POESIA DOMINICAL- PÁTRIA E TRAIÇÃO

Written in

by

VINÍCIUS DE MORAES, MURILO MENDES E CAETANO VELOSO

O Brasil assiste, estarrecido, um anti-espetáculo de traição à Pátria, tendo como protagonista do show o filho do ex-presidente – o tal candidato a presidir o Brasil. A carta-resposta a Flávio, enviada pelo cubano arrependido e Secretário de Estado trumpista, Marco Rúbio, é uma Prova (com p maiúsculo) de que estamos assistindo, em alta-definição, mais uma tentativa de traição à Pátria. Imagine você, leitora e leitor, o que quiser: Fla Bolso fez isso em troca de quê? Entendi que o gringo do Caribe não aceitou o Brasilzão no seu colo – ou estou enganado? Em sinal poético de protesto, o Ângulo e Foco reuniu três poetas, falando de amor à pátria e de párias.

Vinicius de Moraes

Vinicius (1913-1980) foi um poeta, diplomata, dramaturgo e compositor brasileiro, um dos maiores nomes da literatura e música do nosso País, conhecido por sua poesia lírica e por ser um dos criadores da bossa-nova. Sua obra aborda temas como amor, existência, e também questões sociais e nacionais. Este poema – escrito no exílio – expressa um sentimento íntimo e complexo sobre a pátria, abordando a relação afetiva e, por vezes, dolorosa com o país, incluindo o sentimento de saudade.

.

Pátria Minha

.

A minha pátria é como se não fosse, é íntima

Doçura e vontade de chorar; uma criança dormindo

É minha pátria. Por isso, no exílio

Assistindo dormir meu filho

Choro de saudades de minha pátria.

.

Se me perguntarem o que é a minha pátria, direi:

Não sei. De fato, não sei

Como, por que e quando a minha pátria

Mas sei que a minha pátria é a luz, o sal e a água

Que elaboram e liquefazem a minha mágoa

Em longas lágrimas amargas.

.

Vontade de beijar os olhos de minha pátria

De niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos…

Vontade de mudar as cores do vestido (auriverde!) tão feias

De minha pátria, de minha pátria sem sapatos

E sem meias, pátria minha

Tão pobrinha!

.

Porque te amo tanto, pátria minha, eu que não tenho

Pátria, eu semente que nasci do vento

Eu que não vou e não venho, eu que permaneço

Em contato com a dor do tempo, eu elemento

De ligação entre a ação e o pensamento

Eu fio invisível no espaço de todo adeus

Eu, o sem Deus!

.

Tenho-te, no entanto, em mim como um gemido

De flor; tenho-te como um amor morrido

A quem se jurou; tenho-te como uma fé

Sem dogma; tenho-te em tudo em que não me sinto a jeito

Nesta sala estrangeira com lareira

E sem pé-direito.

.

Ah, pátria minha, lembra-me uma noite no Maine, Nova Inglaterra

Quando tudo passou a ser infinito e nada terra

E eu vi alfa e beta de Centauro escalarem o monte até o céu

Muitos me surpreenderam parado no campo sem luz

À espera de ver surgir a Cruz do Sul

Que eu sabia, mas amanheceu…

.

Fonte de mel, bicho triste, pátria minha

Amada, idolatrada, salve, salve!

Que mais doce esperança acorrentada

O não poder dizer-te: aguarda…

Não tardo!

.

Quero rever-te, pátria minha, e para

Rever-te me esqueci de tudo

Fui cego, estropiado, surdo, mudo

Vi minha humilde morte cara a cara

Rasguei poemas, mulheres, horizontes

Fiquei simples, sem fontes.

.

Pátria minha… A minha pátria não é florão, nem ostenta

Lábaro não; a minha pátria é desolação

De caminhos, a minha pátria é terra sedenta

E praia branca; a minha pátria é o grande rio secular

Que bebe nuvem, come terra

E urina mar.

.

Mais do que a mais garrida a minha pátria tem

Uma quentura, um querer bem, um bem

Um libertas quae sera tamen

Que um dia traduzi num exame escrito:

“Liberta que serás também”

E repito!

.

