ESPERANÇA EM NOVAS TERAPIAS E MUTIRÃO NA CHAPADA


Ritmo intenso no Mutirão da Chapada. Foto: Leonardo Rattes/Ascom-SesabBA
Lutar contra a mortalidade causada pelo câncer tem sido um dos maiores desafios da Medicina moderna. Quem é que não teve um parente ou amigo, vitimado por essa doença cruel? Encarando o problema de frente, a Bahia realizou, este mês, com grande sucesso, um mutirão para localizar e tratar o câncer colorretal na população da Chapada Diamantina. Pesquisadores brasileiros e estrangeiros se debruçam profundamente na busca de novos tratamentos para os diversos tipos de câncer que assolam a humanidade moderna. O Ângulo e Foco traz aqui, para @s querid@s leitores, duas grandes novidades, capazes de vencer essa batalha.
O Hospital Regional da Chapada liderou, este mês, um dos maiores mutirões de rastreamento do câncer colorretal do Brasil. O Hospital, unidade da Secretaria da Saúde do Estado (Sesab), em Seabra, está sendo o centro de uma das maiores ações de rastreamento do câncer colorretal já realizadas no país.
A iniciativa, uma parceria entre a Secretaria Estadual de Saúde, Sociedade Brasileira de Endoscopia Digestiva (Sobed), Sociedade Brasileira de Coloproctologia (SBCP) e Federação Brasileira de Gastroenterologia (FBG), integra a campanha Março Azul, dedicada à conscientização e à prevenção do câncer colorretal.
Durante a ação, iniciada dia 1º, foram realizadas cerca de 500 colonoscopias. Até o dia 6 de março, último dia do mutirão, o evento reuniu mais de 200 profissionais de saúde e voluntários de todo o Brasil, incluindo 70 médicos especialistas.
Estratégia deu certo
A preparação começou antes mesmo do início dos procedimentos. Primeiro, a população da região, com idades entre 45 e 70 anos, realizou o exame FIT (teste imunológico fecal), utilizado para detectar sangue oculto nas fezes. Os resultados positivos foram sendo encaminhados para triagem e posterior realização da colonoscopia, durante o mutirão. A iniciativa foi direcionada a pacientes previamente identificados. Para viabilizar a triagem, foram distribuídos mais de 8 mil kits de coleta.
Durante os seis dias de campanha, o hospital contou com estrutura reforçada, usando seis torres de vídeo de alta definição, cada uma equipada com três aparelhos de colonoscopia, totalizando 18 equipamentos em funcionamento simultâneo. A ação também utilizou bisturis elétricos, de tecnologia alemã, dedicados exclusivamente aos procedimentos, assegurando precisão e segurança.
Todo o material coletado foi encaminhado para análise histopatológica. Pacientes com diagnóstico de doença avançada, indicação cirúrgica ou necessidade de acompanhamento especializado foram direcionados a hospitais de referência.
O subsecretário da Saúde do Estado, Paulo Barbosa, que acompanhou a ação, destacou que a iniciativa integra um processo de sensibilização para a prevenção do câncer colorretal: “Além da conscientização, temos uma ação concreta na identificação de casos de câncer ou de lesões suspeitas” – revelou.

Câncer colorretal.
A moradora de Ibicoara, Tânia Regina de Oliveira, foi uma das beneficiadas: “Tinha indicação para fazer o exame. Esse mutirão facilitou, pois consegui fazer em um menor tempo. Cuidar da saúde é muito importante para que consiga viver mais e melhor”, afirmou.
Além da assistência direta à população, o mutirão também deixou um legado científico e educacional. Estudantes de medicina auxiliaram na coleta de dados para a produção de trabalhos científicos. À noite, a programação incluiu seminários voltados à população, agentes comunitários de saúde e médicos da região, ampliando o alcance da informação e fortalecendo a prevenção.
O presidente da Sobed, Eduardo Guimarães explicou: “É impossível fazer qualquer ação dessa sem a parceria com o Estado e o Município. Contamos com o trabalho dos agentes comunitários de saúde e também de toda equipe do hospital. Essa é a ação que tem dado maior resultado no rastreamento do câncer colorretal. Conseguimos identificar pacientes com uma lesão inicial que poderia evoluir para um câncer”.
Mais de mil mortes por ano na Bahia
De acordo com dados disponíveis no Sistema de Informação sobre Mortalidade, na Bahia, no ano de 2025, 1.184 pessoas foram a óbito, causado por câncer colorretal. Em 2024, foram 1.204 mortes. A neoplasia ocasionou 3.538 internações, em 2025, e 3.520 em 2024.
Se não for intensificado o combate, a mortalidade por câncer colorretal deve crescer 36,3% nos próximos 15 anos no país, segundo o 9º volume do boletim da Fundação do Câncer. O aumento dos óbitos entre os homens poderá chegar a 35% até 2040 e, entre as mulheres, a 37,63%. Apesar dessas péssimas previsões, o diagnóstico precoce – como a Bahia está fazendo – altera significativamente o cenário. Quando identificado em fase inicial, o câncer colorretal apresenta taxa de cura superior a 90%.

