FERNANDO PESSOA, NERUDA E CARTOLA



Chega o inverno no cafezal. Imagem I.A. Ângulo e Foco.
Oficialmente, hoje começa o Inverno, aqui no Hemisfério Sul. Uma ótima oportunidade de sentirmos a estação, nas palavras de grandes poetas. O dia 21 de junho marca o solstício de junho, início do verão no hemisfério norte e do inverno no hemisfério sul. Embora não seja poético, por si só – podendo significar apenas um evento astronômico – inspirou belíssimas palavras de talentosos artistas. Por isso, a Poesia Dominical encontrou doces frutos poéticos para o deleite d@s querid@s leitor@s. Bom proveito!
“Nos dias de inverno, aconchega-te do teu amor, divirta-se com as crianças, acenda uma fogueira e reúna-te com teus amigos. O calor do amor é tão vital quanto o calor do sol!”
Augusto Branco – pseudônimo de Nazareno Vieira de Souza
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POEMAS SOBRE O INVERNO
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RICARDO REIS – (heterônimo de Fernando Pessoa)
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No Ciclo Eterno
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No ciclo eterno das mudáveis coisas
Novo inverno após novo outono volve
À diferente terra
Com a mesma maneira.
Porém a mim nem me acha diferente
Nem diferente deixa-me, fechado
Na clausura maligna
Da índole indecisa.
Presa da pálida fatalidade
De não mudar-me, me infiel renovo
Aos propósitos mudos
Morituros e infindos.
Ricardo Reis
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PABLO NERUDA
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Não falta ninguém no jardim
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Não há ninguém:
somente o inverno verde e negro, o dia
desvelado como uma aparição,
fantasma branco, de fria vestimenta,
pelas escadas dum castelo. É hora
de não chegar ninguém, apenas caem
as gotas que vão espalhando o rocio
nestes ramos desnudos pelo inverno
e eu e tu nesta zona solitária,
invencíveis, sozinhos, esperando
que ninguém chegue, não, que ninguém venha
com sorriso ou medalha ou predisposto
a propor-nos nada.
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Esta é a hora
das folhas caídas, trituradas
sobre a terra, quando
de ser e de não ser voltam ao fundo
despojando-se de ouro e de verdura
até que são raízes outra vez
e outra vez mais, destruindo-se e nascendo,
sobem para saber a primavera.
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Ó coração perdido
em mim, em minha própria investidura,
generosa transição te povoa!
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Eu não sou o culpado
de ter fugido ou de ter acudido:
não me pôde gastar a desventura!
A própria sorte pode ser amarga
à força de beijá-la cada dia
e não tem caminho para livrar-se
do sol senão a morte.
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Que posso fazer se me escolheu a estrela
para ser um relâmpago, e se o espinho
me conduziu à dor de alguns que são muitos?
O que fazer se cada movimento
de minha mão me aproximou da rosa?
Devo pedir perdão por este inverno,
o mais distante, o mais inalcançável
para aquele homem que buscava o frio
sem que ninguém sofresse por sua sorte?
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E se entre estes caminhos
– França distante, números de névoa –
volto ao recinto da minha própria vida
– um jardim só, uma comuna pobre –
e de repente um dia igual a todos
descendo as escadas que não existem
vestido de pureza irresistível,
e existe o olor de solidão aguda,
de umidade, de água, de nascer de novo:
que faço se respiro sem ninguém,
por que devo sentir-me malferido?
Pablo Neruda
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CARTOLA
Surge a alvorada, folhas a voar
E o inverno do meu tempo começa a brotar, a minar
E os sonhos do passado estão presentes no amor
Que não envelhece jamais
Eu tenho paz e ela tem paz
De nossas vidas muito sofridas caminhos tortuosos
entre flores espinhos demais
Já não sinto saudades
Saudade de nada que fiz
No inverno do tempo da vida
Oh, Deus, eu me sinto feliz.
Cartola – Nome artístico de Angenor de Oliveira, foi um dos maiores compositores e sambistas brasileiros, conhecido por sua poesia musical e por clássicos como “As Rosas Não Falam” e “O Mundo é Um Moinho”.
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