309 políticos de nosso País estão confirmados


A corrida pelos nossos metais-preciosos. Foto:ClickPetroleoeGas.
Nesse tempo de escaramuças pra todo lado, a começar pela própria campanha eleitoral – em que assistimos em 4K o embate entre ministros do Supremo, por interesses inconfessáveis -, vamos deixar, por enquanto, essa temática para o jornalismo diário das TVs e das redes sociais. O Ângulo e Foco traz, hoje, os resultados de uma pesquisa muito interessante, feita pelo Intercept Brasil, publicada sexta-feira (4), que descobriu 309 políticos de nosso País que estão dispostos a vender o subsolo brasileiro.
A exploração do subsolo brasileiro é um interesse em comum, que vai muito além do voto, une um grupo de candidatos nesta eleição. Um levantamento inédito do Intercept Brasil revela que 309 políticos de diversas siglas protocolaram 4.896 requerimentos na Agência Nacional de Mineração, a ANM. Os registros constam em seus próprios nomes e CPFs ou aparecem vinculados a empresas das quais são sócios ou representantes legais. Entre eles, há um candidato à Presidência da República, 12 ao Senado e oito a governos estaduais.
A maior concentração dos processos, no entanto, está nas disputas legislativas. Juntos, os candidatos a deputado estadual respondem por 3.325 registros minerários, enquanto os concorrentes à Câmara dos Deputados somam 847 requerimentos.
Os tipos de processos protocolados na ANM indicam a variedade de investidas dos políticos. A maior parte dos requerimentos se concentra em Autorização de Pesquisa, com 2.933 pedidos para a execução de trabalhos de campo e de laboratório que definem a jazida e determinam se o seu aproveitamento econômico é viável. A autorização gerada, chamada de Alvará de Pesquisa, tem prazo de um a três anos e abrange áreas de 50 a 2 mil hectares, limite que pode chegar a 10 mil hectares na Amazônia Legal.
O levantamento ainda indica 669 pedidos de Registro de Licença, um regime que permite a extração de substâncias destinadas ao emprego imediato na construção civil — como areia, cascalho e saibro — além de calcário empregado como corretivo de solo na agricultura.
Na lista, também há 439 pedidos de Cessão Parcial, um mecanismo que permite ao titular transferir parte de seus direitos de exploração mineral para terceiros após o recebimento do título.
Há 245 requerimentos de Permissão de Lavra Garimpeira, a PLG, um regime de extração voltado a minerais em pequeno volume, como ouro, diamante e cassiterita. O prazo da PLG é de até cinco anos, renovável por mais cinco, para áreas de no máximo 50 hectares, limite que pode ser alterado apenas para cooperativas de garimpeiros.
O levantamento do Intercept expõe uma corrida agressiva tanto por materiais essenciais à infraestrutura quanto por riquezas de alto valor. Insumos básicos lideram o volume na ANM: areia e cascalho aparecem, isolados ou associados a outras substâncias, em mais de 2,4 mil processos. Já o ouro, em 1.118 requerimentos.
Protocolar requerimentos na ANM é uma prática legal e não configura qualquer irregularidade. No entanto, há um possível conflito ético de políticos eleitos transformarem seus interesses comerciais privados em pauta de votação no Congresso Nacional ou em atos administrativos quando ocupam cargos no poder Executivo.
Além disso, essa influência direta ganha peso em um momento de agressiva cobiça internacional pelo subsolo brasileiro, impulsionada pela corrida global por minerais críticos e estratégicos – como são chamadas as substâncias, incluindo terras raras, consideradas fundamentais para setores como defesa, inovação e transição energética.
O Brasil detém hoje a segunda maior reserva de terras raras do planeta, ficando atrás apenas da China. A ofensiva dos Estados Unidos ilustra a dimensão dessa disputa geopolítica. Como parte da estratégia do governo de Donald Trump para reduzir a dependência dos EUA e contornar o domínio da China sobre a cadeia global de minerais críticos, a Corporação Financeira dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional, a DFC, liberou, em fevereiro, um financiamento de 565 milhões de dólares para a mineradora Serra Verde, em Goiás.
O aporte financeiro garantiu aos estadunidenses uma participação acionária na companhia goiana, principal produtora de terras raras do Brasil.
Entre os candidatos mapeados no levantamento do Intercept, o interesse por mineração se espalha por legendas de todo o espectro político, sem cor ideológica definida. A corrida é liderada por candidatos do Mobiliza, com 1.306 pedidos, seguido por Republicanos, com 1.246, e PL, com 547. Candidatos de partidos como MDB, União Brasil, Novo, PSD, PSDB, PT e PSB, entre outros, também figuram na lista.