Imagem: Trajetoriatop.
Cura do câncer chega no Brasil
A excelente jornalista Rita Costa Vedolin nos traz uma excelente notícia: O Brasil acaba de escrever um dos capítulos mais importantes da oncologia mundial. Pesquisadores do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, desenvolveram uma versão 100% nacional da revolucionária terapia CAR-T Cell e alcançaram resultados impressionantes: a remissão completa (desaparecimento total dos sinais da doença) em 72% dos pacientes tratados. São pessoas com linfomas e leucemias agressivas, que já haviam passado por quimioterapia, radioterapia e transplante de medula sem sucesso, e que basicamente não tinham mais opções terapêuticas.
A terapia utilizada CAR-T parece de ficção científica: os médicos coletam as células de defesa do próprio paciente (linfócitos T), levam para o laboratório e as modificam geneticamente para que elas “aprendam” a reconhecer e atacar o tumor específico. Quando reintroduzidas no corpo, essas células agem como um exército de elite teleguiado, caçando o câncer onde quer que ele esteja.
A grande inovação brasileira foi dominar todo esse ciclo de produção localmente. Nos EUA, um tratamento desses custa cerca de US$ 400 mil (mais de R$ 2 milhões). A versão brasileira, aprovada pela Anvisa para estudo clínico, tem custo infinitamente menor e eficácia idêntica.
Além de ser um avanço da ciência, significa soberania nacional e justiça social. O sucesso do estudo abre perspectiva para que essa tecnologia de ponta seja, no futuro, incorporada ao SUS, democratizando a cura para milhares de brasileiros que hoje morrem na fila de espera. O Brasil, mais uma vez, comprova que não precisa importar milagres; somos capazes de fazê-los aqui mesmo, com nossos laboratórios e nossos cérebros.

Placa de Petri com uma cultura de Clostridium sporogenes.
Bactérias devoram o câncer
Cientistas da Universidade de Waterloo criaram uma bactéria que derrota o câncer devorando os tumores (de dentro para fora). Uma bactéria comum, do solo, alterada geneticamente, consegue identificar automaticamente um ambiente com excesso de nutrientes e sem oxigénio – sinal de presença de um tumor – e começar a “comer” esses nutrientes, destruindo o tumor.
O funcionamento parece simples, mas não é bem assim: O chamado quorum sensing funciona como uma espécie de recenseamento bacteriano automático. Cada célula individual liberta um sinal químico ao qual ela própria também é sensível, explica o laboratório Nautilus. Quando esse sinal atinge, no meio envolvente, uma concentração que indica a presença de um número significativo de bactérias, a expressão genética altera-se.
Investigadores da University of Waterloo recorreram recentemente a esse mecanismo de quorum sensing na tentativa de transformar uma bactéria comum, o Clostridium sporogenes, num tratamento eficaz contra o câncer, fazendo ela “comer” os tumores. Os resultados do seu estudo foram recentemente apresentados num artigo publicado na ACS Synthetic Biology.
Em comunicado oficial, o engenheiro químico Marc Aucoin, co-autor do estudo, explica: “Os esporos bacterianos entram no tumor, onde encontram um ambiente com muitos nutrientes e sem oxigénio, que é precisamente o que este organismo prefere, e começam então a consumir esses nutrientes e a crescer. Assim, passamos a colonizar esse espaço central e a bactéria liberta o organismo do tumor”, acrescenta o investigador.
Durante a pesquisa, surgiram problemas, mas foram contornados: O C. sporogenes é um anaeróbio estrito, o que significa que não tolera oxigénio. Embora possa prosperar no ambiente pobre em oxigénio, no interior de um tumor, os tecidos oxigenados nas margens exteriores seriam fatais. Para superar este obstáculo, os pesquisadores foram buscar um gene de outro microrganismo, capaz de tolerar oxigénio. Ao ligá-lo a um sistema de quorum sensing, conseguem garantir que esse gene só é ativado depois de um número suficiente de bactérias se ter multiplicado no interior do próprio tumor:
Dito assim, parece ter sido fácil, mas não foi: “Com recurso à biologia sintética, construímos algo semelhante a um circuito elétrico, mas em vez de fios usámos fragmentos de ADN”, explica o matemático Brian Ingalls, autor principal do estudo, detalhando o processo. “Cada fragmento tem a sua função. Quando são montados corretamente, formam um sistema que funciona de forma previsível”. A partir da certeza que essa abordagem funciona, os investigadores vão iniciar os ensaios clínicos.
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Fonte: Ascom/Sesab, ZAPaeiou, CDC / Wikipedia, trajetoriatop


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