EXPOENTE SIMBOLISTA DO FIM DO SÉCULO 19


A poetisa nordestina é considerada, por famosos, como uma das vozes mais importantes da poesia simbolista no Brasil. A poesia de Auta de Souza tem foco na fé, na melancolia, na saudade e faz reflexão sobre a morte e a espiritualidade, mas tinha confiança de que a Luz vencerá, no futuro. Seu livro mais famoso é Horto, publicado em 1900. A convidada de hoje no Ângulo e Foco, podemos dizer, escrevia seus poemas exibindo alto valor estético. Segundo Luís da Câmara Cascudo, é “a maior poetisa mística do Brasil”. Jackson de Figueiredo a chamou de “a mais alta expressão do nosso misticismo, pelo menos, do sentimento cristão, puramente cristão, na poesia brasileira”. Alceu Amoroso Lima escreveu que ela “viveu em estado de graça e os seus versos revelam de modo evidente”, e, na poesia cristã brasileira, “sempre há de ser um dos altos mais puros e mais solitários”.
Auta de Sousa nasceu em Macaíba, no Rio Grande do Norte, em 12 de setembro de 1876 e morreu em Natal, a 7 de fevereiro de 1901. Foi uma poetisa brasileira da segunda geração romântica (também chamada de ultrarromântica, byroniana ou Mal do Século) e seu mais importante livro se chama “Horto”.
Filha de Elói Castriciano de Sousa e Henriqueta Leopoldina Rodrigues ficou órfã aos três anos, com a morte de sua mãe por tuberculose, e, no ano seguinte, perdeu também o pai, pela mesma doença. Sua mãe morreu aos 27 anos e seu pai aos 38.
Durante a infância, foi criada por sua avó materna, Silvina Maria da Conceição de Paula Rodrigues, conhecida como Dindinha, em uma chácara no Recife, onde foi alfabetizada por professores particulares. Sua avó, embora analfabeta, conseguiu proporcionar boa educação aos netos.
Aos onze anos, foi matriculada no Colégio São Vicente de Paula, dirigido por freiras vicentinas francesas, e onde aprendeu Francês, Inglês, Literatura (especialmente literatura religiosa), Música e Desenho. Lia no original as obras de Victor Hugo, Lamartine, Chateaubriand e Fénelon.
Quando tinha doze anos, vivenciou uma nova tragédia: a morte acidental de seu irmão mais novo, Irineu Leão Rodrigues de Sousa, causada pela explosão de um candeeiro.
Mais tarde, aos quatorze anos, ela também recebeu o diagnóstico de tuberculose, e teve que interromper seus estudos no colégio religioso, mas deu prosseguimento à sua formação intelectual como autodidata.
Continuou participando da Pia União das Filhas de Maria, à qual se uniu na escola. Foi professora de catecismo em Macaíba e escreveu versos religiosos. Jackson Figueiredo (1914) a considera uma das mais altas expressões da poesia católica nas letras femininas brasileiras.
Começou a escrever aos dezesseis anos, apesar da doença. Frequentava o Club do Biscoito, associação de amigos que promovia reuniões dançantes, onde os convidados recitavam poemas de vários autores, como Casimiro de Abreu, Gonçalves Dias, Castro Alves e outros.
A Frustração Amorosa
Por volta de 1895, Auta conheceu João Leopoldo da Silva Loureiro, promotor público de sua cidade natal, com quem namorou durante um ano e de quem foi obrigada, pelos irmãos, a se separar, preocupados com seu estado de saúde. Pouco depois da separação, ele também morreria, vítima da tuberculose.
Esta frustração amorosa se tornaria o quinto fator marcante de sua obra, junto à religiosidade, à orfandade, à morte trágica de seu irmão e à tuberculose. A poetisa, então, encerrou seu primeiro livro de manuscritos, intitulado Dhálias, que, mais tarde, seria publicado sob o título de Horto.
Homenagens póstumas
Auta de Sousa veio a falecer em 7 de fevereiro de 1901, em Natal, em decorrência da tuberculose. Foi sepultada no cemitério do Alecrim, em Natal, mas, em 1904, seus restos mortais foram transportados para o jazigo da família, na parede da Igreja de Nossa Senhora da Conceição, em Macaíba, sua cidade natal.
Em 1936, a Academia Norte-Riograndense de Letras dedicou-lhe a poltrona XX, como reconhecimento à sua obra. E, em 1951, foi feita uma lápide, tendo como epitáfio versos extraídos de seu poema “Ao Pé do Túmulo”:
“Longe da mágoa, enfim no céu repousa
Quem sofreu muito e quem amou demais.”

POESIAS
Fio Partido
.
Fugir à mágoa terrena
E ao sonho, que faz sofrer,
Deixar o mundo sem pena
Será morrer?
.
Fugir neste anseio infindo
À treva do anoitecer,
Buscar a aurora sorrindo
Será morrer?
.
E ao grito que a dor arranca
E o coração faz tremer,
Voar uma pomba branca
Será morrer?
—
Meu sonho
(A Yayá e a Maria Leonor Medeiros)
.
Eu tenho um sonho que no Céu mora
Feito de luz e feito de amor,
Um sonho róseo como uma aurora,
Um sonho lindo como uma flor.
.
E eu vivo sempre, sempre sonhando,
O mesmo sonho de noite-e-dia,
O mesmo sonho suave e brando
De minha vida toda a alegria.
.
Quando soluço, quando minh’alma,
Cheia de angustia, fica a chorar,
O sonho amado me traz a calma
E então minh’alma põe-se a rezar.
.
Quando, nas noites frias de inverno,
Eu tenho medo da tempestade,
Ele, o meu sonho, consolo eterno,
Transforma as sombras em claridade.
.
Quando no seio, choroso e louco,
Palpita, incerto, meu coração…
O sonho doce vem, pouco a pouco,
Trazer-me a graça de uma ilusão.
.
E eu canto e rio na luz dispersa
Deste dilúvio de fantasias…
Minh’alma voa no Azul imersa
Buscando a pátria das harmonias.
.
Imagem doce, visão sagrada,
Quimera excelsa dos meus amores,
Pérola branca, delicia amada
Bálsamo puro das minhas dores;
.
Ele, o meu sonho, farol que encanta,
Guia-me à pátria da salvação
Sorriso ingênuo, relíquia santa,
Do relicário do coração!
.
Caminho do Sertão
(A meu irmão João Cancio)
.
Tão longe a casa! Nem sequer alcanço
Vê-la através da mata. Nos caminhos
A sombra desce; e sem achar descanso
Vamos nós dois, meu pobre irmão, sozinhos!
.
É noite já. Como em feliz remanso
Dormem as aves nos pequenos ninhos…
Vamos mais devagar… de manso e manso,
Para não assustar os passarinhos.
.
Brilham estrelas. Todo o céu parece
Rezar de joelhos a chorosa prece
Que a Noite ensina ao desespero e à dor…
.
Ao longe, a Lua vem dourando a treva…
Turíbulo imenso para Deus eleva
O incenso agreste da jurema em flor.
(1897)
—
Fontes: Wikipedia, Livro Horto


Deixe uma resposta