Ponho no vento o ouvido e escuto a brisa

Que brinca em teus cabelos e te alisa

Pátria minha, e perfuma o teu chão…

Que vontade me vem de adormecer-me

Entre teus doces montes, pátria minha

Atento à fome em tuas entranhas

E ao batuque em teu coração.

.

Não te direi o nome, pátria minha

Teu nome é pátria amada, é patriazinha

Não rima com mãe gentil

Vives em mim como uma filha, que és

Uma ilha de ternura: a Ilha

Brasil, talvez.

.

Agora chamarei a amiga cotovia

E pedirei que peça ao rouxinol do dia

Que peça ao sabiá

Para levar-te presto este avigrama:

“Pátria minha, saudades de quem te ama…

Vinicius de Moraes.”

.

Murilo Mendes

Murilo Mendes (1901-1975) foi um poeta modernista brasileiro, conhecido por sua poesia inovadora e crítica social. Sua obra mistura elementos surrealistas e religiosos, refletindo sobre a condição humana e a realidade brasileira. Em sua “poesia menor”, aborda a pátria sob uma ótica crítica, muitas vezes explorando a ideia de traição ou distanciamento da pátria.  (Obs.: As Erínias, citadas no poema, são figuras da mitologia grega que personificam a vingança e a justiça moral, punindo crimes graves, especialmente os relacionados à família e ao sangue.)

.

O Túnel do Século

.

Sob o céu de temor e zinco

Os prisioneiros caminham, tambores velados:

A manopla da noite pesa

Sobre suas omoplatas, seus sonhos comunicantes.

.

As Erínias, sugadoras antiquíssimas do povo, tambores velados,

Caminham, passo a passo,

Apresentando armas de ódio, punhos implacáveis.

Toda a carne se oferece ao espanto desnudo,

Os castelos de pedra vão se desfazendo

À medida que os heróis agitam a bengala blindada.

As Erínias reproduzem-se durante a noite,

E pela manhã encontramos aberta

A rosa dos ventres.

.

II

Sob o céu de temor e tremor

A estátua da infância é flechada

Pelos descendentes dos ídolos subterrâneos

Que consagram a espada dançante.

Amaldiçoam o pão e o vinho,

Rasgando o caderno de roseiras.

.

Cegos digladiando-se num túnel,

Constroem as próprias sepulturas.

Sob o céu de temor e tremor

Os homens clandestinos, tambores velados, caminham.

.

Caetano Veloso

Caetano Veloso é um dos maiores nomes da música brasileira e também um ícone da resistência cultural contra a ditadura militar, tendo sua trajetória marcada pela criação do Tropicalismo, pelo exílio em Londres e por uma carreira que une arte e militância política. Sua presença, aqui, também traz a poesia de um ex-exilado, por defender a democracia e a soberania. O poema descreve o momento que se vivia no Brasil.

Caetano Emanuel Viana Teles Veloso nasceu em 7 de agosto de 1942, em Santo Amaro da Purificação, Bahia. Cresceu em ambiente culturalmente rico, influenciado pela música e pela literatura. Nos anos 1960, estudou Filosofia na Universidade Federal da Bahia e começou a se envolver com música e crítica cultural.

Na carreira, teve importante trajetória, até hoje. Em 1965, acompanhou sua irmã Maria Bethânia no espetáculo Opinião, no Rio de Janeiro, iniciando sua carreira profissional. Em 1967, lançou com Gal Costa o disco Domingo, que marcou sua entrada oficial na MPB. No mesmo período, liderou o movimento Tropicalista, ao lado de Gilberto Gil, Gal Costa, Tom Zé e Torquato Neto. Esse movimento misturava guitarras elétricas, rock psicodélico e ritmos brasileiros, desafiando padrões conservadores da música nacional.

Em 1968, sua canção ‘É Proibido Proibir’ foi vaiada no Festival Internacional da Canção, tornando-se símbolo de contestação. Em 1969, Caetano e Gil foram presos pela ditadura militar e posteriormente enviados ao exílio em Londres. No exílio, lançou discos como Caetano Veloso (1969) e Transa (1972), que expressavam saudade e crítica política.

De volta ao Brasil, seguiu produzindo obras que mesclavam engajamento político e experimentação estética. Em 1976, formou com Gil, Gal e Bethânia o grupo Doces Bárbaros e, nos anos 1980, e 1990, ampliou sua influência internacional, tornando-se referência da música brasileira no exterior.