O candidato a deputado estadual Fred Vidigal, de Goiás. Foto: Reprodução Instagram.
O topo do ranking partidário ocupado pelo Mobiliza tem um responsável direto: Frederico Gonçalves Vidigal, que disputa uma cadeira de deputado estadual por Goiás sob o nome de urna Fred Vidigal. Ele concentra sozinho a marca de 1.292 requerimentos na autarquia. A esmagadora maioria dos processos está registrada em seu próprio CPF, enquanto outros 30 constam em nome da F. G. Vidigal & Cia Ltda, empresa da qual é sócio-administrador. Está na disputa por insumos básicos, como areia e cascalho, à busca direta por minério de ouro.
Em nota enviada à reportagem, Frederico Vidigal negou ser o titular ou beneficiário dos 1.292 requerimentos. Com mais de 25 anos de atuação como geólogo, o candidato afirmou que seu CPF consta na maior parte dos registros da ANM porque atuou como responsável técnico, procurador ou prestador de serviços para clientes do setor mineral.
No mapa geográfico dessa investida, Goiás é o estado líder do ranking, concentrando 1.687 processos protocolados por candidatos na ANM. O maior número de requerimentos é para extração de areia, seguido por ouro – com 516 pedidos de exploração feitos na agência. A força da mineração goiana ganha um rosto de peso na figura de Luiz do Carmo, do PSD, candidato a vice-governador do estado na chapa encabeçada por Daniel Vilela, do MDB – atual líder em todos os cenários da pesquisa de intenção de voto Real Time Big Data divulgada em 28 de agosto. Outro goiano é o senador e candidato a governador Wilder Morais, que aparece em terceiro lugar nas intenções de voto no estado, soma 24 requerimentos protocolados na ANM entre 1976 e 2021, tanto como pessoa física quanto jurídica. Na agência, 17 pedidos permanecem ativos.

Wilder Morais, do PL, candidato ao governo de Goiás. (Foto: Marcos Oliveira/Agência Senado)
Ouro de Tolo
Em maio de 2025, uma promessa bilionária agitou o setor minerário. Notícias alardeavam que o ex-vereador de Bom Jesus, no Piauí, Luis Rodrigues Filho, eleito pelo PCdoB em 2008, havia descoberto uma megajazida na zona rural de Currais, no interior do estado, com potencial estimado em 7,1 mil toneladas de ouro. Para dar credibilidade ao suposto achado, que ultrapassaria a casa dos trilhões de reais, o político usou um Alvará de Pesquisa recém-obtido na ANM, concedido a ele cerca de um mês antes da divulgação na imprensa.
O mapa da mina
O entrelaçamento entre a política institucional e a mineração se apoia fortemente em figuras que já conhecem os caminhos do poder. Pelo menos 105 candidatos que disputam esta eleição e possuem requerimentos na ANM já exerceram algum mandato público nos últimos cinco anos. Esse grupo de veteranos inclui sete políticos que já foram senadores, 22 que atuaram como deputados federais e dezenas de outros que ocuparam cadeiras de deputados estaduais, prefeitos e vereadores.
No Congresso Nacional, o lobby se faz presente com parlamentares que têm ou tiveram assento no Senado. O senador Plínio Valério, do PSDB do Amazonas, que tenta a reeleição, possui um histórico de cinco requerimentos de Autorização de Pesquisa registrados em seu próprio nome. Na época dos pedidos, o alvo do tucano era a exploração de ouro no município de São Gabriel da Cachoeira, no extremo noroeste amazonense.
O status inativo dos processos, no entanto, não afastou o parlamentar da defesa da pauta minerária. Em discurso no Senado, no último 15 de abril, Valério criticou operações de repressão ao garimpo na Amazônia coordenadas pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis, o Ibama, pela Polícia Federal e pela Força Nacional, acusando as ações de atingirem desproporcionalmente populações ribeirinhas vulneráveis sob influência de ONGs.

Senador Plínio Valério, do PSDB do Amazonas. Foto: Edilson Rodrigues/Ag.Senado.
Na corrida pela Câmara dos Deputados, a busca por riquezas naturais também marca a trajetória de Antonio Leocadio dos Santos – o Antonio Doido –, do MDB do Pará. Candidato a deputado federal neste ano, ele já acumula passagens recentes pelo poder: foi eleito para o mesmo cargo em 2022 e comandou a prefeitura de São Miguel do Guamá, no nordeste paraense, de janeiro de 2017 a dezembro de 2020.
Na ANM, o político soma três requerimentos ativos para explorar areia e cascalho. No entanto, nos sistemas da agência constam outros 16 requerimentos – que foram negados ou já expiraram – para exploração de outras substâncias, incluindo diamantes e quartzo. Os pedidos abrangem seis cidades do Pará, incluindo o próprio município que ele administrou.
A corrida sobre minerais de transição energética, fundamentais para a nova economia global, também movimenta os interesses comerciais dos políticos.
A busca por autorizações de pesquisa para a exploração de lítio atrai candidatos à Câmara dos Deputados como Felipe Pedri, do PL do Rio Grande do Sul, e Reginaldo Ferreira, do PL de Minas Gerais, além do candidato a deputado estadual Ivanilson Oliveira, do PV do Rio Grande do Norte.
Os candidatos mencionados no texto foram procurados pelo Intercept, mas muitos não responderam aos questionamentos, ainda.
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