NUM TEMPO DE TANTAS GUERRAS

Paz ou guerra? Imagem: I.A. Ângulo e Foco.
Nosso mundo está em chamas. O recente bombardeio americo-sionista ao Irã, somado à recente escaramuça entre o Paquistão e Afeganistão, a guerra entre Israel e Hamas, o conflito Azerbaijão x Armênia, a guerra Rússia x Ucrânia, a guerra da Síria e a guerra civil no Iêmen, dão uma ideia resumida do panorama. Vários outros conflitos e ameaças do Trompete em andamento cruel, lutas internas nos países, entre milícias, terroristas e governos constituídos, se somam ao quadro dantesco em que vive a humanidade terrestre. Por oportuno, neste domingo de Poesia, o Ângulo e Foco traz para os queridos leitores quatro poemas de poetas pacifistas – sendo dois militares – sobre o tema Paz e Guerra. Boa leitura (e reflexão).
Os quatro belos poemas sobre paz e guerra, selecionados por sua ótica pacifista, abordam a guerra e a paz com profundidade e sensibilidade. Esses versos revelam o impacto humano da guerra e a esperança por um mundo mais justo e pacífico.
Escolhemos os seguintes poetas: Siegfried Sassoon – “Suicídio nas Trincheiras” – no qual denuncia a glorificação da guerra e do sofrimento dos soldados; Wilfred Owen “Doce e Honroso É” que ironiza o lema patriótico, revelando o horror da guerra; e Gloria Fuertes – “A guerra” e “A Garra da Guerra”, em que usa linguagem simples para mostrar a crueldade da guerra às crianças. Trabalhos que revelam o tom crítico e sensível dos autores, o absurdo da guerra e a urgência da paz.
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SIEGFRIED SASSOON (1886–1967)
Poeta britânico e oficial do exército na Primeira Guerra Mundial. Inicialmente patriótico, tornou-se um crítico feroz da guerra após vivenciar seu horror. Seus poemas revelam o sofrimento dos soldados e a hipocrisia dos líderes, em obras como “Contra-ataque” e “Memórias de um Oficial de Infantaria”. Recebeu reconhecimento por sua coragem literária e influência no movimento pacifista. Após a guerra, converteu-se ao catolicismo e viveu recluso. Sua obra influenciou gerações de poetas e historiadores.
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Poesia de Siegfried Sassoon
“Suicídio nas Trincheiras”
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Eu conheci um jovem soldado simples
Que sorria para a vida com alegria vazia,
Dormia tranquilo na escuridão solitária,
E assobiava cedo com a chegada da cotovia.
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Nas trincheiras de inverno, abatido e sombrio,
Com bombas, piolhos e falta de rum,
Ele pôs uma bala em seu cérebro.
Ninguém mais falou dele.
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Vocês, multidões de rostos arrogantes e olhos em brasa
Que aplaudem quando jovens soldados marcham,
Voltem para casa e rezem para nunca conhecer
O inferno onde juventude e riso desaparecem.
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WILFRED OWEN (1893–1918)
Poeta inglês, também combatente na Primeira Guerra Mundial. Conhecido por sua poesia visceral e compassiva, que retrata o trauma dos soldados. Morreu em combate uma semana antes do armistício. Seu poema mais famoso, “Dulce et Decorum Est”, é um ícone da literatura pacifista. Owen acreditava que o papel do poeta era dizer a verdade sobre a guerra. Sua obra foi publicada postumamente por Siegfried Sassoon. É considerado um dos maiores poetas de guerra da língua inglesa.
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Poesia de Wilfred Owen
“Doce e Honroso É”
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Curvados, como velhos mendigos sob sacos,
Pernas bambas, tossindo como bruxas, amaldiçoávamos na lama,
Até que, sob os clarões, viramos as costas
E começamos a marchar rumo ao descanso distante.
Homens marchavam dormindo. Muitos sem botas,
Mancavam, com pés ensanguentados. Todos coxos; todos cegos;
Bêbados de cansaço; surdos até aos uivos
Das bombas de gás caindo suavemente atrás.
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Gás! GÁS! Rápido, rapazes! — Um frenesi de movimentos
Ajustando os capacetes desajeitados a tempo;
Mas alguém ainda gritava e tropeçava
E se debatia como um homem em fogo ou cal. —
Vago através dos vidros embaçados e luz verde espessa,
Como sob um mar verde, eu o vi se afogando.
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Em todos os meus sonhos, diante da minha visão impotente,
Ele mergulha em mim, sufocando, engasgando, afogando.
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Se em sonhos sufocantes você também pudesse andar
Atrás do carro onde o jogamos,
E ver os olhos brancos se contorcendo em seu rosto,
Seu rosto pendente, como o de um demônio enjoado de pecado;
Se você pudesse ouvir, a cada solavanco, o sangue
Borbulhando dos pulmões corrompidos pela espuma,
Obsceno como câncer, amargo como o vômito
De feridas incuráveis em línguas inocentes —
Meu amigo, você não contaria com tanto entusiasmo
A crianças ávidas por alguma glória desesperada,
A velha mentira: Dulce et decorum est
Pro patria mori.
(Doce e honroso é morrer pela pátria.)
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GLORIA FUERTES (1917–1998)
Poetisa espanhola, defensora da paz e da educação infantil. Escreveu para crianças e adultos, com estilo direto e humanista. Participou do movimento pós-guerra na Espanha, promovendo valores pacifistas. Sua obra mistura humor, ternura e crítica social. Foi presença constante na televisão educativa espanhola. Lutou contra o machismo e a desigualdade. Seu legado é celebrado por sua contribuição à literatura infantil e à cultura da paz, por sua crítica à forma como a guerra é romantizada ou banalizada, especialmente para crianças.
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Poesia de Gloria Fuertes
“A Garra da Guerra“
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Há
que dizer o que há que dizer
logo
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de repente
visceral
do
tronco;
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Com
o mínimo de palavras possíveis
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que
tornem possíveis os impossíveis
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é preciso
falar pouco e dizer muito
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é preciso
fazer muito
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e que
nos pareça pouco:
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arrancar
o gatilho das armas
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por
exemplo.
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“A guerra” – Gloria Fuertes
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A guerra é um monstro
com cara de brinquedo.
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A guerra é um brinquedo
com cara de monstro.
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A guerra é um monstro
que brinca com a gente.
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A guerra é um brinquedo
que nos destrói sorrindo.
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