Além da música, Caetano sempre se posicionou em debates políticos e sociais, defendendo democracia, diversidade e liberdade artística. Sua trajetória une arte e militância, consolidando-o como um dos maiores intelectuais e artistas brasileiros contemporâneos. É, portanto, não apenas um cantor e compositor, mas um símbolo da resistência cultural e política no Brasil, cuja obra atravessa gerações e continua a inspirar movimentos sociais e artísticos.

.

Língua

(Poema de Caetano Veloso, musicado com Elza Soares)

.

Gosto de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões

Gosto de ser e de estar

E quero me dedicar a criar confusões de prosódias

E uma profusão de paródias

Que encurtem dores e furtem cores como camaleões

Gosto do Pessoa na pessoa da rosa no Rosa

E sei que a poesia está para a prosa

Assim como o amor está para a amizade

E quem há de negar que esta lhe é superior?

E quem há de negar que esta lhe é superior?

.

E deixe os Portugais morrerem à míngua

Minha pátria é minha língua

Fala Mangueira, fala!

Flor do Lácio Sambódromo Lusamérica latim em pó

O que quer, o que pode essa língua?

.

Vamos atentar para a sintaxe dos paulistas

E o falso inglês relax dos surfistas

Sejamos imperialistas, cadê? Sejamos imperialistas!

Vamos na velô da dicção choo-choo de Carmem Miranda

E que o Chico Buarque de Holanda nos resgate

E xeque-mate explique-nos Luanda

Ouçamos com atenção os deles e os delas da tv Globo

Sejamos o lobo do lobo do homem

Lobo do lobo do lobo do homem.

.

Adoro nomes, nomes em ã

De coisas como rã e ímã

Ímã, ímã, ímã, ímã, ímã, ímã, ímã

Nomes de nomes

Como Scarlet, Moon, de Chevalier,

Glauco Mattoso e Arrigo Barnabé

E Maria da Fé e Arrigo Barnabé

Flor do Lácio Sambódromo Lusamérica latim em pó

O que quer, o que pode esta língua?

.

Incrível, é melhor fazer uma canção

Está provado que só é possível filosofar em alemão

Se você tem uma ideia incrível, é melhor fazer uma canção

Está provado que só é possível filosofar em alemão

Blitz quer dizer corisco

Hollywood quer dizer Azevedo

E o Recôncavo, e o Recôncavo, e o Recôncavo meu medo

.

A língua é minha pátria

E eu não tenho pátria, tenho mátria

E quero frátria

A língua é minha pátria

E eu não tenho pátria, tenho mátria

E quero frátria

A língua é minha pátria

E eu não tenho pátria, tenho mátria

E quero frátria

.

Poesia concreta, prosa caótica

Ótica futura

Samba rap, chic left com banana

Será que ele está no Pão de Açúcar?

Tá craude brô, você e tu, lhe amo

Qué que eu te faço, nego?

Bote ligeiro!

Ma’ de brinquinho, Ricardo, teu tio vai ficar desesperado!

Ó Tavinho, põe esta camisola pra dentro

Assim mais pareces um espantalho!

I’d like to spend some time in Mozambique

Arigatô, arigatô!

.

Nós canto-falamos como quem inveja negros

Que sofrem horrores no gueto do Harlem

Livros, discos, vídeos à mancheia

E deixa que digam, que pensem, que falem…

Uma resposta para “POESIA DOMINICAL- PÁTRIA E TRAIÇÃO”

  1. Avatar de
    Anônimo

    NA LEVEZA DAS ARTES, NA FORÇA DOS ANJOS GUERREIROS DA LUZ, QUE A JUSTIÇA DIVINA E INFINITA, NA LUZ DO CRIADOR, DISSOLVA COMO PÓ AO VENTO ESSES DEMÔNIOS DO BRASIL E DO PLANETA. QUEREMOS LULA E JERÔNIMO DE NOVO EM OUTUBRO. SOBERANIA JÁ E SEMPRE. BELAS E APROPRIADAS POESIAS!

Deixe uma resposta

Descubra mais sobre ÂNGULO E FOCO

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continuar lendo