia, prosa e teatro. Sua criação é caracterizada por temas como misticismo, insanidade, erotismo, libertação sexual feminina e consciência política, refletindo uma profunda inquietação existencial. Ela foi influenciada por autores como James Joyce e Samuel Beckett, o que se reflete em suas técnicas literárias, como o fluxo de consciência.
Entre suas obras mais conhecidas estão “A Obscena Senhora D”, “O Caderno Rosa de Lori Lamby” e “A Paixão Segundo G.H.”. Hilda também se destacou por seu estilo ousado e pela habilidade de mesclar poesia e prosa, criando textos que são ao mesmo tempo líricos e filosóficos.
Hilda Hilst faleceu em 4 de fevereiro de 2004, em Campinas, deixando um legado significativo na literatura brasileira. Ela é considerada uma das maiores escritoras em língua portuguesa do século XX; suas obras continuam a ser estudadas e admiradas por sua profundidade e inovação.
Hilda Hilst permanece como uma figura central na literatura brasileira e sua obra é um testemunho da complexidade da experiência humana, na busca por significado em um mundo muitas vezes caótico.
Em sua poética, foi muito além do amor. Aproveitou para usar seus poemas como meio de mostrar o seu descontentamento com os governantes da época.

Hilda Hilst. Foto Biblioteca São Paulo
POESIAS
Poema aos Homens do nosso tempo
Amada vida, minha morte demora.
Dizer que coisa ao homem,
Propor que viagem? Reis, ministros
E todos vós, políticos,
Que palavra além de ouro e treva
Fica em vossos ouvidos?
Além de vossa RAPACIDADE
O que sabeis
Da alma dos homens?
Ouro, conquista, lucro, logro
E os nossos ossos
E o sangue das gentes
E a vida dos homens
Entre os vossos dentes.
Ao teu encontro, Homem do meu tempo,
E à espera de que tu prevaleças
À rosácea de fogo, ao ódio, às guerras,
Te cantarei infinitamente à espera de que um dia te conheças
E convides o poeta e a todos esses amantes da palavra, e os outros,
Alquimistas, a se sentarem contigo à tua mesa.
As coisas serão simples e redondas, justas. Te cantarei
Minha própria rudeza e o difícil de antes,
Aparências, o amor dilacerado dos homens
Meu próprio amor que é o teu
O mistério dos rios, da terra, da semente.
Te cantarei Aquele que me fez poeta e que me prometeu
Compaixão e ternura e paz na Terra
Se ainda encontrasse em ti, o que te deu.
—
Lobos? São muitos.
Mas tu podes ainda
A palavra na língua
Aquietá-los.
Mortos? O mundo.
Mas podes acordá-lo
Sortilégio de vida
Na palavra escrita.
Lúcidos? São poucos.
Mas se farão milhares
Se à lucidez dos poucos
Te juntares.
Raros? Teus preclaros amigos.
E tu mesmo, raro.
Se nas coisas que digo
Acreditares.
—
Fontes: eBiografia, UOL


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