HOMENAGEM AO DIA INTERNACIONAL DA MULHER


Foto: A Casa Velha da Ponte, onde viveu Cora Coralina, na cidade de Goiás.
Passados sete dias de recesso – por conta de luto pela mulher deste Editor, Cristina – o Ângulo e Foco regressa com uma homenagem ao Dia da Mulher, celebrado a 8 de Março. As estimativas mais recentes indicam que elas são cerca de 3,9 bilhões no mundo, representando aproximadamente 49,6% da população global. No Brasil, de acordo com o Censo Demográfico de 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a população brasileira é composta por aproximadamente 104,5 milhões de mulheres e 98,5 milhões de homens. O dia 8 foi instituído pelas Nações Unidas em 1975, como Dia Internacional das Mulheres. Atualmente, a data é comemorada em mais de 100 países, como um dia de protesto por direitos ou de celebração do feminino. O Governo do Estado da Bahia instituiu o Março Mulher, para homenageá-las, estabelecendo ações de fortalecimento das políticas públicas para as mulheres, durante este mês, ampliando iniciativas de cuidado com a saúde, enfrentamento à violência e geração de oportunidades. O Ângulo e Foco escolheu como representante das mulheres, nesta Poesia Dominical, a fundamental poetisa brasileira Cora Coralina.
Ana Lins dos Guimarães Peixoto nasceu em 20 de agosto de 1889, na Cidade de Goiás, Província de Goiás, no tempo do Império. Viveu 95 anos e faleceu, de pneumonia, em 10 de abril de 1985. Este era o nome de batismo da poeta Cora Coralina, uma brasileira que começou a publicar os seus trabalhos quando tinha 76 anos. Casou-se com Cantídio Tolentino Bretas (1911–1934).
Sua casa na Cidade de Goiás foi transformada num museu, em homenagem à sua história de vida e produção literária. No ambiente literário, é considerado espantoso como uma mulher que cursou até a terceira série do curso primário tenha criado versos tão preciosos.
Ganhava a vida como doceira, enquanto levava a escrita como um hobby paralelo. A poeta chegou a ser convidada para participar da Semana de Arte Moderna, mas seu marido não permitiu que comparecesse.
Sua poética é baseada numa escrita do cotidiano, das miudezas, e é caracterizada por uma delicadeza e por uma sabedoria de quem passou pela vida e observou cada detalhe do caminho. Em resumo: a lírica de Cora é impregnada da sua própria história.
Apesar do início tardio na carreira literária, Cora Coralina é dona de uma produção consistente e tornou-se uma das mais celebradas poetas do país. Seus versos ganharam fãs mundo afora e a lírica goiana, sutil e ao mesmo tempo poderosa, vem sendo cada vez mais divulgada.

POESIAS – CORA CORALINA
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Conclusões de Aninha
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Estavam ali parados. Marido e mulher.
Esperavam o carro. E foi que veio aquela da roça
tímida, humilde, sofrida.
Contou que o fogo, lá longe, tinha queimado seu rancho,
e tudo que tinha dentro.
Estava ali no comércio pedindo um auxílio para levantar
novo rancho e comprar suas pobrezinhas.
O homem ouviu. Abriu a carteira tirou uma cédula,
entregou sem palavra.
A mulher ouviu. Perguntou, indagou, especulou, aconselhou,
se comoveu e disse que Nossa Senhora havia de ajudar
E não abriu a bolsa.
Qual dos dois ajudou mais?
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Ofertas de Aninha (Aos moços)
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Eu sou aquela mulher
a quem o tempo
muito ensinou.
Ensinou a amar a vida.
Não desistir da luta.
Recomeçar na derrota.
Renunciar a palavras e pensamentos negativos.
Acreditar nos valores humanos.
Ser otimista.
Creio numa força imanente
que vai ligando a família humana
numa corrente luminosa
de fraternidade universal.
Creio na solidariedade humana.
Creio na superação dos erros
e angústias do presente.
Acredito nos moços.
Exalto sua confiança,
generosidade e idealismo.
Creio nos milagres da ciência
e na descoberta de uma profilaxia
futura dos erros e violências
do presente.
Aprendi que mais vale lutar
do que recolher dinheiro fácil.
Antes acreditar do que duvidar.

Detalhes na fachada do casarão de Cora Coralina, em Goiás.
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Todas as Vidas
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Vive dentro de mim
uma cabocla velha
de mau-olhado,
acocorada ao pé do borralho,
olhando para o fogo.
Benze quebranto.
Bota feitiço…
Ogum. Orixá.
Macumba, terreiro.
Ogã, pai de santo…
Vive dentro de mim
a lavadeira do Rio Vermelho.
Seu cheiro gostoso
d’água e sabão.
Rodilha de pano.
Trouxa de roupa,
pedra de anil.
Sua coroa verde de são-caetano.
Vive dentro de mim
a mulher cozinheira.
Pimenta e cebola.
Quitute benfeito.
Panela de barro.
Taipa de lenha.
Cozinha antiga
toda pretinha.
Bem cacheada de picumã.
Pedra pontuda.
Cumbuco de coco.
Pisando alho-sal.
Vive dentro de mim
a mulher do povo.
Bem proletária.
Bem linguaruda,
desabusada, sem preconceitos,
de casca-grossa,
de chinelinha,
e filharada.
Vive dentro de mim
a mulher roceira.
– Enxerto da terra,
meio casmurra.
Trabalhadeira.
Madrugadeira.
Analfabeta.
De pé no chão.
Bem parideira.
Bem criadeira.
Seus doze filhos
Seus vinte netos.
Vive dentro de mim
a mulher da vida.
Minha irmãzinha…
Fingindo alegre seu triste fado.
Todas as vidas dentro de mim:
Na minha vida –
a vida mera das obscuras.
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Cora Coralina, Quem É Você?
.
Sou mulher como outra qualquer.
Venho do século passado
e trago comigo todas as idades.
Nasci numa rebaixa de serra
entre serras e morros.
“Longe de todos os lugares”.
Numa cidade de onde levaram
o ouro e deixaram as pedras.
Junto a estas decorreram
a minha infância e adolescência.
Aos meus anseios respondiam
as escarpas agrestes.
E eu fechada dentro da imensa serrania
que se azulava na distância
longínqua.
Numa ânsia de vida eu abria
o voo nas asas impossíveis
do sonho.
Venho do século passado.
Pertenço a uma geração
ponte, entre a libertação
dos escravos e o trabalhador livre.
Entre a monarquia
caída e a república
que se instalava.
Todo o ranço do passado era
presente.
A brutalidade, a incompreensão,
a ignorância, o carrancismo.
—
Fontes: Cultura Genial, Wikipedia, IBGE



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