POESIA DOMINICAL MAFRA CARBONIERI

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DESEMBARGADOR, ACADÊMICO E POETA MULTI-PREMIADO

O poeta em contato com as naturezas humana e terrestre.

O Ângulo e Foco traz, nesta Poesia Dominical, um poeta que já devia ser mais conhecido (e reverenciado) pelos brasileiros: José Fernando Mafra Carbonieri, hoje com 91 anos, navega nesta vida equilibrando fazer justiça, dar aulas, ser acadêmico e escrever romances, contos e poesias. Dono de grande erudição e sensibilidade social, seus versos transparecem sua natureza inquieta e certeira. Como poeta, é herdeiro de uma tradição lírica clássica, o que lhe rendeu o prestigiado prêmio cubano Casa de Las Américas. Seu estilo é frequentemente descrito como erudito, porém permeado por uma ironia melancólica e grande domínio formal. Sei que vocês vão gostar e divulgar.

Nasceu em Botucatu, São Paulo, em 13 de abril de 1935. Descendente de imigrantes italianos, iniciou sua vida profissional como professor de português e literatura, destacando-se por ter sido o primeiro a introduzir sistematicamente a obra de Fernando Pessoa em currículos escolares brasileiros, em 1960. Formou-se em Direito pela Instituição Toledo de Ensino (Unitoledo), em 1959, seguindo uma distinta carreira jurídica como promotor de justiça, juiz de direito e, finalmente, desembargador do Tribunal de Justiça de São Paulo.

Sua produção literária é vasta e abrange poesia, romances, contos e literatura infantojuvenil. Em 2012, foi eleito para a cadeira n.º 26 da Academia Paulista de Letras, sucedendo Mário Chamie. Reconhecido por sua técnica refinada e lirismo, Mafra Carbonieri equilibra em suas obras a profundidade psicológica e temas clássicos, recebendo importantes distinções nacionais e internacionais, ao longo de mais de seis décadas de dedicação às letras.

A trajetória de Mafra Carbonieri é marcada pela dualidade entre o Direito e a Literatura. No magistério, foi um divulgador precoce do modernismo português. No sistema judiciário, sua experiência como desembargador criminal serviu de base para obras densas como ‘Um Estudo em Branco e Preto’, onde explora a psique humana, sob uma ótica policial e filosófica.

Prêmios:

1958. Prêmio Octavio Lopes para poesia modernista. Casa da Cultura de Limeira-SP.

1965. Prêmio Governador do Estado para poesia. São Paulo-SP .

1967. Prêmio Governador do Estado para conto. São Paulo-SP.

1972. Prêmio Paraná para conto. Curitiba-PR.

1973. Prêmio Adelino Magalhães. Menção Honrosa para conto. Niterói-RJ.

1996. Prêmio Cruz e Sousa. Menção Honrosa para obra inédita de literatura infantil. “O Menino de Letras”, farsa 2, Florianópolis-SC.

1997. Prêmio Jabuti (indicação de livro de poesia). “Cantoria de Conrado Honório”. São Paulo-SP.

1998. Prêmio Octavio de Faria para romance editado. “O Motim na Ilha dos Sinos”. UBE- Rio.

2000. Prêmio Redescoberta da Literatura Brasileira. Revista Culto Poesia. “A Lira de Orso Cremonesi”.

2001. Prêmio Cecília Meireles. 44° Aniversário da UBE-Rio. Poesia. “A Lira de Orso Cremonesi”.

2002. Prêmio Marengo dOro. Centro Cultural da cidade de Sestri Levante (Gênova, Itália). “A Lira de Orso Cremonesi” (3° lugar).

2003. Prêmio Casa de Las Américas. Cuba. Poesia. Menção especial para A Lira de Orso Cremonesi.

2003. Prêmio Walmir Ayala. Menção Especial para obra inédita. UBE-Rio. Poesia. “Carta sobre O Destino e A Urgência”.

2005. Prêmio da Accademia Internazionale Il Convivio para romance editado. Castiglione di Sicília (CT) – Itália. “O Motim na Ilha dos Sinos”.

Olhar profundo sobre a dura realidade.

POEMAS

Sermão do anônimo padecente

.

O prudente varão há de ser mudo.

Gregório de Matos

.

Com asco desta e de outra vida estando,

lendo Camões como se Bíblia fosse,

.

eu fujo à lida de entender o mundo.

Senatoriais pecados. Vagabundos.

.

Esses anões do grande ornamento,

os cascos no coral de Bob Fosse,

.

a flor no alheio horto e revirando

(tantos ais) nos purgatórios fiscais.

.

A procissão de bodes no inferno

sem Dante, nem Durante, me entontece.

.

Nada tece a esperança do descrente.

Ouvir um Salmo de Davi e um soul

.

para lembrar-me de quem fui e sou:

apenas um anônimo padecente.

Múltiplo sermão

.

Honestos. Mas em recesso.

Orso Cremonesi

.

O medo pinta o rosto de vermelho.

O medo. Ou a culpa. Ou a vergonha.

Está faltando tinta no Congresso.

Eu nada peço. E sempre de joelhos

(nas lajes desta cela ou desta cruz),

persigo a consciência no espelho.

Eu, frei Eusébio do Amor Perfeito.

.

Não sou pornógrafo. Acho que não sou.

Porém, que água lava tal estábulo?

Não tremais, frei Ambrósio do Pavor

Sagrado. Não estamos no Senado.

.

Isto é a capela. Isto é o parlatório.

O cantochão comove o nosso hábito.

Eu leio da Compadecida o Auto.

Eu, frei Anselmo do Silêncio Cauto.

.

Abençoado o vento da campina

(uns vendem gado sem dar nome aos bois)

e o som do órgão no jardim fechado

(uns vendem bois sem saber do gado).

Lavagem ou batismo de dinheiro?

Por isso tudo eu me recolho ao espanto.

Eu, frei Perpétuo do Castigo Santo.

.

Abro a porta do averno caudaloso.

Eu, frei Severo do Clamor Doloso.

.

Transformo a minha ira em lira e hino.

Eu, frei Demétrio do Fervor Divino.

.

Forro meu chão com livros de direito.

Talvez eu ore. Ou talvez eu chore.

Revejo lobos com pele de lobos

durante a homilia dos cordeiros.

.

O medo. Ou a culpa. Ou a vergonha.

Tudo se esconde no alheio leito.

Deixo o mosteiro e vou para Congonhas.

Eu, frei Eusébio do Amor Perfeito.

Sermão da amarga renúncia

.

Nenhum país sai ileso de seus políticos.

Bradford Williams

.

Ouvir os oradores da renúncia:

eles estalam de dores e argúcia:

mastigam santidade e inocência:

lágrimas na pronúncia: cinza na idade.

Ratos eleitos pelos roedores.

.

Só uso o meu perdão com o sal da terra:

os crentes com o mandato da miséria.

.

As hordas de doutores e calhordas

ou hostes de lacaios e prebostes

merecem postes. Nada mais que postes:

estacas do fogo e do óleo ardente.

.

Eleitos, soberanamente eleitos.

Empreiteiros do vazio e do oco.

Dementes. Quero que suportem o soco

de frei Eusébio do Amor Perfeito.

Fontes: Fonte: Guia de Literatura Brasileira Contemporânea (GLBC), Revista Rascunho

One response to “POESIA DOMINICAL MAFRA CARBONIERI”

  1. Avatar de
    Anônimo

    Poesia é luz ,SEMPRE ENRIQUECE.O NOSSO PENSAR SENTIDO.

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