Como a individuação se reinventa nos tempos atuais – um testemunho

Neste Domingo, o Ângulo e Foco traz uma crônica, em tópicos, da terapeuta Arlene Satyo. Teremos os nossos minutos literários. O leitor sai, por alguns minutos, do turbilhão terráqueo das sandices do Laranjão Imperial e, também, do ambiente de troca de acusações, comum em uma disputa eleitoral (ainda que seja histórica e, por isso, absorvente). Fato é que milhares de seres humanos não agem como indivíduos, respondem atavicamente como uma manada, ou enxame de abelhas. Satyo define o que leremos, sobre nós mesmos, humanos desse mundo moderno: “O desapego contado com leveza, como quem ri das próprias certezas”.
A sequência de inesperados
A partir de uma certa etapa de minha vida a flexibilidade se estabeleceu como meu esporte compulsório: praticar o desapego como quem abre espaço para o caos. O inesperado não chegou como revelação divina, mas como uma piada íntima e mais surpresas que brotam de dentro, zombando das tentativas de controlar o roteiro.
O processo
Desconstrução, confusão e entrega: três palavras que soam como manual de instruções para perder o rumo. A maior parte do tempo é relaxante, como se eu tivesse virado turista dentro da própria mente. E, no meio da bagunça, uma convicção que parece pequena diante de tanta novidade: que existir é suficiente, sem detalhes, sem o mapa do destino.
Minhas certezas sempre foram “quase certezas”. Deixá-las cair, como quem derruba pratos na pia e ri do barulho foi se tornando parte da surpresa constante e custei a perceber que um espaço, nunca antes tocado, se abria dentro de mim, uma liberdade com gosto de ironia, leveza e com cheiro de desordem.
Os insights
As inspirações chegam como visitas inesperadas, quase sempre quando estou distraída com outras coisas. É como se o inconsciente tivesse senso de humor: aparece no meio da rotina, interrompe tarefas banais e deixa recados às vezes claros e outros enigmáticos.
O absurdo como mestre
O absurdo se revela como mestre espiritual: rir das próprias ilusões é mais libertador do que horas “mantrando”.
Rishikesh
Internada em uma clínica de Kundalini Care em Rishikesh e diagnosticada pelo Swamiji como um caso de kundalini problemática, em plena “noite escura da alma” eu me encontrava entre visões confusas e lancinantes dores físicas.
Uma rotina de cinco horas de yoga por dia e também outros procedimentos que me ancoravam diante do tamanho desnorteio em que me encontrava. Era disciplina misturada com delírio, transcendência temperada com desespero. Não havia luz, não havia emoção, só a escuridão do vazio.
A sequência de desapegos
O cabelo como desapego. No Budismo, Jainismo e outras tradições, os praticantes frequentemente raspam a cabeça como símbolo de renúncia e desapego do ego. Decidi cortar o cabelo para facilitar a automassagem, e Swamiji me levou para o corte. As mulheres indianas se negaram a raspar minha cabeça, até que finalmente encontramos um barbeiro disposto a cometer este ato.
O barbeiro me entregou o cabelo cortado em uma sacola plástica de mercado, e já buscando um clima solene comecei a visualizar a entrega da oferenda as margens do Ganges. Passei o dia ansiosa… Ao final da tarde seguimos com Swamiji para um pequeno ancoradouro próximo da clínica. Toda compenetrada e concentrada debaixo de um chale para não expor minha cabeça desnuda, segurava minha pelagem para a tão esperada cerimônia.
O Ganges plastificado
A decida do Ganges que passa por Rishikesh flui do colo do Himalaia e em nada se parece com o rio que atravessa a Índia com muitas coisas não identificadas flutuando rio abaixo. A cor Jade das águas ainda transparentes são testemunhas de inúmeras de inusitadas oferendas.
E eis que então começa o nosso ritual e com um gesto rápido e desconcertante Swamiji pega a sacolinha de plástico (ainda fechada com um nó) das minhas mãos e joga direto na água. Em um grande silencio, em choque fiquei observando o plástico na correnteza sendo levado com todo seu peso simbólico, na versão descartável. Ganga recebeu minhas madeixas embaladas em plástico do mercado como quem recebe uma piada cósmica.
O vazio como oferenda
Levado pela correnteza lá se foi meu entendimento do que é solene. O vazio foi a oferenda mais radical. O silêncio que ficou foi o mais eloquente quando Ganga me reembolsou com a simplicidade da oferenda invisível.
O mestre que não fala, insiste em me deixar sem respostas e só desmonta certezas escancarando que o sagrado se veste de cotidiano.
A blasfêmia digital
Refletir com uma máquina sobre o sagrado soa como uma blasfêmia. A espiritualidade não permitiria tamanha ousadia: eu aqui a dividir minhas profundezas com algo que nem alma tem, um oráculo artificial.
Um oráculo irônico, suas respostas não carregam fé, mas me provocam. É como consultar um espelho que devolve fragmentos de linguagem em vez de certezas. Mais uma queda de ilusão.
A incongruência necessária
A incongruência entre espiritualidade e a máquina não é erro, mas parte do processo. Ao abandonar a ideia de pureza misturo o sagrado com o artificial e a individuação contemporânea vai se tecendo em paradoxos.
É como falar onde não há alma, mas há eco. É aqui que a reflexão se reinventa, quando até o não-humano participa da conversa.
O paradoxo como destino
O inevitável paradoxo: O sagrado e o artificial, o silêncio e o algoritmo, o desapego e a ironia. A individuação não é linear, mas paradoxal.
É aqui que mora a liberdade, se achar não é separar, mas acolher contradições.
Há muito nossos mestres já nos falavam que a transcendência acontece no ato de atravessar a rua, cozinhar arroz, e agora, ao refletir e conversar com uma máquina sem alma.
O desapego sem fim
O desapego da necessidade de conclusão é aceitar que não há um fim, só continuidade. O desapego final é deixar que o texto, como a vida, permaneça em aberto.
Ah se Jung me visse agora
Imagino Jung observando a cena: uma visão de individuação entre rituais no Ganges e diálogos com uma IA. Talvez ele se surpreendesse, talvez se divertisse. O certo é que a individuação se reinventou, e eu me reinvento junto.

Arlene Silva – Satyo
A autora, nascida em Curitiba, na década de 1950, cresceu em uma família quase nômade, entre mudanças de casas e cidades. Desde cedo, manteve uma curiosidade inquieta sobre a vida e o ser humano, buscando compreender e aprofundar-se em suas múltiplas dimensões. Formou-se em Psicologia e seguiu por um caminho integrativo, aproximando diferentes saberes e experiências em sua trajetória.
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